
A Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob-DF) realizou, no último sábado (24), a terceira audiência pública voltada à atualização do Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU) e à elaboração do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS). O encontro, ocorrido na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), serviu como palco para que usuários do sistema de transporte coletivo e representantes de entidades civis apresentassem sugestões que visam reestruturar o deslocamento na capital federal e nas regiões administrativas.
Segundo o secretário de Transporte e Mobilidade, Zeno Gonçalves, a participação social é o pilar central para que o projeto final reflita as reais necessidades da população. Até o momento, o processo consultivo já contabiliza mais de quatro mil contribuições da sociedade civil. Essas sugestões foram colhidas não apenas nas audiências, mas também em oficinas presenciais realizadas em diversas regiões administrativas e por meio de consultas online. O objetivo é que o PDTU e o PMUS sejam unificados em um texto único, que deverá ser encaminhado para votação na CLDF ainda em 2026.
Um dos pontos de maior destaque nas propostas apresentadas pela equipe técnica diz respeito aos modos ativos de transporte. O plano prevê um investimento robusto na infraestrutura voltada a ciclistas e pedestres. Entre as metas estabelecidas, destaca-se a implementação de 847 km de novas ciclovias, além de 175 km de ciclofaixas e 28 km de ciclorrotas. A ideia é criar uma rede conectada que permita o uso da bicicleta como transporte principal ou complementar ao sistema de ônibus e metrô.
Além da malha viária, o projeto contempla a instalação de paraciclos em pontos estratégicos, como estações de metrô, terminais de BRT e paradas de ônibus. A micromobilidade elétrica e a reforma de travessias subterrâneas também constam no escopo de ações para tornar o trânsito mais humano e acessível. A intenção é reduzir a dependência de veículos motorizados individuais, promovendo um ambiente urbano mais sustentável e menos congestionado.
O Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) introduz conceitos modernos de urbanismo, como a criação das "Zonas 30". Nessas áreas, localizadas prioritariamente em zonas residenciais e próximas a escolas e hospitais, a velocidade máxima permitida será de 30 km/h. O objetivo é reduzir drasticamente o risco de atropelamentos e acidentes graves, garantindo a segurança de crianças, idosos e pessoas com deficiência.
Outra inovação apresentada é o modelo de "Ruas Completas". Nessas vias, o espaço urbano é redistribuído de forma equilibrada entre ônibus, ciclistas e pedestres, com a velocidade máxima limitada a 50 km/h. Segundo a engenheira Fernanda Malon, do Labtrans, a Avenida Hélio Prates, em Ceilândia, é um dos exemplos de locais que receberão esse tratamento, incluindo a instalação de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e travessias elevadas para facilitar o fluxo de pessoas.
Para o sistema de transporte coletivo, o PDTU desenhou cenários que contemplam obras estruturantes de grande impacto. Estão previstos projetos como o BRT Norte, BRT Leste e o Anel BRT do Plano Piloto, além da ampliação da linha do metrô e a implementação de sistemas de VLT em regiões densamente povoadas como Taguatinga e Ceilândia. Ao todo, as propostas somam mais de 300 km de novas vias dedicadas ao transporte público, sendo uma parcela significativa destinada ao modal ferroviário.
A integração com o Entorno do Distrito Federal também foi pautada, com a previsão de trens regionais que facilitariam o deslocamento diário de milhares de trabalhadores. O plano inclui ainda a construção de uma nova ponte sobre o Lago Paranoá e um acesso inédito para a região de São Sebastião, visando desafogar os gargalos atuais de trânsito nas saídas sul e leste de Brasília.
Apesar do otimismo com o avanço técnico, representantes de movimentos sociais alertam para os desafios da execução. Wesley Ferro, secretário-executivo do Instituto Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade para Todos (MDT), destacou que o plano precisa de um respaldo jurídico e político sólido. Ele ressaltou que decisões judiciais e falta de articulação entre os poderes podem atrasar obras vitais, como os corredores exclusivos de ônibus.
A Semob-DF reforçou que continuará o diálogo com a sociedade e que a próxima etapa será a discussão específica do projeto de lei que dará base legal a todas as mudanças propostas. A expectativa é que, com a unificação dos planos, o Distrito Federal consiga estabelecer uma política de estado para a mobilidade que ultrapasse gestões governamentais e foque na eficiência do transporte de massa.
Com informações: Agência Brasília, Jornal de Brasília