
O acesso ao crédito formal, que historicamente foi visto como uma ferramenta de inclusão financeira e ascensão social, transformou-se em uma armadilha invisível para as populações das periferias brasileiras. Um levantamento do Datafolha aponta que 67% dos brasileiros declaram possuir dívidas financeiras. Para o geógrafo e pesquisador Kauê Lopes dos Santos, autor do livro “Parcelado”, o fenômeno do "endividamento crônico" tornou-se uma variável estrutural que aliena o futuro e sabota a mobilidade social, atingindo de forma desproporcional a população negra e periférica.
Em sua pesquisa, baseada nos bairros Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela, em São Paulo, o autor destrincha como a arquitetura do consumo nacional se apoia em um tripé predatório: a publicidade em massa, o sistema de crédito com juros abusivos e a obsolescência programada (a precariedade proposital de eletrodomésticos e eletrônicos que estragam antes mesmo de o cliente quitar as prestações).
Lopes dos Santos adverte que a questão de classe no Brasil é profundamente informada pela raça. Ao cruzar a geografia urbana com os critérios das mesas de análise de crédito dos bancos, fica evidente a operação do chamado racismo creditício:
Risco inflacionado: Por habitarem bairros historicamente desprovidos de infraestrutura e acumularem empregos precarizados, os indivíduos negros (pretos e pardos) são classificados pelo sistema financeiro como clientes de "maior risco".
Juros punitivos: Essa leitura enviesada resulta na aplicação de taxas de juros mais altas para a população de baixa renda. Dados de mercado indicam que as mulheres negras são as que mais sofrem com a cobrança dessas taxas abusivas.
Acúmulo de perdas: O fenômeno retroalimenta a tese do sociólogo Carlos Hasenbalg sobre o "ciclo cumulativo de desvantagens". O cidadão negro consome para obter qualidade de vida mínima (bens básicos como geladeiras e televisões), mas paga muito mais caro pela mesma mercadoria do que um cidadão de classe média alta.
A absorção dessa cronicidade financeira mudou drasticamente a rotina das famílias. Para dar conta do orçamento totalmente comprometido com parcelas de longo prazo, a população recorre a jornadas de trabalho triplas, atua nos fins de semana ou se joga no mercado informal (como bicos de confeitaria ou motoristas de aplicativo). O resultado é uma periferia composta por trabalhadores exaustos.
"O sujeito encontra duas saídas: ou aumenta a jornada de trabalho ou começa a jogar no 'tigrinho' e bets. Mas logo percebe que isso gera perda de dinheiro; então a alternativa será entrar no cheque especial e no crédito fácil para resolver aquela situação momentânea".
Com o governo federal sinalizando o lançamento de uma nova versão do programa Desenrola Brasil, o pesquisador pondera que tais iniciativas são positivas no curtíssimo prazo para aliviar o sufoco imediato das famílias. Contudo, funcionam apenas como um paliativo de fluxo.
A prova disso é que, desde a primeira edição do programa, cerca de 9 milhões de brasileiros já retornaram à situação de inadimplência. O Desenrola limpa o nome do cidadão, mas garante apenas a sua volta ao mercado de consumo e ao mesmo sistema de crédito predatório, sem resolver o problema de forma estrutural. Para o geógrafo, uma mudança real exige reformas legislativas que ampliem o tempo de garantia dos produtos contra a obsolescência, regulação severa da publicidade e uma educação financeira de base que ensine como o sistema de juros opera, deixando de culpar o indivíduo por um endividamento que é, em sua essência, sistêmico.
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Kauê Lopes dos Santos / Parcelado / Endividamento Crônico / Racismo Creditício / Desenrola Brasil / Economia Periférica