
As recentes e devastadoras chuvas em Minas Gerais, com foco na Zona da Mata e cidades como Juiz de Fora, não são apenas "fatalidades da natureza". Para especialistas e movimentos sociais, como a organização CRIOLA, esses eventos revelam a engrenagem do racismo ambiental: a distribuição desigual dos riscos, onde a população negra e de baixa renda é empurrada para as áreas mais vulneráveis e menos assistidas pelo Estado.
Minas Gerais lidera hoje o ranking nacional de cidades suscetíveis a desastres, com 283 municípios mapeados e mais de 1,4 milhão de pessoas vivendo em áreas de risco geo-hidrológico. Historicamente, o vácuo de políticas habitacionais no pós-abolição forçou a população negra a ocupar encostas e várzeas, territórios que hoje sofrem com o déficit crônico de saneamento, drenagem e contenção.
A crise climática tem gênero e cor. Como principais chefes de família e responsáveis pelo trabalho de cuidado, as mulheres negras enfrentam de forma desproporcional as consequências das enchentes.
Sobrecarga: Interrupção de renda e aumento do trabalho doméstico após as perdas.
Insegurança: Maior exposição à fome e a violências em abrigos ou áreas devastadas.
Invisibilidade: A falta de dados oficiais detalhados por raça e gênero dificulta a criação de auxílios específicos para esse grupo.
“Não é desastre natural: é a intensificação do racismo que transforma o clima em mais injustiça para quem já vive na linha de frente da desigualdade”, afirma Letícia Ramos, da coordenação de justiça climática da CRIOLA.
Para enfrentar esse cenário, a CRIOLA lançou a "Agenda das Mulheres Negras: Construindo o Futuro com Justiça Climática". O manifesto exige que o Estado pare de investir apenas em modelos que degradam o meio ambiente, como o agronegócio predatório, e foque em:
Regularização Fundiária: Garantia de permanência e moradia digna.
Infraestrutura Periférica: Investimento pesado em drenagem e arborização em favelas.
Dados Desagregados: Coleta de estatísticas que identifiquem cor e gênero das vítimas para orientar orçamentos.
Reparação Histórica: Medidas que reconheçam o legado de exclusão territorial.
O enfrentamento à crise climática no Brasil só será eficaz quando deixar de ser visto apenas como uma questão biológica e passar a ser tratado como uma questão de justiça racial e territorial.