
A prática da utilização de animais no ensino, historicamente aceita, enfrenta uma transformação radical motivada por avanços científicos e uma crescente preocupação com o bem-estar animal.
O movimento contra a experimentação animal ganhou força no século XIX, em oposição a figuras como o fisiologista francês Claude Bernard, considerado o pai da vivissecção. Bernard defendia que animais eram "máquinas biológicas" incapazes de sentir dor. A indignação gerada por suas práticas impulsionou a criação de movimentos de proteção, como a Sociedade Francesa Anti-Vivissecção, fundada por sua esposa, Marie Françoise Martin.
O marco regulatório e ético veio em 1959, com a proposta dos biólogos William Russell e Rex Burch do Princípio dos 3Rs:
Substituição (Replacement): Eliminar o uso de animais vivos por métodos alternativos.
Redução (Reduction): Diminuir o número de animais utilizados, quando a substituição não for viável.
Refinamento (Refinement): Minimizar o sofrimento e a dor dos animais usados.
No Brasil, a Lei Arouca (Lei nº 11.794/2008), promulgada em 2008, limitou procedimentos dolorosos e incentivou alternativas. A Resolução Normativa nº 30 trouxe avanços, garantindo o direito dos estudantes à objeção de consciência (o direito de não serem expostos à experimentação animal sem prejuízo na formação) e proibindo o uso de animais para repetir processos biológicos já conhecidos.
Com a Lei Arouca, a maioria das instituições aboliu o uso de animais em disciplinas de farmacologia e fisiologia. O Conselho de Medicina Veterinária, por exemplo, não recomenda o uso de animais no ensino, por considerá-lo incompatível com a missão de salvar vidas.
Apesar dos avanços, o uso de animais ainda persiste, principalmente em:
Medicina: Algumas faculdades ainda usam animais vivos (especialmente porcos) para a prática de técnicas cirúrgicas, argumentando que simulam melhor as condições de alta pressão de uma operação real. Contudo, essa prática é contestada por universidades que investem em manequins e tecidos sintéticos.
Biologia: O estudo de cadáveres ainda é defendido como essencial para o reconhecimento de estruturas morfológicas (taxonomia).
Estudos demonstram que estudantes treinados com modelos 3D, simuladores digitais, realidade virtual e tecidos artificiais desenvolvem habilidades tão boas, ou até superiores, às daqueles que praticaram com animais vivos. A transição para um ensino livre de crueldade é vista não apenas como um avanço técnico, mas como uma necessidade ética urgente para alinhar a formação profissional aos princípios da bioética e da conservação.
Um questionamento ético adicional reside na legislação vigente, que protege apenas os animais vertebrados, excluindo os invertebrados (cerca de 95% da fauna). Essa lacuna normativa levanta dúvidas sobre como a formação acadêmica pode estimular empatia e ética se há discrepâncias no tratamento dado a diferentes espécies.