São Paulo – Em artigo exclusivo assinado pelo Conselheiro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e professor aposentado da Unicamp, Angelo Zanaga Trapé , é destacada a importância de distinguir correlação e causalidade nos estudos epidemiológicos que investigam os efeitos dos pesticidas na saúde humana . O texto alerta para o risco de conclusões precipitadas com base apenas em associações estatísticas, sem comprovação científica rigorosa.
Correlação não implica causalidade
A correlação refere-se à
associação estatística entre duas variáveis — ou seja, elas tendem a variar juntas. No contexto de saúde pública, isso pode se manifestar como uma coincidência entre altas taxas de doenças em populações agrícolas e o uso de pesticidas. No entanto, segundo o autor, essa relação
não prova que um causa o outro .
“Outros fatores, como predisposição genética, hábitos alimentares ou exposição simultânea a múltiplos agentes químicos, podem estar envolvidos”, destaca Trapé.
Para ele, é necessário cuidado metodológico ao interpretar esses dados, especialmente quando se busca embasar políticas públicas ou restrições regulatórias.
Critérios para estabelecer causalidade
O artigo menciona os
critérios de causalidade de Bradford Hill , amplamente utilizados na epidemiologia para avaliar relações entre exposições ambientais e doenças. Entre eles estão:
- Força da associação
- Consistência dos resultados em diferentes estudos
- Temporalidade (exposição precede o efeito)
- Plausibilidade biológica
- Dose-resposta (efeito cresce com a exposição)
Esses critérios ajudam a diferenciar uma simples associação de uma verdadeira relação de causa e efeito.
Desafios no campo científico
Segundo o especialista, estudos sobre pesticidas enfrentam
dificuldades metodológicas significativas , como:
- Medição imprecisa da exposição ao longo do tempo
- Presença de múltiplos fatores ambientais influentes
- Diferenças regionais e culturais que afetam a aplicabilidade de resultados internacionais
“Não existem estudos brasileiros com rigor científico capaz de confirmar uma relação causal direta entre glifosato e câncer ou entre mancozeb e doenças específicas”, ressalta.
Posicionamentos institucionais e diferenças de abordagem
Embora a
Organização Mundial da Saúde (OMS) classifique o
glifosato como “provável cancerígeno”, outras agências reguladoras, como a
ANVISA ,
EPA (EUA) e
EFSA (UE) , ainda consideram seu risco aceitável sob condições controladas de uso. O
INCA (Instituto Nacional de Câncer) também recomenda a redução do uso de agrotóxicos, mas seu posicionamento se baseia no
Princípio da Precaução , sem estabelecer, necessariamente, relações causais específicas para cada substância. Trapé explica a aparente contradição entre as instituições:
“O INCA adota uma postura preventiva; a ANVISA faz uma análise técnica e regulatória. São funções distintas.”
Importância da ciência para políticas públicas
O artigo conclui reforçando a necessidade de
estudos clínico-epidemiológicos bem conduzidos no Brasil , que levem em conta nossa realidade agrícola e social. Apenas dessa forma seria possível determinar com segurança os possíveis impactos dos pesticidas na saúde da população brasileira.
“Estabelecer correlação ou associação fica muito distante da causalidade se não existem estudos clínico-epidemiológicos realizados com rigor científico”, finaliza.
Com informações: Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)