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Três livros esquecidos da literatura brasileira que valem a leitura

Três livros esquecidos da literatura brasileira que valem a leitura

Redação
Por: Redação
10/05/2025 às 06h00 Atualizada em 10/05/2025 às 09h00
Três livros esquecidos da literatura brasileira que valem a leitura
Foto: Reprodução

Três obras para revistar títulos pouco conhecidos de grandes autores da literatura nacional

A literatura brasileira tem tantos clássicos, e tão ricos, que se torna difícil lembrar de todos. Às vezes, mesmo um autor já conhecido, com romances "de rosto", pode ter na sua bibliografia obras menos exploradas, mas que, se revisitadas, têm muito a oferecer. Por isso, esta lista com três obras menos mencionadas da literatura brasileira tenta resgatar a memória daqueles livros que não se tornaram exatamente ícones literários de seus autores. Caetés, Graciliano Ramos
Caetés, Graciliano Ramos. Créditos: Record/divulgação
Mais conhecido por Vidas Secas, sua obra-prima, Graciliano Ramos tem um estilo de escrita claro e simples, mas que apela a recursos poéticos originais do linguajar interiorano. Às vezes, dá um ar de Guimarães Rosa, mas sem os floreios e sem tantos neologismos — apesar de Graciliano também recorrer a vários desses. Em Caetés, seu primeiro romance, publicado em 1933, Graciliano conta, em primeira pessoa, a história de João Valério, que também quer escrever um romance. Curiosamente, a obra do personagem do livro também se chama Caetés, e é um romance sobre a comunidade indígena originária do Brasil que "deglutiu" o bispo e evangelizador Sardinha. O romance é repleto de reflexões pessoais e filosóficas, mas escritas de um modo simples e engraçado; e a trama se torna mais envolvente ainda quando, num triângulo amoroso, Valério acaba se apaixonando pela mulher do dono da firma em que ele trabalha, o que acaba em tragédia (mas sem spoilers).
"Voam-me desejos por toda a parte, e caem, voam outros, tornam a cair, sem força para transpor não sei que barreiras. Ânsias que me devoram facilmente se exaurem em caminhadas curtas por essa campina rasa que é a minha vida."
O livro, que é curto, finda com um monólogo muito bonito sobre os "quatrocentos anos de civilização", ser ou não ser selvagem (como são considerados os caetés que o personagem principal tanto estuda), a timidez e a inteligência, o sentir de menos e demais do personagem e, por fim, a descoberta de que o homem moderno também é caeté. "Descrente? Engano. Não é ninguém mais crédulo que eu. E esta exaltação, quase veneração, com que ouço falar em artistas que não conheço, filósofos que não sei se existiram! Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo — uma estrela no céu, algumas mulheres na terra..."
A Obscena Senhora D., Hilda Hilst
A Obscena Senhora D., Hilda Hilst. Créditos: Companhia das Letras / divulgação
Mais famosa por seu polêmico O Caderno Rosa de Lori Lamby e pelos poemas, Hilst publicou, em 1982, um livro pouco conhecido: A Obscena Senhora D., em que narra a vida de Hillé, uma mulher que, após a morte do marido, se isola no "vagino", como chama seu cubículo no vão da escada. Lá, em isolamento profundo, ela passa pelo luto da perda, pelas obscenidades do desejo feminino, confunde-se com lembranças do passado e se pergunta qual é o sentido da sua própria vida. Hilst é conhecida por ser uma escritora fora do tradicional, seja o que for o tradicional, e tem narrativas explícitas que desafiam a comodidade do leitor, em geral evidenciando, à contraparte, a experiência feminina, e levando-a ao extremo. A personagem do romance é famosa "mulher que pensa", uma figura conflituosa que confronta padrões; e a narrativa é densa, repleta de fluxos psicológicos e de um monólogo interior. "Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é casa, conceito, o que são as pernas, o que é ir e vir, para onde Ehud, o que são essas senhoras velhas, os ganidos da infância, os homens curvos, o que pensam de si mesmos os tolos, as crianças, o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som, trinado, urro, grito [...]".

Casa de Pensão, Aluísio Azevedo

Casa de Pensão, Aluísio Azevedo. Créditos: Lafonte / divulgação
As obras do realismo-naturalismo são, de modo geral, muito lembradas nas cartilhas das escolas brasileiras. Mas Aluísio Azevedo, um dos maiores representantes da escola literária no Brasil, é mais lembrado por sua obra-prima, O Cortiço. Outras obras menos conhecidas, como O Mulato (que também vale a leitura) e Casa de Pensão, acabam sendo também menos comentadas. Publicada em 1884, Casa de Pensão é emblemática porque foi baseada num crime real ocorrido na cidade do Rio de Janeiro em 1876, e amplamente coberto pela mídia local: a Questão Capistrano. O romance, narrado em terceira pessoa, conta da chegada de um jovem maranhense, Amâncio, ao Rio de Janeiro, que se mudara para estudar medicina. Lá, Amâncio se hospeda numa casa de pensão e encontra um amigo do Maranhão, Paiva Rocha, de personalidade questionável e gostos “imorais”. Ele então o introduz aos vícios e desvios da vida urbana. Rocha gostava de festas, participava de orgias e tinha problemas com bebida. A pensão em que a narrativa se passa, ao modo do realismo-naturalismo — que evoca características de seu romance mais famoso, passado num cortiço — evidencia a degradação, a promiscuidade e os desvios de caráter que são comuns à vida urbana, e a narrativa se centra no conflito amoroso pelo qual Amâncio, que começa a ter seu caráter moldado pela situação que o cerca, inicia um caso perigoso com a esposa do pensionista (daí a inspiração baseada no crime real). O livro está disponível para leitura sob domínio público.

Fonte: Revista Fórum
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