
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, no início deste mês (fevereiro de 2026), as resoluções que definem o futuro do cultivo de cannabis no Brasil. O novo marco regulatório, que passa a valer em agosto, introduz o conceito de "sandbox experimental": um período de cinco anos para testar modelos de fornecimento e cultivo fora do padrão industrial tradicional, em pequena escala e sob supervisão rigorosa.
Para a Dra. Andrea Gallassi, coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas da UnB, a mudança é histórica. Até então, cada projeto de pesquisa dependia de uma autorização individual e burocrática. Agora, com a "autorização guarda-chuva", uma única licença institucional poderá abrigar diversos estudos simultâneos, acelerando a descoberta de novas terapias e a análise de qualidade de produtos já utilizados por pacientes.
As novas regras trazem esperança para entidades como a Abrapango, com sede em Brasília. Atualmente, associações de pacientes operam sob liminares judiciais para garantir o acesso ao óleo de cannabis. O "sandbox" da Anvisa pretende normatizar essa cadeia, permitindo que essas organizações participem de protocolos estruturados e parcerias com universidades.
"As associações já produzem dados reais de uso. Isso deve evoluir para protocolos mais estruturados em condições como TEA (autismo), dor crônica e doenças neurodegenerativas", afirma Monica Barcelos, diretora da Abrapango.
A regulamentação também permite que a Embrapa estruture oficialmente seu programa científico dedicado à Cannabis sativa. O foco será transformar a planta em um ativo da bioeconomia brasileira através de quatro eixos:
Genética: Melhoramento de sementes e cultivares.
Sistemas de Produção: Protocolos de manejo indoor e outdoor.
Qualidade: Padronização e controle de contaminantes na pós-colheita.
Políticas Públicas: Zoneamento e modelos viáveis para pequenos produtores.
Um ponto de destaque na nova norma é a diferenciação clara entre o uso medicinal (com presença de THC e CBD para fins farmacêuticos) e o cânhamo industrial. O cânhamo, variedade com baixo teor de THC, possui um mercado vasto que vai além da saúde, incluindo a fabricação de tecidos, cosméticos, alimentos e até materiais de construção. A expectativa é que os próximos editais da Anvisa tragam clareza sobre como o setor industrial poderá absorver essa produção, garantindo inclusão produtiva e soberania tecnológica ao Brasil.