
O recente ataque das forças dos Estados Unidos ao noroeste da Nigéria, anunciado pelo governo de Donald Trump em pleno Natal, marca uma mudança profunda na postura internacional de Washington. Para as especialistas Gisele Agnelli e Luciana Bauer, a ação não deve ser interpretada apenas como uma operação contraterrorista contra o ISIS ou grupos anticristãos. Trata-se de uma performance política voltada ao eleitorado evangélico norte-americano e um recado direto às potências globais de que os EUA atuarão unilateralmente, sem considerar marcos do direito internacional ou a soberania de nações do Sul Global.
A Nigéria, maior potência populacional da África e ator estratégico em cadeias energéticas e minerais, tem sido palco de crescentes investimentos da China e cooperação militar com a Rússia. Ao realizar o ataque sem menção ao Estado nigeriano ou à União Africana, o governo Trump reafirma a África como um "palco invisível" da política de força, onde a guerra ocorre fora do debate democrático e da mediação de órgãos como a ONU.
A estratégia de comunicação adotada por Trump utiliza um vocabulário que remete a um "Departamento de Guerra" em vez de Defesa. A escolha de apresentar o conflito sob uma moldura religiosa — cristãos contra muçulmanos — mobiliza o imaginário das Cruzadas para legitimar a violência extraterritorial.
Público Doméstico: A narrativa protege a imagem de Trump como um "messias" protetor dos cristãos perante sua base conservadora.
Espetáculo da Morte: Termos como "ataques perfeitos" e a promessa de que "haverá muitos mais" transformam a ação militar em uma rotina administrativa performática.
Ausência de Debate: A operação ocorreu sem deliberação no Congresso americano ou cobertura internacional robusta, normalizando a violência estatal como ferramenta de gestão.
O subtexto da operação na Nigéria dialoga com a nova orientação do aparato de defesa dos EUA, influenciada por nomes como Elbridge Colby. A tese central é a competição sistêmica entre grandes potências, tratando a África como uma fronteira estratégica na disputa sino-americana. Ao agir sem pedir licença, os EUA sinalizam que não pretendem se submeter a uma ordem multipolar emergente.
O ano de 2026 começa sob a égide de uma política externa iliberal, onde os inimigos são definidos por conveniência narrativa: o terrorismo na Nigéria, o narcoterrorismo na Venezuela e, internamente, imigrantes e minorias. A pergunta que fica para a comunidade internacional é quem será o alvo do próximo anúncio em redes sociais.
Com informações: ICL Notícias