Na manhã desta quinta-feira (17), a empresa farmacêutica Eli Lilly
divulgou resultados de um ensaio clínico que atesta que
tomar um comprimido diariamente pode ser
tão eficaz quanto os injetáveis Mounjaro e
Ozempic quando se fala do
controle de diabetes tipo 2. O medicamento em questão é o
orforgliprona e é da classe medicamentosa
GLP-1, que é sucesso de vendas por conta de ajudarem na
perda de peso. A diferença que podemos verificar entre o
comprimido e os injetáveis é que
este último é caro, precisa ser
mantido em refrigeração constante e é
invasivo. Por sua vez, o orforgliprona tem potencial de ser bem mais utilizado por poder ser armazenada
em temperatura ambiente e ser
administrada via oral. Contudo,
poderá ser tão cara quanto o Ozempic, por exemplo — no Brasil, o medicamento está na faixa dos
R$ 1 mil.
Próximos passos para o comprimido chegar às farmácias
- A Lilly indicou que, agora, vai submeter o remédio à Food and Drug Administration (FDA);
- A expectativa da empresa é que o órgão estadunidense autorize o orforglipron para obesidade ainda este ano e, no início de 2026, para diabetes;
- A expectativa de especialistas é que o medicamento seja aprovado em 2026 mesmo e que seja muito lucrativo para a Lilly;
- O preço do comprimido deve ser anunciado pela farmacêutica apenas após sua aprovação.
Ao
The New York Times, Craig Garthwaite, economista de saúde da Universidade Northwestern, disse que “o que estamos vendo começar a acontecer é
uma luta pelo futuro do mercado da obesidade“.
Resultados do ensaio do comprimido
No resultado divulgado nesta quinta-feira (17), a farmacêutica apresentou apenas um
resumo, algo obrigatório após receberem os resultados de estudos com potencial de afetar o preço de suas ações. Já os dados subjacentes
não foram divulgados pela Lilly,
tampouco foram examinados por especialistas externos. A companhia indicou que
apresentará resultados detalhados em reunião com pesquisadores sobre o diabetes em junho. Posteriormente, os
publicará em periódico revisado por pares.
Ensaio em si
Foram
559 pessoas que participaram do ensaio clínico. Elas têm diabetes tipo 2 e tomaram o comprimido ou placebo por
40 semanas. Aqueles que tomaram o orforgliprona tiveram a
A1C (que mede níveis de açúcar no sangue com o passar do tempo)
reduzida entre 1,3% e 1,6%. Em ensaios não relacionados, o Ozempic e o Mounjaro
conseguiram chegar a resultados similares. Em
65% das pessoas que
tomaram o novo comprimido, o nível de açúcar no sangue
foi reduzido e
chegou à faixa normal. Além disso,
quem tomou a pílula também perdeu peso, com
média de 7,2 kg para quem foi medicado com doses mais altas. A título de comparação, o Ozempic alcança a mesma quantidade com
40 semanas de tratamento, mas o comprimido
perde ligeiramente para o Mounjaro (segundo ensaios clínicos não relacionados). Já os efeitos colaterais atestados
foram os mesmos que os dos injetáveis contra obesidade:
diarreia, indigestão, constipação, náusea e vômito. Contudo, é possível que
os benefícios diminuam e
os efeitos colaterais aumentem conforme mais pessoas utilizarem o medicamento.
Grupo de farmacêuticas atrás de medicações GLP-1
A Eli Lilly lidera seleto grupo de companhias que competem no desenvolvimento de comprimidos à base de GLP-1. Persistem
preocupações significativas sobre
possíveis efeitos colaterais graves que poderiam afastar pacientes do uso desses medicamentos. No início da semana, por exemplo, a Pfizer revelou ter
encerrado o desenvolvimento de comprimido semelhante após um participante de seu estudo apresentar “
possível lesão hepática causada pelo medicamento”. No entanto, no ensaio conduzido pela Eli Lilly, o orforglipron
não apresentou indícios de toxicidade hepática. As ações da companhia
dispararam após a divulgação dos dados promissores. Na quinta-feira, os papéis da companhia encerraram o dia com
alta de 14%, o que representou
acréscimo de US$ 100 bilhões (R$ 585,53 bilhões, na conversão direta) ao valor de mercado da empresa. Esse foi o primeiro de
sete estudos clínicos principais com o orforglipron a apresentar resultados. Alguns dos demais testes estão avaliando o uso do medicamento na
perda de peso entre indivíduos sem diabetes. Resultados relacionados ao uso em pacientes obesos devem ser divulgados
ainda neste ano. Segundo o Dr. Daniel Skovronsky, diretor científico da Lilly, caso o remédio receba aprovação para o tratamento de obesidade e diabetes, a empresa estará preparada para produzir comprimidos em
quantidade suficiente para atender à demanda. Ele declarou ter tomado conhecimento dos resultados do estudo na manhã de terça-feira (15), mas que a companhia já vinha se organizando para a fabricação
antes mesmo de vê-los. “Nas próximas décadas, mais de
700 milhões de pessoas em todo o mundo terão diabetes tipo 2 e mais de
um bilhão viverão com obesidade”, afirmou Skovronsky. “
Injeções não são soluções viáveis para bilhões de pessoas globalmente.” Segundo o
Times, atualmente,
12% dos adultos estadunidenses relatam ter
utilizado medicamentos à base de GLP-1. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças,
cerca de 40% da população adulta nos Estados Unidos
é obesa e
mais de 10% têm diabetes, majoritariamente do tipo 2. Entre os medicamentos injetáveis mais populares já disponíveis, estão os da própria Eli Lilly —
Zepbound, para obesidade, e
Mounjaro, para diabetes —, além dos da Novo Nordisk, que comercializa o
Wegovy (obesidade) e o
Ozempic (diabetes). Com o aumento da procura por esses tratamentos nos últimos anos, os custos crescentes passaram a pesar sobre empregadores e programas públicos de saúde, que já enfrentavam dificuldades com os preços dos medicamentos prescritos. A chegada do orforglipron promete
ampliar ainda mais esse mercado e
elevar a pressão sobre os orçamentos. O surgimento do orforglipron representa, de certa forma,
avanço notável da química moderna. Os medicamentos injetáveis com GLP-1 são compostos por
peptídeos — pequenos fragmentos de proteínas (GLP é a sigla para
peptídeo semelhante ao glucagon). Como os peptídeos são
digeridos no estômago, a criação de versão oral exigiu que
os químicos desenvolvessem composto não peptídico com ação semelhante. Pesquisadores da Chugai Pharmaceutical, empresa japonesa,
encontraram essa solução, licenciando o medicamento para a Lilly em 2018. O avanço consistiu em
descobrir molécula minúscula —
milhares de vezes menor que um peptídeo — capaz de se encaixar em pequena cavidade na proteína-alvo dos GLP-1s. Quando isso ocorre, a proteína
sofre alteração de forma, assim como acontece com a ligação do peptídeo natural. Segundo Skovronsky, encontrar essa molécula foi “
o Santo Graal”.
O resultado é uma pílula que pode ser ingerida em qualquer horário do dia, com ou sem alimentos — algo
praticamente inédito entre medicamentos peptídicos. A
insulina, provavelmente o peptídeo mais amplamente conhecido,
existe há mais de 100 anos e ainda é administrada exclusivamente por injeção, apesar de tentativas persistentes de criar versão oral. O mesmo se aplica ao
hormônio do crescimento humano e a diversos medicamentos para condições, como
artrite e câncer. A Novo Nordisk possui comprimido de GLP-1, o
Rybelsus, que contém o próprio peptídeo GLP-1. No entanto, precisa ser administrado em
doses elevadas e é
menos eficaz que as versões injetáveis, pois é, em grande, parte
digerido no estômago. Para pacientes com diabetes ou que enfrentam a obesidade, uma pílula que substitua as injeções pode representar
transformação profunda por diversos motivos. Um deles é a
aversão que muitos têm às injeções. O Dr. C. Ronald Kahn, professor da Escola de Medicina de Harvard e diretor acadêmico do Joslin Diabetes Center, também da universidade, afirmou ter diversos pacientes que evitavam iniciar o uso de Ozempic ou Mounjaro
justamente por serem injetáveis. Uma pílula, afirmou, “
seria, definitivamente, a escolha preferida da maioria das pessoas”. O Dr. Sean Wharton, diretor da Wharton Medical Clinic em Burlington, Ontário (Canadá), vê potencial ainda maior. O médico, que participou do estudo da Lilly com o orforglipron voltado à obesidade, acredita que
um comprimido pode levar o tratamento com GLP-1 a populações carentes ao redor do mundo. “Pode ser facilmente produzido em uma fábrica e enviado para qualquer lugar”, afirmou. Seu custo de produção
deve ser bem menor que o dos peptídeos e
não exige canetas injetoras especiais nem refrigeração. Atualmente, os medicamentos estão disponíveis
apenas para uma minoria com acesso a convênios de saúde ou recursos financeiros para arcar com o custo.
O acesso está restrito, até agora, a países ricos. Mas esse cenário começa a mudar: a Eli Lilly, recentemente,
lançou seu medicamento injetável de GLP-1 na Índia. Lá, os pacientes teriam que pagar cerca de
US$ 200 (R$ 1.171,06) por mês, valor fora do alcance da maioria da população local. Há expectativa de que,
já no próximo ano, o Ozempic e o Wegovy possam ser vendidos como
genéricos em alguns países, mas não nos Estados Unidos. Com o orforglipron, “
temos a chance de que um medicamento alcance milhões e milhões de pessoas”, disse o Dr. Wharton. No entanto,
tudo depende da estratégia de precificação e distribuição da Eli Lilly. “É por isso que enfatizo a palavra ‘chance’”, completou. Hoje, tanto a Eli Lilly quanto a Novo Nordisk oferecem seus injetáveis — Zepbound e Wegovy — por cerca de
US$ 500 (R$ 2.927,65) mensais para pacientes estadunidenses que pagam do próprio bolso. Já empregadores e programas públicos, que cobrem a maior parte dos custos para os pacientes nos EUA,
pagam valores semelhantes após negociações e descontos, cujos detalhes não são divulgados. Quando uma farmacêutica anuncia um preço, refere-se ao
valor de tabela — ponto de partida para negociações.
Raros são os pacientes que pagam esse valor integral. Analistas de Wall Street preveem que a Eli Lilly deverá definir o preço de tabela do orforglipron
abaixo de US$ 1 mil (R$ 5.855,30) por mês, inferior aos de
Zepbound (US$ 1.086/R$ 6.358,85) e
Wegovy (US$ 1.349/R$ 7.898,79). Como está bem à frente de concorrentes no desenvolvimento de comprimidos com GLP-1, a Eli Lilly
deverá manter exclusividade nesse mercado por alguns anos — o que lhe garante margem para
manter preços elevados por mais tempo. Tornar o orforglipron acessível em escala global exigiria
preços significativamente menores do que os praticados nos Estados Unidos. Medicamentos injetáveis de GLP-1 já são vendidos a
preços bem inferiores na Europa. O presidente dos EUA, Donald Trump, frequentemente, criticava o fato de os estadunidenses pagarem muito mais do que outros países ricos pelos mesmos remédios, completa o
Times.