Por Fato Novo
O Banco de Brasília – BRB, instituição pública com mais de 50 anos de história, sempre foi um símbolo do desenvolvimento econômico do Distrito Federal. No entanto, sua recente aquisição de 58% do Banco Master, um banco privado sediado em São Paulo, por R$ 2 bilhões, levanta questões urgentes sobre o papel do banco público e suas reais prioridades.
O BRB foi criado para fomentar o crédito local, gerir a folha do funcionalismo público do GDF, apoiar pequenos e médios empresários e servir como alavanca para políticas públicas no DF. Seu capital majoritariamente público deveria, em tese, garantir que seus lucros fossem reinvestidos em benefício da população, seja via dividendos ao GDF ou em linhas de crédito acessíveis. No entanto, nos últimos anos, o banco tem se distanciado dessa missão original, buscando expansões questionáveis enquanto serviços básicos à população enfrentam entraves.
A aquisição do Banco Master, anunciada como um marco para transformar o BRB em um “top 10” do sistema financeiro nacional, esconde contradições. Por que um banco público, que deveria priorizar o desenvolvimento regional, está investindo R$ 2 bilhões em um banco privado de outro estado? O argumento de que a operação trará mais dividendos ao GDF soa frágil diante de três problemas:
- Risco financeiro: O Master tem histórico de lucratividade volátil e opera em um mercado altamente competitivo (varejo e agronegócio).
- Conflito de interesses: O BRB agora concorrerá com outros bancos privados, desviando recursos que poderiam ser usados para subsidiar crédito a microempreendedores ou servidores do DF.
- Falta de transparência: A operação ainda depende de aval do Banco Central e do CADE, mas já é vendida como “sucesso” pelo governo, sem discussão pública aprofundada.
Enquanto o banco gasta bilhões para comprar um concorrente privado, muitos brasilienses enfrentam dificuldades para acessar empréstimos com juros justos. Servidores públicos, por exemplo, dependem do BRB para antecipar salários ou financiar bens móveis ou imóveis, mas frequentemente se queixam de burocracia e taxas abusivas. Pequenos negócios, essenciais para a economia local, também sofrem com a falta de linhas de crédito ágeis.
Se o BRB realmente quer servir ao DF, deveria:
- Abaixar juros para empréstimos produtivos e habitação popular.
- Simplificar processos para microempresas e autônomos.
- Investir em tecnologia para melhorar atendimento, em vez de expandir para mercados distantes.
- Desenvolver políticas para combater o superendividamento de servidores públicos.
- Se tornar um banco de fomento para o financiamento das industrias e dos polos indústrias do Distrito Federal, um setor quase que obsoleto da economia candanga.
O valor da transação equivale a uma quantia importante do orçamento anual do GDF. Será que não haveria opções mais estratégicas para esse dinheiro? Os R$ 2 bilhões poderiam:
- Ampliar o Drenar DF para outras regiões alagáveis.
- Financiar moradias populares em vez de injetar capital em um banco privado.
- Modernizar a estrutura do BRB para atender melhor os brasilienses.
- Subsidiar programas de financiamento para moradia tanto para servidores públicos como para moradores do Distrito Federal.
A compra do Master parece mais um projeto alheio à realidade do que uma necessidade real para o DF. Transformar o BRB em um “banco grande” não significa torná-lo melhor para a população. Se a justificativa é gerar dividendos, cabe perguntar: dividendos para quem? Enquanto obras públicas dependem de parcerias e servidores reclamam das taxas de juros e dos superendividamento, gastar bilhões em aquisições arriscadas parece um contrassenso.
O BRB deveria voltar às suas raízes: ser um banco de Brasília, para Brasília. Caso contrário, será apenas mais um no mercado financeiro – e Brasília, mais uma vez, sairá perdendo.
Da Redação