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De “patinho feio” a superalimento: como o baru gera renda e mantém o Cerrado de pé em Minas Gerais

Com apoio do FUNBIO, cooperativa COPABASE impulsiona extrativismo sustentável no noroeste mineiro, alcança os mercados europeu e americano e ajuda a conter o desmatamento

Por: Gutemberg Silva Fonte: Reportagem de Vinicius Nunes para o portal ((o))eco, com registros fotográficos de Yuri Cruvinel/FUNBIO
07/06/2026 às 12h36
De “patinho feio” a superalimento: como o baru gera renda e mantém o Cerrado de pé em Minas Gerais

A paisagem mística do noroeste de Minas Gerais — eternizada por Guimarães Rosa no clássico Grande Sertão: Veredas, que celebra o 70º aniversário de sua primeira publicação em maio de 2026 — abriga uma revolução silenciosa baseada na bioeconomia. No município de Arinos, situado no mosaico ambiental Veredas-Peruaçu, a castanha de baru, fruto nativo do Cerrado antes relegado à mera composição de paisagem e construção de currais, converteu-se no motor financeiro e de subsistência de dezenas de famílias da agricultura familiar. No coração desse movimento está a Cooperativa Regional de Base na Agricultura Familiar e Extrativismo Ltda (COPABASE). Fundada em 2008, a organização alia saberes tradicionais, conservação da biodiversidade e segurança alimentar.

A virada de chave do baruzeiro (Dipteryx alata) para o status de "superalimento" deve-se ao alto valor nutricional de suas amêndoas, ricas em proteínas, fibras, minerais e ácidos graxos. O impacto econômico já se faz sentir em escala global: no ano passado, o mercado mundial de baru foi avaliado em impressionantes 420 milhões de dólares, e a COPABASE isoladamente respondeu por uma produção de 12,5 toneladas em 2025. Sob o amparo do projeto COPAÍBAS, liderado pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), a cooperativa expandiu suas fronteiras comerciais e obteve autorização para exportar a castanha para os Estados Unidos e países da União Europeia.

Logística reversa e assistência técnica no campo

Antes da estruturação cooperativista, pequenos agricultores locais, como o casal Adão (59 anos) e Luísa (56 anos), enfrentavam uma rotina árdua. Embora fizessem o extrativismo do baru há três décadas, a venda de porta em porta gerava pouco retorno financeiro, sufocada pelos custos de transporte e o desgaste físico.

A agrônoma da cooperativa, Anny Caroliny Pereira, conhecida na região como Carol, explica que o papel principal da COPABASE é garantir autonomia ao trabalhador e estruturar a cadeia produtiva por meio de ações práticas:

  • Maquinário Coletivo: Disponibilização de insumos técnicos, roçadeiras e maquinários específicos para a etapa de descasque da rígida castanha;

  • Logística Própria: Envio de equipes e caminhões da cooperativa diretamente aos assentamentos para recolher os frutos colhidos, poupando tempo e recursos de combustível dos cooperados;

  • Estímulo à Preservação: Orientação técnica sobre podas e manejo integrado de pragas, o que incentiva vizinhos a manterem as árvores nativas em pé, sabendo que os frutos terão destinação comercial garantida.

O lote de Adão e Luísa, que possui 49 hectares, abriga 500 baruzeiros mapeados. Atualmente, o casal entrega uma média de 140 quilos de baru por mês, além de ter colhido 600 quilos de coquinho azedo (Butia capitata) em 2025, fruto muito utilizado na fabricação de polpas de frutas.

Sistemas Agroflorestais e o combate ao êxodo rural

Além da extração do baru, a cooperativa atua fortemente no fomento de Sistemas Agroflorestais (SAFs), que diversificam a produção e garantem renda distribuída ao longo de todo o ano. O modelo prioriza frutas nativas do bioma, como cagaita, mangaba, araticum e o coquinho azedo, dividindo espaço com culturas tradicionais como o feijão, maracujá, açafrum e a goiaba. O produtor Haroldo Barbosa (63 anos), integrado às SAFs desde 2014, colhe anualmente mais de 12 toneladas de goiaba com o auxílio de um micro-trator fornecido pela cooperativa. Para ele, o sistema trouxe dignidade e consciência ambiental: "A gente não tem o direito de piorar a terra", reflete.

A COPABASE mantém sua estrutura administrativa e uma fábrica de polpas de frutas congeladas integrada ao Instituto Federal (IF) de Arinos, cujas instalações foram ampliadas em 2024 através da parceria com o FUNBIO. A localização estratégica serve como uma barreira social contra o êxodo rural, atraindo jovens estudantes de agronomia para vagas de estágio e fixando a nova geração no campo.

Atualmente, a instituição conta com 19 funcionários na administração e seis operários na fábrica. Para a gestora da cooperativa, Dionete Figueiredo, a estruturação com capital de giro permitiu agilizar o pagamento aos produtores, mas o crescimento comercial não pode apagar a missão social do projeto. “A COPABASE não nasceu com o propósito meramente econômico. O cooperativismo só se justifica quando os produtores se sentem participantes”, conclui.

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  Baru / COPABASE / Cerrado / FUNBIO / Arinos / Agricultura Familiar / Sistemas Agroflorestais / Minas Gerais  

 

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