
A historiadora e escritora Dia Nobre lançou seu primeiro romance, Boca do Mundo, obra que aborda a violência de gênero, a memória e as estratégias de sobrevivência feminina. O livro foi selecionado pelo clube de assinatura Amora Livros, dedicado à literatura contemporânea escrita por mulheres.

Dia Nobre construiu uma narrativa que recusa a estetização da violência. Seu foco é no modo como as mulheres criam estratégias de sobrevivência em meio à brutalidade, retomando o controle de seus corpos e histórias.
Fuga da Vitimização: A autora se propôs a deslocar o foco da violência em si para a voz das mulheres, como a personagem Tereza, que foge de uma situação de agressões domésticas.
Complexidade Feminina: Dia Nobre critica a representação frequentemente estereotipada de mulheres na literatura escrita por homens, onde lhes faltam "camadas", sendo reduzidas ao papel de objeto sexual, megera ou, simplesmente, vítima.
Força Coletiva: A história ganha movimento quando as quatro personagens principais — Abigail, Hermínia, Urânia (o espaço que narra) e Tereza — se encontram na encruzilhada, símbolo central do livro. Para a autora, a união entre mulheres é uma força coletiva capaz de resistir à violência patriarcal.
A obra, ambientada em um sertão ficcional no estado de Pernambuco, é profundamente influenciada pelas vivências de Dia Nobre no Cariri (onde se formou em História pela URCA) e no sertão pernambucano.
Religiosidade: O universo da escrita é permeado pela religiosidade e pelas cosmogonias afro-indígenas e do catolicismo popular da região, como as romarias ao Padre Cícero.
Urânia, a Terra que Fala: O povoado ficcional de Urânia funciona como um personagem ativo que narra e interfere nos acontecimentos, metamorfoseando-se em seres encantados.
A Metáfora da Serpente: A figura da serpente e o fenômeno da ecdise (troca de pele) são eixos centrais, simbolizando a resistência, a adaptação e o renascimento das mulheres que deixam para trás um passado de violência.
Hermínia, a "Santa das Espancadas": Inspirada em um culto popular que surgiu após o feminicídio de Maria Isabel da Conceição em 1929, a personagem representa a força protetora e a fé como um recurso de enfrentamento, denunciando, ao mesmo tempo, a insuficiência das políticas públicas.
Com informações: Diplomatique