
O cenário político europeu sofreu um abalo sísmico neste domingo (12/4). O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, admitiu publicamente sua derrota nas eleições nacionais, encerrando um ciclo de 16 anos ininterruptos à frente do país (e 20 anos no total). Com 95% das urnas apuradas, o partido de centro-direita Tisza, liderado por Péter Magyar, consolidou uma vitória histórica com 54% dos votos, garantindo uma maioria esmagadora de dois terços no Parlamento.
Em discurso em Bálna, Orbán adotou um tom sóbrio e reconheceu a clareza do resultado. “O resultado é doloroso para nós, mas compreensível”, declarou o agora ex-primeiro-ministro. Ele deixa o poder em um momento de forte desgaste, provocado por anos de estagnação econômica, alta no custo de vida e denúncias de corrupção envolvendo redes empresariais próximas ao governo.
O arquiteto da queda de Orbán é um antigo aliado que se tornou seu maior adversário. Péter Magyar era integrante do partido governista Fidesz, mas rompeu com a legenda em 2024. À frente do Tisza, ele conseguiu canalizar a insatisfação popular, focando em promessas de reformas no sistema de saúde, no combate à corrupção e, principalmente, no desbloqueio de fundos da União Europeia que estavam retidos devido às políticas de Orbán contra o Estado de Direito.
A derrota de Orbán ressoa muito além das fronteiras de Budapeste. Considerado o "farol" da extrema-direita global, o húngaro mantinha laços estreitos com líderes como Jair Bolsonaro, Vladimir Putin e, especialmente, Donald Trump. Na última sexta-feira (10/4), o presidente dos EUA chegou a prometer "todo o poderio econômico norte-americano" para salvar a economia húngara caso Orbán vencesse. O apoio explícito de Washington, reforçado por uma visita do vice JD Vance a Budapeste na última semana, não foi suficiente para conter o desejo de mudança do eleitorado.
Durante seus últimos 16 anos no comando, Orbán reformou a Constituição, impôs leis restritivas contra a comunidade LGBTQIA+ (como a proibição da adoção por casais do mesmo sexo) e centralizou o controle sobre o Judiciário e a imprensa. A ascensão de Magyar sinaliza um possível realinhamento da Hungria com as diretrizes da União Europeia e uma ruptura com a agenda nacionalista radical que isolou o país diplomaticamente nos últimos anos.
Péter Magyar assume com o desafio de estabilizar a economia e restaurar a independência das instituições húngaras. O Fidesz, partido de Orbán, ainda manterá 56 cadeiras no Parlamento, o que deve garantir uma oposição ferrenha. No entanto, com a maioria absoluta conquistada pelo Tisza, a Hungria deve iniciar um processo acelerado de reformas para se reintegrar plenamente ao bloco europeu, encerrando um dos capítulos mais controversos da política contemporânea do Leste Europeu.
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