
A biologia sintética acaba de alcançar um marco digno de ficção científica. Pesquisadores do J. Craig Venter Institute (JCVI), na Califórnia, conseguiram "ressuscitar" células bacterianas mortas ao substituir seu DNA inativo pelo genoma funcional de uma espécie diferente. O feito, detalhado em um artigo no servidor bioRxiv em março de 2026, introduz o conceito de "células zumbis" no vocabulário científico.
Na prática, os cientistas utilizaram a bactéria Mycoplasma capricolum, que foi tratada com a droga quimioterápica mitomicina C para danificar permanentemente seu DNA, deixando-a incapaz de se replicar — funcionalmente morta. Em seguida, inseriram o genoma sintético da espécie aparentada Mycoplasma mycoides. O resultado foi surpreendente: uma pequena fração dessas células "mortas" absorveu o novo DNA e voltou à vida, passando a operar sob as instruções do genoma doador.
A grande inovação desta técnica reside na solução de um problema que atormentava a biologia sintética há 15 anos. Em experimentos anteriores, era difícil garantir que a célula receptora tinha realmente adotado o genoma inteiro do doador. Frequentemente, as bactérias apenas incorporavam pequenos pedaços de DNA (como genes de resistência a antibióticos) através de um processo chamado recombinação homóloga, gerando resultados enganosos.
Ao "matar" previamente o genoma da célula receptora com a mitomicina C:
Impedimento de Recombinação: A célula não consegue mais "remendar" seu próprio DNA com pedaços do doador.
Foco no Genoma Total: A célula só sobrevive e volta a se replicar se aceitar o genoma completo do doador.
Precisão: Garante que a nova forma de vida seja exatamente o que os cientistas projetaram.
A capacidade de criar "zumbis" de forma rotineira pode acelerar drasticamente o desenvolvimento de microrganismos projetados para funções específicas. "A célula está destinada a morrer, mas nós lhe damos a vida", afirma Zumra Peksaglam Seidel, coautora do estudo.
O próximo passo da equipe é tentar realizar esse transplante entre espécies menos aparentadas, como a onipresente Escherichia coli. Se bem-sucedido, o método permitirá testar genomas inteiramente criados por Inteligência Artificial, transformando bactérias em fábricas ultraeficientes de:
Medicamentos complexos: Produção de insulina, vacinas e novos antibióticos.
Biocombustíveis: Microrganismos que "comem" resíduos e expelem energia limpa.
Remediação Ambiental: Bactérias projetadas para limpar derramamentos de óleo ou absorver plástico nos oceanos.
Células Zumbis / Biologia Sintética / Genética / J. Craig Venter Institute / Genoma Sintético / Bactérias / Biotecnologia / DNA / Inovação Científica / Nature