
A peça ORioLEAR, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo, reimagina a tragédia Rei Lear, de William Shakespeare, em um contexto contemporâneo e profundamente brasileiro: a crise ambiental na Amazônia. A produção, da Heróica Companhia Cênica, funde poesia shakespeariana, elementos oníricos e realidade socioambiental amazônica para discutir a devastação da floresta, a luta por terras indígenas e a relação simbólica dos povos com os rios.
A adaptação transpõe a história do rei que divide seu reino entre as filhas para uma região amazônica em colapso, onde a divisão da terra não é apenas política, mas existencial. “Esse espetáculo faz um deslocamento do Rei Lear da Grã-Bretanha para uma região amazônica. Falamos muito sobre a questão da divisão das terras”, conta o ator Ronny Abreu, natural de Santarém (PA) e integrante da companhia. O rio como vida, caminho e identidade No espetáculo, Abreu interpreta um personagem criado especialmente para a adaptação, que simbolicamente pede a devolução do nome de um rio — um ato de resistência cultural. “Para nós que somos dessa região amazônica, o rio não é só água e peixe. Ele é caminho, é estrada, ele é vida”, afirma. O ator traz para a encenação sua vivência na floresta. “Morei na mata até seis anos de idade, convivi muito nesse território, conheço bem o Arapião, os Tapajós. É um povo sofrido, mas feliz, que caminha nas águas, reza e conversa com as plantas. Isso tinha que estar no espetáculo”, diz. Ele relata com preocupação os efeitos das queimadas em sua região natal: “Pela primeira vez, em 52 anos, não consegui ver o outro lado da margem de tanta fumaça. Aquilo me incomodou bastante. E é claro que trago essa carga para o palco, porque sou de lá.” Reflexão sobre a prepotência humana A peça provoca uma reflexão urgente sobre o papel do ser humano diante da natureza. “Erramos quando não nos sentimos parte da natureza. Em algum momento, entendemos que somos mais importantes do que uma samaúmeira, do que uma castanheira… Mas somos prepotentes ao ponto de achar que temos o direito de ir lá e cortá-la”, analisa Abreu. O espetáculo questiona a desconexão entre sociedade urbana e o meio ambiente, destacando como a exploração desenfreada coloca em risco modos de vida e ecossistemas inteiros. Teatro como ato de resistência Para os artistas, o teatro é um chamado à consciência coletiva. “Nós atores, diretores, somos o beija-flor. Fazemos a nossa parte”, diz Abreu, em referência ao conto indígena que simboliza a ação individual diante de grandes catástrofes. “Se conseguirmos fazer com que as pessoas reflitam no uso de materiais, no ato de jogar um pet ou uma lata de alumínio no rio, em cuidar mais dos seus aspectos naturais, já cumprimos um pouco do nosso papel”, reflete. Informações de sessão ORioLEAR segue em cartaz no Itaú Cultural até domingo (17/08), com sessões às 20h de quinta e sexta-feira e às 19h no domingo. Apesar de os ingressos estarem esgotados online, é possível tentar a “fila da esperança” diretamente no local.