
Durante muito tempo, quando alguém falava em magia, a primeira imagem que vinha à cabeça era quase sempre a mesma: um sujeito inclinado sobre um livro antigo, cercado por símbolos estranhos, velas acesas e palavras que ninguém mais sabe pronunciar.
Se tivesse uma capa preta e uma bola de fogo voando pela sala, melhor ainda.
Também existe aquela velha fantasia de que, em algum lugar escondido do mundo, existe uma sociedade secreta formada por meia dúzia de pessoas que descobriu os verdadeiros segredos do universo e decidiu, sabe-se lá por quê, esconder tudo de nós.
É uma imagem quase caricatural.
E talvez seja justamente por isso que ela seja tão confortável.
Se a magia pertence aos grimórios, aos templos antigos, aos alquimistas e às sociedades secretas, então ela não tem absolutamente nada a ver conosco. Podemos observá-la como uma curiosidade de um passado distante, uma tentativa primitiva de explicar o mundo antes que a ciência aparecesse para colocar cada coisa em seu devido lugar.
Mas existe um problema nessa história.
Talvez a magia não tenha desaparecido.
Talvez nós apenas tenhamos parado de chamá-la de magia.
Uma das grandes transformações da modernidade foi a maneira como passamos a explicar aquilo que acontece ao nosso redor.
O trovão deixou de ser necessariamente a manifestação da ira de um deus. A doença passou a ser investigada pela medicina. Os movimentos dos astros puderam ser calculados sem que fosse necessário imaginar que cada planeta estivesse tentando nos enviar uma mensagem pessoal.
Max Weber chamou esse processo de “desencantamento do mundo”.
E existe algo bastante interessante nessa expressão.
Ela não significa simplesmente que o ser humano deixou de acreditar em deuses ou abandonou completamente o sobrenatural. A questão é mais profunda.
O mundo passou a ser percebido como algo que pode ser calculado, explicado, organizado e controlado.
Mas existe uma coisa que o desencantamento não conseguiu eliminar:
a nossa necessidade de significado.
Podemos compreender perfeitamente a composição física de uma bandeira e, ainda assim, seria absurdo dizer que ela é apenas um pedaço de tecido.
Uma aliança continua sendo um objeto de metal. Mas para duas pessoas ela pode representar uma promessa, uma história e uma vida inteira.
Uma fotografia é apenas uma superfície onde determinadas imagens foram registradas. Mesmo assim, alguém pode guardar uma fotografia durante quarenta anos porque aquilo representa uma pessoa que já não está presente.
A matéria continua sendo matéria.
O que muda é aquilo que colocamos sobre ela.
E é exatamente nesse ponto que a magia começa a ficar interessante.
Talvez exista uma diferença entre acreditar que um objeto possui poderes sobrenaturais e perceber que nós somos capazes de atribuir poderes simbólicos às coisas.
Uma bandeira não precisa possuir nenhuma força invisível para fazer pessoas lutarem por aquilo que ela representa.
Basta que alguém acredite no significado.
O símbolo não precisa ser sobrenatural para produzir efeitos reais.
E talvez essa seja uma das coisas mais estranhas sobre nós.
Essa talvez seja uma pergunta mais interessante do que simplesmente perguntar se a magia existe.
Se muitas práticas que chamávamos de mágicas utilizavam palavras, símbolos, objetos e rituais para provocar alguma transformação, o que aconteceu quando começamos a abandonar a explicação sobrenatural?
Talvez essas práticas tenham simplesmente mudado de nome.
Hoje ninguém costuma chamar uma campanha publicitária de encantamento.
Um político dificilmente dirá que está realizando um ritual quando sobe em um palco.
Uma bandeira nacional não costuma ser apresentada como um objeto mágico.
E, obviamente, não são literalmente essas coisas.
Mas podemos observar que existe algo semelhante na maneira como elas funcionam simbolicamente.
Uma palavra consegue organizar uma multidão.
Um slogan pode resumir uma ideia política inteira.
Uma imagem pode provocar medo antes mesmo que alguém consiga analisá-la racionalmente.
Uma cerimônia pode transformar a maneira como uma comunidade reconhece determinada pessoa.
Pense em uma posse presidencial.
Antes da cerimônia existe uma pessoa eleita.
Depois dela, existe oficialmente um chefe de Estado.
Fisicamente, nada de extraordinário aconteceu. Houve discursos, documentos, roupas formais, gestos e uma sequência de procedimentos.
Nenhuma lei da natureza foi quebrada.
Mas alguma coisa mudou.
A pessoa passou a ocupar uma posição completamente diferente dentro de uma realidade social compartilhada.
O ritual tornou essa transformação visível.
Talvez seja justamente isso que devamos observar quando falamos sobre magia no mundo contemporâneo.
Não a capacidade de desafiar as leis da natureza, mas a capacidade humana de produzir transformações através dos significados que atribuímos às coisas.
É aqui que a linguagem começa a ficar realmente interessante.
Alan Moore, ao falar sobre magia, imaginação, escrita e criação artística, frequentemente trata a linguagem como algo capaz de modificar a maneira como percebemos a realidade.
Não é necessário aceitar isso literalmente para perceber a força da ideia.
Quando alguém escreve uma história, alguma coisa muda na cabeça de quem lê.
Quando uma sociedade repete uma narrativa durante séculos, essa narrativa começa a participar da maneira como aquela sociedade entende a si mesma.
Algumas palavras acumulam tanta história que basta pronunciá-las para despertar uma série inteira de associações.
“Liberdade.”
“Pátria.”
“Revolução.”
“Tradição.”
“Deus.”
Não são apenas palavras.
São símbolos carregados de memória.
As antigas tradições mágicas já percebiam, cada uma à sua maneira, que uma palavra poderia fazer mais do que simplesmente descrever alguma coisa.
O encantamento pretendia produzir um efeito através da linguagem.
Nós abandonamos grande parte da explicação sobrenatural, mas continuamos utilizando palavras para produzir efeitos concretos.
Uma lei muda comportamentos.
Um contrato cria obrigações.
Uma sentença judicial muda a situação de uma pessoa.
Um discurso pode convencer milhares.
Uma propaganda pode transformar um objeto que ninguém queria em algo que milhões passam a desejar.
O mago dizia uma fórmula esperando que o mundo respondesse.
Nós utilizamos outras fórmulas.
Algumas estão nos tribunais.
Outras estão na política, na publicidade, na religião e nas redes sociais.
A diferença é que agora construímos máquinas capazes de repetir essas fórmulas para milhões de pessoas em poucos segundos.
O velho grimório ganhou uma tela.
Talvez seja ainda mais fácil perceber isso quando olhamos para os rituais.
Uma cerimônia política possui seus próprios códigos.
Existem roupas determinadas, lugares determinados, gestos determinados e palavras que precisam ser pronunciadas em determinada ordem.
Não é simplesmente uma reunião.
Existe uma estrutura.
O mesmo acontece com casamentos, funerais, formaturas, cerimônias religiosas e diversos outros momentos em que uma comunidade precisa reconhecer que alguma coisa mudou.
O ritual dá forma à mudança.
Ele transforma uma experiência em acontecimento.
E isso não precisa necessariamente envolver religião.
David Bowie é um exemplo particularmente interessante disso.
Ziggy Stardust não era simplesmente uma roupa extravagante ou um personagem inventado para vender discos.
Bowie construiu aquela persona através da música, da aparência, dos gestos, da linguagem e da própria performance.
Quando entrava no palco como Ziggy, não estava simplesmente fingindo ser outra pessoa.
Estava experimentando uma possibilidade de existência.
A persona funcionava como uma passagem entre identidades.
E isso talvez seja menos estranho do que parece.
Uma pessoa muda completamente o cabelo depois de terminar um relacionamento e sente que está começando outra fase.
Alguém veste um uniforme pela primeira vez e começa a agir de maneira diferente porque agora ocupa outra posição.
Um adolescente adota determinada estética tentando descobrir quem é.
A roupa parece superficial.
Mas ela pode mudar a maneira como somos percebidos pelos outros e até a maneira como percebemos a nós mesmos.
É por isso que Bowie é tão interessante quando pensamos sobre ritual.
O palco pode se transformar em um espaço de passagem.
A roupa deixa de ser apenas roupa.
A personagem deixa de ser apenas personagem.
E a performance passa a funcionar como uma espécie de transformação.
Não é preciso acreditar em magia para perceber o efeito.
Talvez os rituais tenham sobrevivido justamente porque ainda precisamos marcar a passagem entre uma coisa e outra.
Antigamente, isso poderia acontecer diante de um altar.
Hoje pode acontecer diante de uma plateia.
A publicidade talvez seja um dos exemplos mais óbvios.
Uma empresa raramente vende apenas aquilo que o produto é.
Ela vende aquilo que o produto significa.
Um perfume pode representar sensualidade.
Um carro pode representar liberdade.
Uma roupa pode representar rebeldia.
Um relógio pode representar prestígio.
Um celular pode representar pertencimento.
O produto continua sendo um objeto.
Mas já não é percebido somente como objeto.
É aí que existe uma espécie de alquimia simbólica.
Não estamos transformando chumbo em ouro.
Estamos transformando uma coisa comum em alguma coisa que passa a possuir valor por aquilo que representa.
O valor deixa de estar apenas na matéria.
Ele passa a existir também na história construída ao redor dela.
É possível olhar para um objeto em uma loja e não sentir absolutamente nada.
Então descobrimos sua marca, sua história, sua origem ou aquilo que ela representa para determinado grupo.
De repente, o mesmo objeto parece diferente.
Fisicamente, nada mudou.
Mudou o significado.
E talvez essa seja uma das formas mais simples de compreender o funcionamento simbólico da magia.
A política depende disso o tempo inteiro.
Uma bandeira é tecido.
Mesmo assim, existem pessoas dispostas a morrer pelo que ela representa.
Um hino é apenas uma sequência de sons.
Ainda assim, pode provocar lágrimas em alguém que esteja a milhares de quilômetros de casa.
“Pátria” não possui peso.
“Liberdade” não pode ser colocada sobre uma balança.
“Revolução” não é uma substância que podemos tocar.
E, mesmo assim, sociedades inteiras já foram construídas em torno dessas palavras.
É difícil encontrar uma demonstração mais clara do poder dos símbolos.
Pegamos cores, sons, palavras, imagens e objetos relativamente simples e construímos em torno deles sistemas inteiros de pertencimento.
Isso não significa que o símbolo seja uma mentira.
Uma bandeira continua sendo tecido.
Mas o significado que colocamos sobre aquele tecido é real porque produz consequências reais.
Talvez essa seja uma das características mais estranhas da experiência humana:
somos capazes de construir realidades compartilhadas a partir de coisas que, isoladamente, não teriam esse poder.
Nietzsche permite levar essa discussão para outro lugar.
A vontade de potência pode ser pensada, entre outras possibilidades, como uma força de afirmação, criação, interpretação e estabelecimento de valores.
O ser humano não encontra simplesmente um mundo pronto diante de si.
Ele interpreta.
Dá nomes.
Cria distinções.
Decide que alguma coisa é bela e outra é feia.
Que uma coisa é sagrada e outra profana.
Que determinado comportamento é nobre e outro desprezível.
E essas classificações não são apenas palavras bonitas que colocamos sobre a realidade.
Elas orientam nossas escolhas.
Criamos valores e depois começamos a viver de acordo com eles.
Talvez exista algo de mágico nesse processo.
Não no sentido de lançar feitiços ou quebrar as leis da física, mas no sentido de transformar uma experiência através do significado que damos a ela.
Uma história pessoal pode se transformar em tradição.
Uma ideia pode se transformar em ideologia.
Um símbolo criado por algumas pessoas pode acabar representando milhões.
E hoje isso acontece em uma escala que os antigos dificilmente poderiam imaginar.
Um símbolo pode nascer em um pequeno grupo e, através da internet, alcançar milhões de pessoas em poucas horas.
O velho grimório ganhou novas páginas.
Algumas estão nos livros.
Outras estão nos jornais.
Outras estão nas telas dos nossos celulares.
Talvez seja justamente aqui que a discussão fique mais interessante.
Porque não precisamos falar de governos, religiões ou grandes instituições.
Nós fazemos isso o tempo inteiro.
Guardamos fotografias que não possuem praticamente nenhum valor material.
Conservamos cartas antigas.
Mantemos objetos que poderiam ser facilmente substituídos por outros exatamente iguais.
Carregamos objetos de sorte.
Guardamos uma roupa porque ela nos lembra determinado momento.
Alguém de fora pode olhar e não entender.
Por que guardar aquela fotografia?
Por que não jogar aquela carta fora?
Por que aquele objeto banal é tão importante?
Porque ele deixou de ser apenas um objeto.
Ele passou a carregar uma história.
E talvez seja por isso que seja um erro tratar a realidade simbólica como uma realidade “falsa”.
Ela não é física.
Mas seus efeitos são.
Uma promessa pode mudar uma relação.
Uma fotografia pode manter viva a lembrança de alguém.
Uma palavra pode destruir uma pessoa.
Outra pode fazer alguém continuar.
Não existe nada sobrenatural necessariamente nisso.
Existe apenas o ser humano.
E talvez isso já seja estranho o suficiente.
Talvez ela esteja muito mais perto do que imaginamos.
Ela aparece quando uma palavra se transforma em bandeira política.
Quando uma marca consegue fazer alguém desejar um objeto que antes parecia completamente banal.
Quando uma cerimônia transforma a posição de uma pessoa dentro de uma comunidade.
Quando um artista cria uma persona e, através dela, encontra uma maneira diferente de existir.
Ela aparece também nas coisas pequenas.
Na fotografia que alguém guarda durante quarenta anos.
Na aliança que possui pouco valor como metal, mas uma vida inteira de significado.
No objeto que alguém conserva porque lembra uma pessoa que já morreu.
Talvez o erro esteja em procurar magia apenas onde existe uma tentativa de controlar forças sobrenaturais.
Se entendermos magia de maneira mais ampla, como a capacidade humana de transformar nossa relação com o mundo através de símbolos, palavras, rituais e significados, então fica muito mais difícil dizer que ela desapareceu.
A sociedade moderna não matou a magia.
Ela apenas mudou o nome das coisas.
Chamamos algumas dessas práticas de política.
Outras chamamos de publicidade.
Outras de arte, religião, cultura, ideologia ou linguagem.
Não devemos fingir que tudo isso é exatamente a mesma coisa. Não é.
Mas existe algo que atravessa muitos desses fenômenos:
a capacidade humana de atribuir significado às coisas e agir de acordo com esse significado.
Talvez seja essa a continuidade que ficou escondida.
Não precisamos imaginar um feiticeiro lançando fogo pelas mãos.
Também não precisamos imaginar uma sociedade secreta guardando o segredo definitivo do universo.
O poder pode estar em algo muito menos espetacular.
Um ser humano olha para uma coisa, decide o que ela significa e começa a agir de acordo com essa interpretação.
Outras pessoas fazem o mesmo.
Em algum momento, aquela interpretação deixa de ser apenas individual.
Ela passa a organizar relações, instituições, conflitos, desejos e formas de enxergar o mundo.
O significado se transforma em força.
Talvez essa seja a forma mais estranha de magia que ainda possuímos.
E talvez seja justamente por estar em toda parte que quase ninguém percebe que ela existe.