
A atual instabilidade no mercado de petróleo, impulsionada por conflitos no Oriente Médio e na Rússia, coloca a energia novamente no centro da segurança nacional. Para o Brasil, no entanto, o cenário é de resiliência. Em artigo recente, os pesquisadores Pedro Abel Vieira e Décio Luiz Gazzoni destacam que a "arma secreta" brasileira — a produção de biocombustíveis em larga escala — não é obra do acaso, mas de uma construção institucional histórica.
O texto aponta que o Estado brasileiro, embora muitas vezes criticado por sua burocracia, demonstrou uma capacidade ímpar de criar "núcleos de alta capacidade" em setores estratégicos. O maior exemplo disso foi a resposta ao choque do petróleo dos anos 70 com a criação do Proálcool, que hoje garante que a gasolina brasileira contenha até 30% de etanol, índice que deve subir para 35% nos próximos anos.
A estratégia não parou no etanol. Os autores relembram marcos como:
Biodiesel: Implementado em 2004, hoje a mistura no diesel é de 15%, com meta de chegar a 25%.
Energia Elétrica: A Itaipu Binacional, que em 2026 gerou 73 TWh (10% do consumo nacional), agora ganha a companhia das fontes fotovoltaica e eólica, que já somam 75 GW instalados — o equivalente a mais de cinco usinas de Itaipu.
Etanol de Milho: Uma expansão recente no Centro-Oeste que diversifica a oferta e mitiga riscos climáticos antes restritos à cana-de-açúcar.
A análise defende que o Brasil aprendeu a usar crises para "focalizar" suas instituições. Em tempos de incerteza geopolítica, o país funciona com um amortecedor natural: quando o petróleo sobe lá fora, a frota flex fuel e a oferta doméstica de renováveis mitigam o impacto na inflação e no bolso do consumidor.
No entanto, Vieira e Gazzoni deixam um alerta: para o futuro, o desafio é transformar essas "ilhas de sucesso" em uma estratégia de desenvolvimento mais ampla. O próximo passo envolve avançar para combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e biorrefinarias, agregando densidade tecnológica à produção agrícola.
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