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Cultura

O Corpo Fragmentado da Memória: “O Agente Secreto” e as feridas abertas da Ditadura

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Análise destaca como o novo filme de Kleber Mendonça Filho espelha a justiça incompleta no Brasil; obra recusa a catarse e foca no esforço de “trabalhadores da memória” para recompor a história

A “Perna Cabeluda”, elemento folclórico e perturbador de “O Agente Secreto”, é apresentada como a metáfora perfeita para o Brasil: um fragmento que denuncia a ausência de um corpo inteiro. O filme foge das fórmulas de Hollywood — não há punição dos vilões nem redenção final — para ser fiel à realidade brasileira, onde a busca por mortos e desaparecidos políticos continua sendo um mosaico incompleto.

O Triângulo da Justiça de Transição

O texto detalha as três instâncias fundamentais que tentam, há décadas, “juntar as partes” dessa história:

  1. CEMDP (Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos): Criada em 1995, identificou apenas 35 das 257 vítimas de desaparecimento forçado. Após ser extinta por Bolsonaro e recriada por Lula, luta contra a “arqueologia do impossível” devido à destruição de arquivos pelo regime.

  2. Comissão de Anistia: Focada nos sobreviventes e na reparação de trajetórias destruídas. Em 2026, corre contra o tempo para julgar processos de pessoas em idade avançada, buscando evitar uma “justiça póstuma”.

  3. CNV (Comissão Nacional da Verdade): Embora tenha produzido um relatório robusto, falhou em sua principal recomendação: a responsabilização criminal dos torturadores, blindados por uma interpretação controversa da Lei de Anistia de 1979.

A Vitória do “Corpo Documental”

Onde o Estado não entrega o corpo físico, a luta tem se voltado para a retificação de certidões de óbito.

  • O Exemplo Real: Assim como no filme Ainda Estou Aqui, a entrega de uma certidão que reconhece a culpa do Estado na morte de Rubens Paiva é a prova jurídica contra a mentira oficial.

  • Avanço Recente: Parcerias entre o CNJ e o Ministério dos Direitos Humanos têm permitido que centenas de famílias recebam esses documentos, garantindo uma vitória simbólica sobre o apagamento.

O Papel dos “Escavadores” de Verdade

O desfecho do filme homenageia os “trabalhadores da memória”: servidores, pesquisadores e advogados que, como a personagem Flávia no longa, dedicam-se a organizar pen drives e arquivos para que o anonimato das vítimas não seja definitivo.

A análise conclui que o filme de Mendonça Filho é brutal porque é honesto. Ele não oferece o conforto do choro redentor, mas entrega o fragmento que obriga a sociedade a perguntar: onde está o restante do corpo?

“A memória continua sendo um mosaico de presenças e ausências. Lembrar nunca é um ato total; é sempre uma recomposição precária do que foi deliberadamente quebrado.”


Com informações: Diplomatique / Marina Basso Lacerda

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