
O coração cívico de Brasília transformou-se em um imenso santuário a céu aberto. No final da tarde desta quinta-feira (4), milhares de fiéis católicos ocuparam os gramados da Esplanada dos Ministérios para celebrar a solenidade de Corpus Christi, em uma das manifestações religiosas mais tradicionais do Distrito Federal. A programação litúrgica foi aberta com a Santa Missa presidida pelo cardeal e arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa, em um altar montado especialmente em frente à Catedral Metropolitana, e encerrada com uma emocionante procissão luminosa acompanhada por bênçãos ao longo do trajeto.
A abertura do rito inicial foi marcada pela entrada solene dos ministros e do clero sobre os tradicionais tapetes de Corpus Christi. Confeccionados de forma voluntária por fiéis e jovens de diversas paróquias que madrugaram no local, os tapetes coloriram o asfalto com desenhos de símbolos eucarísticos e passagens bíblicas. Durante a homilia, o cardeal teceu duras críticas ao materialismo contemporâneo e chamou a atenção da comunidade para a necessidade de se cultivar a espiritualidade de forma contínua, desvinculada de interesses imediatistas ou puramente utilitaristas. “A vida não depende apenas de bens materiais. Esse é o grande problema. Às vezes, nós nos recordamos de Deus apenas quando o problema bate na nossa porta”, advertiu Dom Paulo Cezar.
Em um discurso de forte impacto social, o arcebispo de Brasília não se esquivou de tratar da polarização ideológica que afeta o cotidiano do país, direcionando sua mensagem diretamente para a convivência social e o respeito mútuo, sobretudo diante do cenário de ano eleitoral.
Os principais pontos de reflexão e cobrança social levantados pelo clérigo incluíram:
Sociedade pluralizada: O cardeal enfatizou que conviver em uma comunidade com diferentes visões de mundo é uma realidade incontornável e saudável;
Riqueza institucional: Dom Paulo Cezar defendeu que o ato de pensar diferente deve ser encarado como uma virtude e uma riqueza para o amadurecimento da sociedade, e jamais servir de pretexto ou motivo para alimentar ódios, brigas ou desavenças familiares e comunitárias;
Incoerência na fé: O religioso apontou uma contradição no comportamento de fiéis e políticos que participam dos sacramentos da Igreja, como a comunhão da eucaristia, mas mantêm uma postura de aversão e ódio contra adversários. "O homem e a mulher de fé, que vive de eucaristia, não podem ter essas mesmas atitudes, mesmo que seja um político", completou o arcebispo.
Para além dos discursos institucionais e eclesiásticos, a celebração de Corpus Christi na capital federal foi alimentada pelas histórias particulares de sacrifício e esperança de seus participantes. O evento atrai anualmente caravanas vindas de todas as regiões administrativas do DF e do Entorno, unindo gerações de uma mesma família em torno da devoção pública.
Entre a multidão de fiéis, a aposentada Osvaldina Antônia de Sousa, de 75 anos, moradora da região do Núcleo Bandeirante, acompanhava atentamente a missa ao lado de seus filhos. Frequentadora assídua da solenidade na Esplanada, ela revelou que a sua presença nesta edição carregava um significado especial e um apelo de saúde para sua família. “Todo ano eu venho. É gratificante vir aqui. Ficamos com Cristo no coração. Estou pedindo para Deus a cirurgia do meu filho. Espero que ele seja chamado para fazer a cirurgia de quadril. Ele tem artrose”, relatou emocionada. Após a bênção final dada pelo cardeal, a multidão acendeu velas e seguiu em uma caminhada silenciosa e luminosa pela Esplanada, encerrando o dia de manifestações litúrgicas.
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