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Com aporte de R$ 6 bilhões da Ascenty, Brasil desbanca tese de soberania do Paraguai no mercado de IA

Maior empresa de infraestrutura digital da América Latina anuncia construção do primeiro data center dedicado à inteligência artificial em Sumaré (SP); big techs projetam gastar mais R$ 30 bilhões em computadores

Por: Gutemberg Silva Fonte: Análise setorial e dados estratégicos fornecidos por executivos da Ascenty ao jornalista Helton Simões Gomes
07/06/2026 às 13h03
Com aporte de R$ 6 bilhões da Ascenty, Brasil desbanca tese de soberania do Paraguai no mercado de IA

A acirrada corrida internacional pela atração de investimentos voltados ao processamento de inteligência artificial gerou, recentemente, uma falsa impressão de que o Brasil estaria perdendo espaço estratégico para o Paraguai. O rumor mercadológico ganhou força após o anúncio da norte-americana X8 Cloud, que projetou investir R$ 250 bilhões no país vizinho ao longo de três décadas, surfando na energia limpa de Itaipu e Yacyretá, além de discursos políticos locais, como o do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, criticando a suposta debandada de empresas para a Tríplice Fronteira. No entanto, os movimentos operacionais da maior empresa de data centers da América Latina desidratam completamente essa tese.

A Ascenty anunciou um investimento massivo de R$ 6 bilhões (cerca de US$ 1,2 bilhão) para erguer quatro novas centrais de dados no estado de São Paulo. O grande destaque do pacote é a construção, totalmente do zero, do primeiro data center da região desenhado especificamente para suportar cargas de trabalho de IA. Chris Torto, CEO da Ascenty, revelou que a companhia adota uma postura estritamente pragmática e só inicia as obras civis quando já possui contratos de locação integral assinados. A unidade pioneira em IA será totalmente ocupada por uma big tech estrangeira que planeja expandir sua capilaridade de ferramentas no continente.

O fluxo financeiro dessas estruturas é exponencial: o mercado calcula que, para cada US$ 1 investido na construção civil dos galpões, as empresas locatárias precisam desembolsar outros US$ 5 na compra de supercomputadores e chips de última geração. Isso significa que os clientes da Ascenty injetarão mais de US$ 5 bilhões (aproximadamente R$ 30 bilhões) em equipamentos de processamento em solo paulista. Para o comando da Ascenty, o Paraguai não figura como um concorrente viável em larga escala devido a travas estruturais crônicas: o país vizinho dispõe de apenas 1,2 GW de energia dedicada, não possui um mercado consumidor doméstico relevante e carece de pontos de ancoragem de cabos submarinos, o que o obriga a exportar toda a sua massa de dados.

Aceleradores especiais: Líquido refrigerante para conter o calor da IA

O novo data center de IA ficará sediado no município de Sumaré, a 120 quilômetros da capital paulista. A planta tecnológica ostentará uma potência instalada de 90 Megawatts (MW) e tem previsão de entrega física para novembro do próximo ano. A instalação de servidores voltados para alimentar sistemas como ChatGPT e Gemini exige uma reengenharia térmica radical devido ao consumo elétrico colossal dessas máquinas.

A tabela abaixo detalha as diferenças operacionais de infraestrutura entre as centrais de serviços digitais comuns e os novos complexos de inteligência artificial:

Parâmetro Técnico Data Center Convencional (Web/Nuvem) Data Center de Inteligência Artificial (IA)
Consumo por Rack de Servidores Média de 8 kWh De 60 kWh até 1 GWh
Sistema de Refrigeração Ar condicionado / Fluxo de ar convencional Liquid Cooling (Circuito fechado de água)
Consumo de Recursos Hídricos Reposição contínua de água Desperdício zero (o líquido circula por anos)
Geração de Empregos (Sumaré) 600 na obra / 120 postos permanentes

Logística de distribuição e a barreira da latência física

A abundância de energia limpa e o custo de geração menor do que o praticado nos Estados Unidos consolidam a vanguarda do Brasil, mas o calcanhar de Aquiles do país reside nos gargalos de distribuição de energia. Para ligar o monstro tecnológico de Sumaré, a Ascenty precisou investir do próprio bolso R$ 250 milhões para construir uma linha de transmissão privada de 32 quilômetros, puxando a eletricidade de uma subestação em Santa Bárbara d'Oeste. Paralelamente, em Vinhedo (SP), a empresa expandirá seu complexo — o maior da América Latina —, elevando a capacidade de uma planta de 50 MW para 80 MW, além de projetar três novas unidades (uma de 90 MW e duas de 45 MW).

De acordo com o diretor da Ascenty, Marcos Siqueira, processar os dados em território nacional é uma questão matemática de latência (tempo de resposta do sinal eletrônico). Se uma IA faz uma inferência com servidores baseados em São Paulo, o tempo de resposta é de apenas 2 milissegundos. Caso esse mesmo dado precise viajar até os Estados Unidos para ser processado, o tempo salta para 150 milissegundos. Embora pareça imperceptível para o usuário comum, essa fração de segundo inviabiliza aplicações críticas de alta precisão, como cirurgias robóticas remotas, automação industrial complexa e transações financeiras de alta frequência na bolsa de valores.

O Brasil atua como o principal hub digital do continente por abrigar os três maiores pontos de ancoragem de cabos submarinos da América Latina, situados em Fortaleza (CE), Rio de Janeiro (RJ) e Santos (SP) — estruturas que carregam 90% da internet mundial. Diante desse cenário, Torto aponta que os verdadeiros concorrentes do Brasil no mercado de IA são o Chile e o México na América Latina, além de Finlândia e Malásia no cenário global. Para o CEO, o Brasil poderia atrair ainda mais bilhões se o Congresso Nacional destravasse o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter). Proposto pelo governo federal, o projeto isenta de impostos federais a importação de componentes tecnológicos para centrais de dados, antecipando os efeitos da reforma tributária. Os executivos alertam que as big techs estão tomando suas decisões de investimento agora e o país não pode se dar ao luxo de esperar até 2032 para se tornar competitivo.

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  Ascenty / Data Center / Inteligência Artificial / Chris Torto / Sumaré / Vinhedo / Redata / Latência / S&P  

 

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