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Redes sociais viciam? Justiça dos EUA inicia debate científico em tribunal

Juri na Califórnia decidirá se plataformas são legalmente responsáveis por transtornos mentais em jovens, enquanto pesquisadores ainda divergem sobre o uso do termo “vício”.

Redação
Por: Redação Fonte: Nature (Heidi Ledford)
13/02/2026 às 14h50
Redes sociais viciam? Justiça dos EUA inicia debate científico em tribunal

O debate sobre o impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes saiu dos laboratórios e entrou definitivamente nos tribunais norte-americanos em fevereiro de 2026. Um júri na Califórnia começou a ouvir argumentos de um caso emblemático que pode abrir precedentes para uma "onda" de processos contra gigantes da tecnologia. No centro da disputa está uma jovem que alega ter desenvolvido vício, ansiedade, depressão e dismorfia corporal devido ao uso compulsivo de plataformas digitais durante a infância.

A questão jurídica agora depende de uma resposta que a ciência ainda não forneceu de forma unânime: o uso excessivo de redes sociais pode ser classificado como um vício real? Especialistas em direito da internet, como Eric Goldman, da Universidade de Santa Clara, preveem uma verdadeira "batalha de peritos" para decidir se as empresas são legalmente responsáveis por danos psicológicos sofridos por seus usuários.

O impasse terminológico: vício ou hábito?

Para muitos pesquisadores, o termo "vício" ainda é precoce. Brian Primack, da Universidade do Estado do Oregon, observa que a hesitação da comunidade científica se deve ao fato de o vício em redes sociais ainda não constar nos manuais diagnósticos psiquiátricos padrão. Embora o comportamento apresente sintomas comuns à dependência — como uso compulsivo e sintomas de abstinência —, muitos preferem utilizar termos como "uso problemático de redes sociais".

Dar Meshi, da Universidade Estadual de Michigan, levanta uma provocação fundamental para o julgamento: trata-se de um transtorno clínico ou apenas de um comportamento habitual fortemente enraizado? Para o tribunal, a resposta a essa pergunta definirá se o produto (a rede social) é inerentemente perigoso ou se o problema reside no comportamento do indivíduo.

Correlação não é causalidade

Outro ponto crítico que o júri enfrentará é a distinção entre correlação e causalidade. Embora diversos estudos apontem que o aumento de casos de depressão e ansiedade entre jovens coincida com a ascensão das redes sociais, poucas pesquisas conseguiram provar que as plataformas são a causa direta dessas condições.

[Image comparing a brain scan of a habitual social media user with one showing symptoms of behavioral addiction]

Em 2024, um comitê das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA concluiu que a literatura científica atual não sustenta que as redes sociais afetem a saúde dos adolescentes em um nível populacional. No entanto, o comitê reconheceu o potencial de dano individual, especialmente em perfis mais vulneráveis.

A qualidade do tempo online

Pesquisadores como Tamar Mendelson, da Johns Hopkins, argumentam que focar apenas no tempo de tela é um erro. O impacto depende do que o jovem faz online:

  • Uso Benéfico: Conexão com amigos, busca de comunidades de apoio e aprendizado.

  • Uso Prejudicial: Exposição a padrões irreais de corpo, cyberbullying e algoritmos que reforçam conteúdos negativos.

A decisão deste caso na Califórnia será monitorada de perto por reguladores e empresas de tecnologia em todo o mundo. Se o júri decidir que o vício existe e que as empresas são responsáveis, o modelo de negócios baseado em algoritmos de engajamento poderá sofrer mudanças drásticas para evitar sanções bilionárias.

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