
A imagem culturalmente difundida do abutre circulando ameaçadoramente no alto, esperando a morte de um ser humano, é, na realidade, um grande equívoco, de acordo com especialistas. Chris McClure, do The Peregrine Fund e líder da Rede Global de Impacto Raptor (GRIN), afirma que nunca houve um caso real de abutres circulando um humano moribundo, e que a verdadeira razão para o comportamento de voo circular é puramente aerodinâmica e econômica em termos de energia.
O voo circular dos abutres e outras aves de rapina (como águias e urubus) está intimamente ligado ao aproveitamento das térmicas.
O que são Térmicas: São colunas de ar ascendente criadas pelo aquecimento desigual da superfície terrestre pelo sol. O ar aquecido próximo ao solo se torna menos denso e sobe, criando uma corrente ascendente que funciona como um "elevador invisível" para as aves.
Economia de Energia: As aves usam essas térmicas para ganhar altitude e se deslocar, como se fossem rodovias, gastando muito pouca energia. Ao circular, elas permanecem na mesma corrente ascendente para subir.
Busca por Alimento: Uma vez em altitude, as aves, além de se beneficiarem de melhores temperaturas, estão em posição ideal para procurar carniça (animais mortos). Algumas espécies, como o abutre-de-peru (Cathartes aura), têm um olfato excepcional e conseguem detectar o etil mercaptano, uma substância química liberada pela decomposição, permitindo-lhes localizar carniça mesmo em florestas densas.
Após a localização, a circulação pode servir também para a ave verificar se o animal está de fato morto e se carnívoros maiores já abriram a carcaça (facilitando o consumo), garantindo que a descida para se alimentar seja segura.
McClure afirma que o maior mal-entendido sobre os abutres é a ideia de que eles espalham doenças. Pelo contrário, os abutres são essenciais para os ecossistemas e atuam como a "equipe de limpeza da natureza".
Proteção Contra Doenças: Os estômagos dos abutres contêm uma mistura de ácidos fortes e bactérias letais. Ao se alimentarem de carcaças infectadas com patógenos perigosos (como antraz, raiva, salmonela ou cólera), esses patógenos são eliminados no sistema digestivo da ave, impedindo sua propagação.
Exemplo da Índia: Um caso crítico ocorreu na Índia, onde o uso do anti-inflamatório diclofenaco no gado levou à morte de quase toda a população de abutres do país. O declínio drástico das aves resultou na proliferação de bactérias e infecções, incluindo a raiva, que se espalharam a partir de carcaças não consumidas. Estima-se que isso tenha levado à morte de cerca de meio milhão de pessoas entre 2000 e 2005.
Além de seu papel ecológico, o rastreamento de abutres com unidades GPS tem oferecido um benefício surpreendente para as pessoas, especialmente na África.
Combate à Caça Ilegal: Abutres marcados com GPS são usados para identificar onde a caça furtiva está ocorrendo. Como as aves localizam as carcaças antes das autoridades e se reúnem em grande número em torno de animais de grande porte mortos, os dados de GPS fornecem pistas sobre atividades ilegais, ajudando na captura de caçadores furtivos.
Com informações: Live Science