
O discurso de "escola para todos" esbarra em uma realidade financeira cruel: o Brasil escolheu financiar a segregação em detrimento da inclusão. Dados inéditos obtidos pela organização Autistas Brasil revelam que, entre 2023 e 2025, o Governo Federal destinou apenas R$ 52 milhões para a formação continuada de professores em educação inclusiva. O valor é considerado irrisório diante de um universo de 2,3 milhões de docentes, cobrindo menos de 5% da demanda nacional.
Enquanto a estruturação das escolas comuns recebe investimentos "de balcão", o fluxo de dinheiro público para instituições especializadas e segregadas — como APAEs e Pestalozzis — disparou. Em 2025, os repasses do Fundeb para essas entidades somaram R$ 7,9 bilhões, um salto impressionante de 117% em comparação aos R$ 3,7 bilhões registrados em 2022.
A pesquisa aponta que estar na escola não significa estar incluído. Das mais de 113 mil escolas públicas que possuem alunos da educação especial, apenas um terço oferece o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Sem equipamentos, tecnologias assistivas ou profissionais de apoio, o sistema brasileiro acaba praticando a "integração": o aluno está na sala, mas a escola não se adapta a ele.
"O Brasil terceiriza para a filantropia privada um dever constitucional. Isso esvazia o sistema público dos recursos necessários para se transformar", afirma Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil e pesquisador da Unicamp.
Para a organização, o subfinanciamento cria um círculo vicioso: a escola comum sem estrutura gera uma inclusão precária, o que pressiona as famílias a buscarem o modelo segregado, justificando novos repasses bilionários para instituições privadas em vez de investir na rede pública.
A assimetria de investimentos não é apenas um erro técnico, mas uma violação de tratados internacionais. A Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário com status constitucional, proíbe a manutenção de sistemas segregados.
Enquanto programas de estruturação de salas de recursos (PDDE Equidade) alcançaram apenas 6.669 escolas em 2025, o modelo de instituições fechadas segue como o destino prioritário dos impostos do cidadão. "Persistir no financiamento da segregação é perpetuar desigualdades e limitar o futuro de milhares de crianças", conclui Almeida.
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