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Por que os países pobres parecem mais otimistas com a IA

Pesquisa da Anthropic revela entusiasmo em nações em desenvolvimento mas dados do Datafolha sugerem que esse sentimento pertence às elites locais

Por: Gutemberg Silva Fonte: Anthropic / Datafolha / Agência Brasil
28/03/2026 às 06h00
Por que os países pobres parecem mais otimistas com a IA

O avanço da inteligência artificial (IA) tem desenhado um mapa de percepções globais curioso e, à primeira vista, contraditório. Um estudo recente publicado pela Anthropic, desenvolvedora do chatbot Claude, analisou a opinião de 79 mil pessoas ao redor do mundo. O dado que saltou aos olhos dos pesquisadores foi o elevado índice de otimismo em regiões como a África Subsaariana e o Sul da Ásia, onde o receio com a tecnologia é quase metade do registrado na América do Norte e na Europa.

Enquanto em países desenvolvidos a IA é frequentemente vista como uma ameaça aos postos de trabalho e à privacidade, em nações emergentes ela aparece sob a ótica da mobilidade social. No entanto, uma análise mais profunda sobre quem são esses respondentes revela uma distorção que pode esconder uma nova e profunda desigualdade tecnológica.

O viés da elite nos países em desenvolvimento

A pesquisa da Anthropic foi realizada com usuários que já utilizam o sistema Claude. Em países com abismos sociais acentuados, como o Brasil, o perfil desse usuário não representa a média da população. Segundo dados da Datafolha, a utilização de ferramentas de IA é de 66% na classe A, despencando para apenas 23% na classe D. No campo educacional, a distância é ainda maior: 73% entre pessoas com ensino superior contra 18% entre aquelas com ensino fundamental.

Isso sugere que o "otimismo dos países pobres" é, na verdade, o otimismo das elites desses países. Grupos que possuem maior escolaridade e renda são os primeiros a capturar o valor das transições tecnológicas, utilizando a IA como ferramenta de produtividade e ganho financeiro, enquanto a base da pirâmide social permanece à margem do processo.

A nova fronteira da desigualdade digital

Diferente de sociedades mais homogêneas, onde o impacto da tecnologia é distribuído de forma mais equilibrada, em países marcados por assimetrias, a IA pode atuar como um acelerador de desigualdades. Aqueles que já operam sistemas "AI-enabled" em suas rotinas profissionais antecipam sua adaptação ao mercado, enquanto a maioria da população é impactada pelas mudanças sem necessariamente ter acesso ou controle sobre as ferramentas.

A percepção de que a IA é uma "alavanca" parece ser um privilégio de quem já está em uma posição de vantagem. Para a elite histórica, a disrupção tecnológica é vista como uma oportunidade de expansão; para o restante, o risco de substituição e exclusão digital é uma realidade que o otimismo das pesquisas corporativas ainda não consegue traduzir com fidelidade.

O desafio da democratização tecnológica

Para que a inteligência artificial não se torne apenas mais um divisor de águas entre ricos e pobres dentro das mesmas fronteiras, especialistas defendem que o debate deve migrar do otimismo abstrato para políticas públicas de acesso. A formação de uma nova fronteira digital já é visível, e o silêncio dos mais pobres sobre a IA pode não ser falta de preocupação, mas sim o reflexo de um distanciamento que impede até mesmo a compreensão dos riscos envolvidos.

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Inteligência Artificial / Desigualdade Digital / Anthropic / Datafolha / Tecnologia

 

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