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Cultura

Análise crítica de “O Agente Secreto”: O cinema dos trapos e da morte póstuma

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O novo longa de Kleber Mendonça Filho desafia as narrativas de clímax ao focar nos resíduos da história e na política do desaparecimento no Brasil.

Assistir a O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, é uma experiência de “quase apreensão”. O filme não se entrega pelo clímax ou pela economia causal típica de Hollywood; pelo contrário, ele habita o vazio, o intervalo e o resto. A obra mobiliza o que o antropólogo Rodrigo Parrini chama de “an-trapo-logia”: um saber que assume os trapos e os descartados não como sobras inúteis, mas como os elementos que revelam a verdadeira face da história.

Nesta narrativa, os resíduos deixam de ser pano de fundo para se tornarem o motor da dramaturgia. Mendonça narra como quem remenda, utilizando retalhos de vidas que já não cabem no circuito da mercadoria. É um cinema da ruína, mas de uma ruína que é condição histórica do presente latino-americano, onde o sistema descarta sujeitos e o Estado militarizado opera em um ciclo contínuo de apagamento e reciclagem da violência.


A estética da ocultação e o som da morte

O filme organiza a morte não como um evento pontual, mas como um processo contínuo e, muitas vezes, invisível. A política de visibilidade da obra é cirúrgica:

  • Corpos em Trapos: As mortes de civis, pobres, mulheres e estudantes negros são mediadas, veladas ou deslocadas para o fora de campo. Elas chegam ao espectador como rumores, fotografias ou fragmentos (como a célebre “perna cabeluda”).

  • Regime Acústico: Quando a imagem se recusa a mostrar, o som assume o papel de pensar a morte. O barulho de um tiro ou de um corpo arrastado cria uma arquitetura sonora do desaparecimento, transformando o morrer em uma vibração que insiste mesmo após o silêncio da imagem.

  • A Exceção Política: Em contraste, as mortes de agentes da repressão estatal são exibidas com brutalidade e clareza total. Ao esfacelar a carne de quem o poder costuma proteger, o filme devolve o olhar e expõe a engrenagem da violência.

O arquivo como sobrevivência e a morte do cinema

A memória em O Agente Secreto não é orgânica, mas fabricada tecnicamente. A personagem Flávia, que analisa os materiais do Ofir, torna-se uma “montadora moral” de uma vida que ela só conhece através do arquivo. A história chega ao presente como algo lido e traduzido, não vivido, reforçando a ideia de que o arquivo é o que resta quando o corpo desaparece.

O filme também reflete sobre a morte do cinema como espaço físico e social. A transformação de antigos cinemas de rua em hemocentros ou igrejas (tema já explorado em Retratos Fantasmas) simboliza a necrose de uma forma de estar no mundo. Diante da algoritmização do desejo e do isolamento promovido por plataformas de streaming, o longa de Mendonça finca o pé na resistência, defendendo o cinema como um espaço de co-presença e encontro com o tempo lento da imagem.

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Os elementos que compõem o filme

Categoria Descrição na Narrativa
Método Condensação de resíduos, arquivos e massas sonoras.
Cenário Recife e o Ofir: lugares de retalhos e costuras improvisadas.
Simbologia O trapo como alegoria da contra-esperança e da resistência.
Conclusão Recusa da resolução narrativa; o que pulsa é a incompletude.


Com informações: Diplomatique

 

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