
Em salas de aula da rede pública e privada do Distrito Federal e do Entorno, professores e acadêmicos negros reforçam que a luta contra o racismo é uma construção cotidiana, que deve ir muito além das celebrações pontuais de novembro. Embora o Dia da Consciência Negra seja um marco simbólico, ele não substitui o enfrentamento diário ao racismo estrutural.
O professor de História e pedagogo Helder da Silva, com 15 anos de rede pública no DF, aponta que, apesar de mais abertura, a efetivação da Lei 10.639/2003 (que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira) está distante do ideal. Ele critica a superficialidade das abordagens, que reduzem a cultura negra a aspectos isolados e folclorizados, como culinária e dança, "descolando os estudantes da realidade brasileira".
Helder destaca que muitos projetos surgem apenas em novembro e têm "prazo de validade", voltando-se a celebrar produções eurocêntricas no restante do ano. Ele exemplifica que a solução passa pela interdisciplinaridade contínua: "Por que não falar de dinheiro citando Nath Finanças na aula de Matemática? Por que não discutir cientistas negros contemporâneos nas aulas de Ciências?".
O professor também revela que a atuação de docentes negros é marcada por micro-silenciamentos e desconfianças que são manifestações do racismo estrutural. No entanto, ele celebra o impacto da representatividade na autoestima dos alunos, como no caso de uma ex-aluna que assumiu o cabelo afro após um projeto seu.
A professora de Língua Portuguesa Vanusa Alves de Carvalho (Formosa/GO) também costura a resistência diária, usando sua própria história de superação como referência positiva para alunas.
Acolhimento: Ela usa sua disciplina para propor leituras e debates sobre a pauta racial e atua no acolhimento de meninas negras que buscam abrigo para dilemas sobre corpo, cabelo e pertencimento.
Confronto: Vanusa enfrenta falas racistas de estudantes que reproduzem clichês como “é mimimi” ou “cotas são injustas”, utilizando história, literatura e ciência para confrontar a negação do racismo.
Letramento Racial: A docente aponta a falta de letramento racial entre alguns colegas, mas se recusa a se calar, transformando sua voz ativa em um ato de resistência contínua contra o apagamento da história negra.
A antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira (USP/UnB), com vasta experiência em formação docente, reforça que o 20 de novembro é um marco simbólico insuficiente para enfrentar um problema estrutural. Ela defende que as práticas antirracistas devem estar incorporadas ao dia a dia das disciplinas e das relações escolares.
Jacqueline atribui a resistência na implementação da Lei 10.639 à falta de formação adequada, ausência de materiais e limites institucionais. Ela defende que as universidades têm um papel central ao consolidar currículos comprometidos e ao garantir a presença de mais docentes negros, fortalecendo o debate e a referência para os futuros professores. A educação, segundo ela, só cumpre seu papel quando enfrenta as estruturas de desigualdade.
Com informações: Jornal de Brasília, Helder da Silva, Vanusa Alves de Carvalho, Jacqueline Moraes Teixeira