Conecte-se conosco

Mundo

Entenda o conflito no Saara Ocidental que opõe Marrocos e Argélia

Publicado

em

Guerrilha armada luta por independência de área ocupada pelos saarauis

Uma região árida no extremo ocidente do deserto do Saara é disputada há mais de cinco décadas entre o Marrocos e a guerrilha armada chamada Frente Polisário, que tem na Argélia seu principal aliado. 

Com cerca de 266 mil quilômetros quadrados, semelhante ao tamanho do Piauí, a área é ocupada pelo povo saarauí. A guerra, atualmente considerada de baixa intensidade, desestabiliza toda a região do Magreb africano, afetando os cerca de 600 mil habitantes que vivem no Saara Ocidental, segundo dados das Nações Unidas (ONU).

Apoiada pela União Africana (UA), a guerrilha acusa o Marrocos de manter, no norte da África, a última colônia do continente. O conflito começou nos últimos anos da colonização espanhola, em 1973, e completou 52 anos neste mês de maio.

Em 1884, a África foi repartida pelas potências europeias na famosa Conferência de Berlim, e o Saara Ocidental foi entregue à Espanha, enquanto a parte central e o norte do Marrocos ficaram sobre a colonização francesa.

A Argélia também foi ocupada pela França e, após uma brutal guerra de quase uma década, conseguiu se libertar, em 1962. Nesse período, diversos movimentos de descolonização questionavam o controle da Europa sobre o continente africano.

Em 1976, após as últimas tropas espanholas deixarem o Saara Ocidental, o Marrocos assumiu o controle da região e a Frente Polisário autoproclamou a República Árabe Saarauí Democrática (RASD), tendo início o conflito que durou por 16 anos, até 1991, quando foi assinado um acordo de cessar-fogo com a intermediação da ONU.

Ficou acordado que um referendo seria realizado para saber se a região seria independente ou ficaria sob controle marroquino. Porém, a consulta nunca foi realizada por falta de consenso sobre as regras para a votação e sobre quem teria direito de votar.

Anúncio

Conflito no Saara Ocidental

Conflito no Saara Ocidental – Arte/Dijor

A ONU estima que o conflito expulsou, ao menos, 173 mil pessoas que vivem em cinco campos de refugiados próximos à cidade de Tindouf, na Argélia, o que torna o país o segundo do mundo com o maior número de refugiados. A região abriga ainda a principal base militar da Frente Polisário.

Também segundo estimativas da ONU, 88% dos refugiados saarauís sofrem insegurança alimentar, 60% são economicamente inativos e 11% das crianças têm desnutrição aguda, segundo dados de 2024.

As Nações Unidas afirmam que a área está em disputa e classifica o território como “não autônomo”, que é quando os “povos ainda não atingiram uma medida completa de autogoverno”. Ao todo, existem 17 territórios com essa classificação.

Saara Ocidental, 30/05/2025 - O Presidente da República, Secretário-Geral da Frente e Comandante Supremo das Forças Armadas do Saara Ocidental, Ibrahim Ghali. Foto: Agência de Notícias Saharaui/Divulgação

Presidente da República, Secretário-Geral da Frente e Comandante Supremo das Forças Armadas do Saara Ocidental, Brahim Ghali. Foto: Agência de Notícias Saharaui/Divulgação

Fim do cessar-fogo

Em 2020, o secretário-geral da Frente Polisário e comandante do Exército de Libertação Saarauí, Brahim Ghali, anunciou a retomada da luta armada após incursões militares do Marrocos na zona tampão criada por trás do gigantesco muro de 2,7 mil km de extensão. Construído a partir de 1980 pela monarquia marroquina, o muro visou conter a guerrilha.

Atualmente, a situação é caracterizada como um conflito de baixa intensidade. Segundo o último relatório da Missão da ONU para o Saara Ocidental (Minurso), publicado em outubro de 2024, foram registrados diversos incidentes supostamente envolvendo a Frente Polisário e o Exército marroquino.

“A persistência de uma situação deteriorada, aliada a incidentes sem precedentes, é alarmante e insustentável e exige uma reversão urgente, a fim de evitar uma nova escalada”, informou Alexander Ivanko, o enviado da ONU para a região.

Apoios internacionais

Nenhuma das cinco potências do Conselho de Segurança da ONU reconhecem a República do Saarauí, incluindo a Rússia e a China. O Brasil mantém uma posição de neutralidade, não reconhece a autonomia do Saara Ocidental e defende uma saída pacífica negociada, posição semelhante à da Argentina e do Chile.

Em declaração conjunta com o Marrocos em junho de 2024, o chanceler brasileiro Mauro Vieira reforçou que o Brasil “reiterou o apoio aos esforços das Nações Unidas para alcançar uma solução política e mutuamente aceitável”.

Por outro lado, a Frente Polisário tem o apoio de países como África do Sul, Cuba, Mauritânia, Timor Leste e México, entre outros, além da União Africana.

Anúncio

Em dezembro de 2020, os Estados Unidos (EUA), durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, costuraram um acordo com o Rei Mohammad VI. Em troca do reconhecimento do Saara Ocidental como parte do Marrocos, a monarquia constitucional de maioria árabe firmou acordo de reconhecimento com Israel, por meio dos Acordos de Abraão.

Em 2022, a Espanha passou a apoiar a proposta do Marrocos de um plano de autonomia limitada para o Saara Ocidental. Em 2024, foi a vez de a França aceitar o plano marroquino de autonomia limitada, o que irritou a Argélia.

O presidente francês Emmanuel Macron disse que o plano de Marrocos era “a única base para alcançar uma solução política justa, duradoura e negociada”. A Argélia, em represália, anunciou a retirada de seu embaixador de Paris, acusando Macron de “desrespeitar o direito internacional”.

Marrocos, 30/05/2025 - Rei do Marrocos, Mohammed VI. Foto: UNclimatechange/Divulgação

Rei do Marrocos, Mohammed VI. Foto: UNclimatechange/Divulgação

Conflito artificial

O historiador marroquino formado em Rabat, na capital do Marrocos, Mohammed Nadir, que atualmente é professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC paulista (UFABC), questiona a tese de que o Saara Ocidental é a última colônia da África.

Para o especialista, o conflito é uma guerra artificial patrocinada pela Argélia, e anteriormente pela Líbia, de Muammar Gaddafi, que foi derrubado em 2011. Segundo ele, o conflito seria alimentado pelas rivalidades entre os estados da região pela hegemonia do Magreb africano.

“A Argélia tem uma mão por trás de tudo que acontece na medida em que ela apoia militar, financeira e diplomaticamente a Frente Polisário. Sem esse apoio da Argélia, a Frente não dura 24 horas. É uma espécie de guerra fria que a Argélia faz contra o Marrocos utilizando a narrativa revolucionária para apresentar o povo saarauí como um povo oprimido”, disse à Agência Brasil.

O professor Nadir destaca que o reino do Marrocos tem cerca de 1,2 mil anos de história e que tinha controle sobre o Saara Ocidental antes da colonização europeia.

“A Argélia apoia o Polisário para que, eventualmente, em uma separação da Argélia do Marrocos, ela possa ter acesso sobre o Atlântico para exportar os seus minérios”, comentou.

Última colônia

Por outro lado, os defensores da independência do Saara Ocidental argumentam que essa é a última colônia da África. O representante da Frente Polisário no Brasil, Ahamed Mulay Ali Hamadi, informou à Agência Brasil que o povo saarauí está determinado a usar o fuzil para conquistar sua liberdade.

Movimentos sociais que apoiam a independência do Saara Ocidental realizaram um ato na última quinta-feira (29), em Brasília, pedindo o reconhecimento do Brasil para a causa saarauí. O ato também exigiu a libertação de presos pelo Marrocos.

Anúncio

“Fomos uma colônia da Espanha e, por isso, somos o único país árabe que fala espanhol. Começamos nossa luta pela independência contra o colonialismo espanhol. Mas quando a Espanha partiu, o Marrocos, apoiado agora pelos Estados Unidos e pela França, invadiu parte do nosso território e isolou outra parte com um muro de 2,7 mil km, plantando cerca de oito milhões de minas e empregando 150 mil soldados”, destacou.

Para o representante da Frente Polisário no Brasil, a luta do povo saarauí é uma luta pela sua autodeterminação e os apoios que conquistou, incluindo a Argélia, se devem ao reconhecimento internacional da legitimidade dessa luta armada.

Brasília (DF), 29/05/2025 - Manifestação de apoiadores da independência do Saara Ocidental, na Praça dos Três Poderes. Movimentos sociais simpáticos à Frente Polisário pedem liberação de presos por Marrocos e reconhecimento da causa pelo Brasil. Foto: Frente Polisário/Divulgação

Manifestação de apoiadores da independência do Saara Ocidental, na Praça dos Três Poderes. Foto: Frente Polisário/Divulgação


Fonte: Agência Brasil

Continue lendo
Anúncio

1 comentário

1 comentário

Deixa uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mundo

Relações entre China e América Latina em 2026: uma parceria mais estratégica e seletiva

Publicado

em

Por

Reconfiguração dos laços evita rupturas, mas prioriza minerais críticos e transição energética em meio à intensa disputa geopolítica com os Estados Unidos

Em 2026, as relações entre a China e a América Latina consolidam um processo de amadurecimento e reorientação. Embora o gigante asiático permaneça como o principal parceiro comercial de potências regionais como Brasil, Chile e Peru, o modelo de financiamento mudou: saem os empréstimos massivos de bancos estatais e entram investimentos diretos de empresas em setores estratégicos. Esta nova fase é marcada por uma busca mútua por segurança alimentar e transição energética, com foco especial em minerais como o lítio e o cobre, essenciais para a economia verde global.

Apesar da continuidade econômica, o cenário é de cautela. A rivalidade entre Beijing e Washington pressiona governos latino-americanos, que frequentemente se veem em uma “polarização estratégica”. Setores como telecomunicações, economia digital e infraestrutura inteligente tornaram-se campos de batalha diplomáticos. No Brasil, a parceria se fortalece em eletromobilidade e energia eólica, enquanto em países como o México e o Chile, novos ventos políticos testam o equilíbrio entre a dependência comercial da China e o alinhamento histórico de segurança com os Estados Unidos.

Pilares da nova relação China-América Latina

A cooperação atual abandona as obras de infraestrutura genéricas por projetos de “alta qualidade”:

  • Minerais Críticos: Foco total na extração de lítio (Cone Sul) e cobre (Andes) para sustentar a liderança chinesa em baterias e veículos elétricos.

  • Investimento Corporativo: Protagonismo crescente de empresas privadas chinesas em detrimento do Estado como credor direto, visando parcerias locais e aquisições.

  • Transição Energética: Acordos robustos em energia solar, eólica e infraestrutura de carregamento de veículos elétricos, com o Brasil na liderança dessa frente.

  • Geopolítica Tensionada: Pressão dos EUA para reduzir a influência chinesa no Hemisfério Ocidental, especialmente em redes de dados e tecnologias sensíveis.

Impactos regionais e desafios socioambientais

O aumento da demanda chinesa por insumos estratégicos não vem sem custos. Especialistas alertam para o aprofundamento da dependência de matérias-primas e o surgimento de novas tensões socioambientais em áreas de mineração. Além disso, eventos recentes na região, como a captura de Nicolás Maduro na Venezuela pelos EUA e as mudanças de governo no Chile, inserem doses de incerteza sobre o alinhamento político de longo prazo. Para a maioria dos analistas, o desafio da América Latina em 2026 será exercer sua autonomia estratégica para aproveitar as oportunidades de investimento sem se tornar refém da disputa entre as duas superpotências.


Com informações: Dialogue Earth e ECO

Anúncio

Continue lendo

Mundo

Petro e Trump conversam por telefone apos escalada de tensao e ameacas de intervencao

Publicado

em

Por

Dialogo ocorre em meio a protestos na Colombia em defesa da soberania nacional; presidente norte-americano sinaliza encontro futuro mediado por Marco Rubio

Em um desdobramento inesperado da crise diplomatica na America Latina, o presidente da Colombia, Gustavo Petro, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversaram por telefone nesta quarta-feira (7). Segundo Trump, a iniciativa partiu de Petro, que buscou esclarecer divergencias sobre a politica de combate as drogas e as tensoes recentes. O estadunidense classificou o dialogo como uma “honra” e indicou que o secretario de Estado, Marco Rubio, ja trabalha para organizar um encontro presencial entre os dois lideres em um futuro proximo.

A conversa ocorre apos uma semana de ataques verbais agressivos, nos quais Trump chamou Petro de “homem doente” e sugeriu que poderia realizar acoes militares na Colombia semelhantes aos bombardeios ocorridos em Caracas no ultimo sabado (3). Petro, em discurso a apoiadores apos a ligacao, afirmou que Trump foi “enganado” por informacoes falsas sobre sua gestao, mas ressaltou que a situacao da Venezuela — cujo presidente, Nicolás Maduro, foi capturado pelos EUA — tambem foi pauta do dialogo.

Contexto da crise e mobilizacao popular

A tensao entre Washington e Bogota reflete o temor de uma intervencao regional ampliada:

  • Ameacas de Trump: O presidente norte-americano afirmou publicamente que uma acao militar contra a Colombia “soaria bem”, gerando alerta imediato no governo Petro.

  • Defesa da Soberania: Em resposta, manifestacoes ocorreram em diversas cidades, incluindo Bogota e Cúcuta, na fronteira com a Venezuela.

  • Sentimento das Ruas: Manifestantes expressaram preocupacao com a violacao da autonomia latina, embora houvesse divisoes entre o apoio ao governo Maduro e a defesa estrita da soberania colombiana.

  • Diplomacia de Crise: A participacao de Marco Rubio nas negociacoes sinaliza que os EUA manterao uma postura rigida, focada na seguranca e no controle do narcotrafico.

Proximos passos nas relacoes bilaterais

Apesar do tom mais cordial da ligacao, o cenario permanece incerto. Petro insiste que a Colombia nao pode ser alvo de interferencia externa e que as acusacoes de apoio ao narcotrafico sao absurdas. Por outro lado, a administracao Trump mantem a pressao sobre governos de esquerda na regiao apos a captura de Maduro. O provavel encontro entre Petro e Trump sera decisivo para definir se os paises seguirao um caminho de cooperacao diplomatica ou se a retórica de intervencao ganhara forca institucional nos Estados Unidos.


Com informações: Brasil de Fato

 

Anúncio

Continue lendo

Mundo

Gustavo Petro convoca mobilização nacional contra ameaças de intervenção dos EUA

Publicado

em

Por

Presidente colombiano lidera protestos nesta quarta-feira (7) em defesa da soberania; Donald Trump chamou lider de “doente” e sugeriu ação militar

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, convocou a população para ir às ruas de todo o país nesta quarta-feira (7) em uma demonstração de resistência contra as recentes declarações de Donald Trump. O líder norte-americano, em discursos proferidos após a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, atacou diretamente Petro, chamando-o de “doente” e acusando seu governo de fomentar a produção de drogas. As falas de Trump foram interpretadas pelo palácio presidencial colombiano como uma ameaça explícita de intervenção militar e uma violação da autodeterminação dos povos latino-americanos.

Petro confirmou que liderará pessoalmente o ato na Praça Bolívar, em Bogotá, a partir das 16h. Além das manifestações presenciais, o presidente solicitou que os cidadãos hasteiem a bandeira da Colômbia em suas residências e edifícios como símbolo de orgulho e defesa da soberania nacional. O governo colombiano vê as ações de Washington na região, incluindo os recentes eventos em Caracas, como um sinal de um novo ciclo de colonialismo e interferência imperialista que deixa o continente em estado de vulnerabilidade extrema.

Pontos centrais da crise diplomática

A escalada de tensão entre Bogotá e Washington reflete o novo cenário geopolítico da América do Sul:

  • Ataques Pessoais: Donald Trump utilizou termos agressivos para desqualificar Petro, vinculando o governo colombiano ao narcotráfico para justificar possíveis sanções ou ações de força.

  • Soberania em Jogo: Petro defende que a mobilização é necessária para mostrar ao mundo que a Colômbia não aceitará ser tratada como um protetorado dos Estados Unidos.

  • Efeito Dominó: A prisão de Maduro na Venezuela serviu como catalisador para que os EUA aumentassem a pressão sobre outros governos de esquerda na região.

  • Convocação Multitudinária: Forças sociais e sindicatos de diversas regiões confirmaram participação nos protestos marcados para as praças públicas de todo o país.

Defesa da autodeterminação nacional

Em vídeo publicado nas redes sociais, o presidente colombiano enfatizou que a solução para os problemas internos da América Latina deve ser construída sem ingerência externa. Ele classificou a retórica vinda da Casa Branca como “violência imperialista” e alertou que a região corre o risco de retroceder décadas em termos de independência política. A manifestação na Praça Bolívar é vista como um teste de apoio popular ao governo de Petro diante de uma das maiores crises diplomáticas da história recente entre Colômbia e Estados Unidos.


Com informações: teleSur e Brasil de Fato

 

Anúncio

Continue lendo
Anúncio


Em alta

Verified by MonsterInsights