
A recente vitória de José Antonio Kast no Chile acendeu um alerta para as democracias da América Latina, especialmente para o Brasil. Em artigo assinado pela jornalista e cientista política Helena Chagas Salvador, a memória democrática é apontada como o campo de batalha central onde se definirá o futuro político da região. O texto argumenta que a ascensão da extrema direita chilena não foi apenas um fenômeno eleitoral, mas o resultado de uma disputa narrativa que preencheu vazios deixados pelo esquecimento.
No Chile, dois episódios de "esquecimento" foram cruciais. O primeiro refere-se ao Estallido Social de 2019 e ao subsequente processo constituinte. O que nasceu como um clamor por superação do neoliberalismo acabou sendo ressignificado pela direita como um "fracasso total". Sem uma contra narrativa eficaz por parte do governo de Gabriel Boric, que se concentrou na gestão do Estado, a memória das manifestações foi substituída por um sentimento de caos, capitalizado por Kast.
O segundo ponto de análise é a metamorfose da imagem de José Antonio Kast. Em apenas quatro anos, o político — anteriormente visto como um extremista antidemocrático e apologista da ditadura militar — conseguiu se reposicionar como um líder "moderado". Ele focou sua campanha no combate à violência, uma das principais preocupações da cidadania chilena, enquanto o governo não conseguiu converter resultados sociais, como a reforma da previdência de Jeanette Jara, em capital político.
Para o Brasil, a lição chilena é clara: a falta de memória sobre atentados contra as regras democráticas permite a normalização de figuras autoritárias. O artigo destaca que a construção de um futuro democrático exige um trabalho contínuo de comunicação que vá além da reação a ataques. É necessário contar resultados, reconhecer erros e, sobretudo, evitar que o histórico de ações antidemocráticas seja apagado do debate público.
A análise conclui que a união das forças progressistas e a disputa ativa da memória comum são os primeiros passos para uma resistência eficaz ao autoritarismo. No Chile, a direita avançou mesmo dividida, enquanto a esquerda resistiu unida, mas não foi suficiente para deter a mudança de narrativa que reabilitou o extremismo no imaginário popular.
Com informações: Le Monde Diplomatique Brasil.