As cineastas e pesquisadoras Edileuza Penha de Souza e Camila de Moraes consolidaram suas trajetórias como pilares na luta contra o apagamento histórico da mulher negra no cinema brasileiro. Edileuza, ao fundar a Mostra Competitiva de Cinema Negro Adelia Sampaio (a primeira a premiar cineastas negras), e Camila, ao criar a distribuidora Borboletas Filmes para garantir a circulação de filmes independentes, defendem a necessidade urgente de reparação e a ampliação de políticas públicas para o setor
Por décadas, o cinema brasileiro falhou em dar visibilidade às vozes e trajetórias de cineastas negras. Diante desse cenário de desigualdade estrutural, a professora, pesquisadora e realizadora Edileuza Penha de Souza e a jornalista, diretora e produtora Camila de Moraes construíram caminhos paralelos e redes de apoio que se tornaram decisivas para a transformação do audiovisual negro.
Edileuza Penha de Souza: a reparação do esquecimento
A trajetória de Edileuza Penha de Souza é marcada pela articulação entre pesquisa, formação e realização. Seu incômodo acadêmico ao pesquisar o amor romântico e não encontrar protagonistas ou diretoras negras a levou à redescoberta de Adelia Sampaio — a primeira cineasta negra do Brasil, cujo nome era praticamente ausente da academia.
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Mostra Adelia Sampaio: Em 2014, Edileuza idealizou a primeira Mostra Competitiva de Cinema Negro Adelia Sampaio dentro da UnB. O objetivo era reparar o apagamento da cineasta, que dirigiu um longa em 1984 e produziu 72 filmes no período do Cinema Novo, mas não era reconhecida.
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Luta por Direitos: Para Edileuza, a luta no audiovisual é inseparável da luta por direitos básicos: “Antes de falar de cinema, eu quero falar de saúde, de saneamento, de educação. O audiovisual faz parte dessa estrutura que sempre negou direitos à população negra.” Ela reforça a urgência da reparação, citando que até 2016 a Ancine não havia financiado nenhum longa dirigido por uma mulher negra.
Camila de Moraes: reinventando a distribuição
A jornalista e cineasta Camila de Moraes construiu uma trajetória emblemática, abordando violências do Estado e maternidades negras. Sua experiência mais marcante foi com o documentário O Caso do Homem Errado (2017), sobre o assassinato de Júlio César por policiais, que levou oito anos para ser produzido sem apoio de editais.
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Criação da Borboletas Filmes: Após ter portas fechadas em festivais por ter exibido o filme em um ato político, Camila não desistiu, mas sim reinventou o modelo. Sem distribuidora, ela criou a Borboletas Filmes, uma distribuidora negra e independente que se tornou essencial para a circulação de obras de realizadores negros no país.
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Impacto e Barreiras: Mesmo com a distribuidora e a criação do Circuito Filmes que Voam (projeto que leva sessões semanais de filmes nacionais a espaços culturais), Camila enfrenta barreiras: “Nossos filmes têm público, têm impacto, mas não são reconhecidos como mercado. Por quê?” A cineasta defende a revisão urgente dos critérios de distribuição no Brasil.
Ambas as cineastas compreendem o cinema como direito e política pública. Como afirma Camila: “Se o caminho convencional não nos acolhe, criamos outro caminho. Mas precisamos de estrutura pública para manter esse caminho aberto.”
Com informações: Edileuza Penha de Souza, Camila de Moraes e Agência Brasil