Mulher com um dos braços amputados sentada na cama

CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL – Legenda da foto,A cabeleireira teve o braço direito amputado e precisou ficar 28 dias hospitalizada

A cabeleireira foi socorrida em estado grave com mordidas no rosto, cabeça e braços.

No hospital, precisou passar por cirurgias — uma delas para amputar o braço direito. Ela ficou 28 dias hospitalizada, sendo 14 deles em coma na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

“Os médicos não me deram muitas chances de vida, mas eu estou aqui e sou um milagre de Deus. Perdi um braço e quando saí do hospital, não tinha movimentos no outro. Apesar de sentir muitas dores, minha recuperação considero que foi rápida. Fiz seis meses de fisioterapia e agora faço terapia ocupacional para tentar retomar os movimentos da mão”, conta.

Quanto ao animal, a cabeleireira diz que foi recolhido pelo centro de zoonoses. Depois disso, não teve mais informações sobre ele.

O cachorro, segundo Maria Teresa, não tinha raça definida, mas era de porte grande, pesando em torno de 50 kg. Ele chegou à família quando filhote e tinha quatro anos na época do ataque.

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“Ele era muito dócil e não estranhava as pessoas. Ele sempre interagia com as clientes do salão a ponto de encostar nelas e pedir carinho”, lembra.

Mulher deitada no chão ao lado de cachorro; ela sorri

CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL – Legenda da foto,’Ele era muito dócil e não estranhava as pessoas’, relata Maria Teresa sobre o cachorro que a atacou

Brasil tem aumento de mortes por ataques de cães

No ano passado, 51 pessoas morreram no país após serem atacadas por cães. O número é o maior já registrado desde 1996, quando o Ministério da Saúde começou a fazer essa contabilização.

Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) apontam ainda que esse número é 27% maior do que o registrado em 2022, quando foram registradas 40 mortes por essa causa.

O Estado de São Paulo lidera o ranking de óbitos por ataques de cães. Nos últimos cinco anos, foram 44 casos. Somente em 2023, foram 19 mortes, aumento de 137,5% em relação ao ano anterior.

Na sequência, está o Rio Grande do Sul, com 20 mortes, sendo 7 em 2023 — um crescimento de 40% em relação a 2022.

O Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) foi criado pelo DataSUS para regular dados sobre mortalidade no país. Para esse levantamento, municípios e Estados fornecem informações sobre todos os óbitos registrados, sejam eles ocorridos em hospitais ou não.

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Porém, não há um levantamento nacional de casos de ataques de cães que não resultam em morte. Secretarias municipais de Saúde até registram os casos em que as vítimas buscam atendimento, no entanto, em casos menos graves essa busca por atendimento pode não acontecer.

“Normalmente as pessoas buscam atendimento quando são mordidas por cachorros de rua ou que elas não conhecem para tomar a vacina antirrábica. Mas, por exemplo, quando o cachorro da casa morde o dono, ele cuida em casa mesmo”, diz Richardson Zago, adestrador e especialista em comportamento canino há 25 anos.

Para Zago, uma das principais causas do aumento de mortes por ataques está na humanização dos animais.

“Hoje os cachorros são tratados como filhos, e toda a carga emocional do dono é passada para o bicho. Além disso, os cachorros não estão mais tendo contato com outros animais da espécie, fazendo com que eles fiquem desequilibrados com os seus instintos”, analisa.

Ainda segundo Zago, essa nova posição que os cães estão ocupando faz com que os tutores estejam mais permissivos na criação, deixando de lado a imposição de regras.

“Quando filhotes, os donos permitem que os cachorros subam no sofá, durmam na cama e façam o que eles quiserem. Porém, quando esse animal cresce, naturalmente ele fica mais possessivo, territorialista. Diante de uma negativa, ele se estressa. O acúmulo desse estresse faz com que um dia ele ataque”, acrescenta.

Outro fator que influencia no comportamento dos cães, segundo os especialistas ouvidos pela BBC News, é que a maioria das pessoas não busca conhecer o comportamento do animal, como a linhagem e particularidades da raça, antes da chegada dele à residência.

“Muitos acham que ter um cachorro é só oferecer água, comida e um lugar para dormir. Porém, cuidar do animal vai muito além disso. É preciso saber as necessidades de cada raça, o que causa estresse e quais os sinais de que algo não está bem com o animal”, diz Zago.

O desequilíbrio emocional do animal sozinho ou aliado a fatores como sensação de ameaça, medo ou até mesmo dor pode fazer com o que esses ataques sejam contra o próprio dono, pessoas da família ou desconhecidos.

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“O animal não sabe lidar com as emoções, então quando ele fica ansioso, a atitude é morder”, diz Patrícia Saraiva, educadora canina e especialista em comportamento animal.

A educadora enfatiza ainda que, quando há um ataque, a única maneira de cessá-lo é segurar no pescoço do animal.

“Quando fazemos uma pressão no pescoço, o cachorro tende a soltar. Esse enforcamento pode ser com um pano ou com um enforcador”, diz.

Fique atento aos sinais

Um cachorro que normalmente é manso tem mais chances de atacar se estiver com dor — causada por exemplo por um machucado ou uma doença crônica que muitas vezes ainda não foi diagnosticada.

Traumas anteriores também fazem com que os animais ataquem. Por exemplo, um animal que foi resgatado de agressões pode se amedrontar com algum movimento que remeta a esse passado e, então, morder.

Não importa qual a situação, os especialistas são unânimes em afirmar que os animais sempre dão sinais de ansiedade antes de um ataque.

“Eles podem lamber os lábios, bocejar, puxar as orelhas para trás ou ficar mais isolados, mostrando que não estão confortáveis com a situação. Pela correria do dia a dia ou até mesmo desconhecimento, muitos tutores não detectam esses sinais. Quando o ataque acontece, muitos acham que é do nada, mas nunca é”, explica Saraiva.

Ainda segundo os especialistas, esses quadros de ansiedade começam meses antes de um ataque.

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Relação com a raça

Os ataques provocados por animais da raça pitbull costumam chamar a atenção da população e colocam a raça, muitas vezes, como vilã da situação.

Em um episódio recente que ganhou visibilidade nacional, a escritora Roseana Murray, 73 anos, foi atacada em Saquarema (RJ) por três cães da raça. Após o ataque, em 5 de abril, Murray ficou quase duas semanas hospitalizada e perdeu um braço e uma orelha.

Os donos dos cachorros foram identificados, chegaram a ser presos temporariamente e estão respondendo na Justiça a acusações de maus-tratos a animais, lesão corporal culposa e omissão na cautela de animais.

Porém, há poucas evidências científicas consistentes de que algumas raças são mais agressivas do que outras.

Em um estudo de 2022 de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), os autores concluíram, após a análise de questionários preenchidos por tutores de cães, que são muitos os fatores que influenciam em um ataque.

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“Em vez de direcionar o ataque a um único fator comum às espécies ou raças específicas, os nossos resultados reforçam como o comportamento individual, combinado com a genética, fisiologia, experiências de vida e contextos ambientais particulares dos cães interagem […]”, concluíram os autores.

Um artigo de pesquisadores publicado pela BBC News Brasil no ano passado afirmou que “há poucas evidências científicas consistentes de que algumas raças são inerentemente mais agressivas do que outras”.

“Nossas avaliações sugerem que as raças relatadas em casos de mordidas são simplesmente as raças mais populares naquela região”, disseram Carri Westgarth e John Tulloch, professores na Universidade de Liverpool, no texto.

Entretanto, os pesquisadores reconheceram que, quando se trata de ataques mortais, a maioria das raças envolvidas é “grande e poderosa” — como American bulldog e pitbulls, mas também rottweilers, pastores alemães e malamutes.

Especialistas indicam que a gravidade das lesões está mais relacionada à força do animal do que à possibilidade de ser mais agressivo ou não.

“O pinscher, por exemplo, é uma raça que morde bastante, mas por ele ser pequeno, é fácil controlá-lo, e a lesão também é pequena. O mesmo não acontece com cães de porte grande, que são fortes, pesam como um adulto e muitas vezes uma mordida pode matar”, explica Zoca.

Pinscher em cima de tronco

CRÉDITO,GETTY IMAGES – Legenda da foto,Adestrador cita o pinscher como uma raça que morde bastante — mas os ataques acabam não se tornando tão graves por conta do tamanho dele

Na hora de escolher um cachorro, é importante se atentar à tendência genética do animal, analisando o comportamento dos pais e irmãos. Isso porque grande parte do comportamento é herdado dos pais.

Os especialistas aconselham também que os cães sejam treinados para atender às regras e para evitar possíveis ataques. O treinamento pode ser feito em qualquer idade, mas quanto mais cedo começar, mais rapidamente o animal aprende.

Para o treinamento, é recomendado o método de recompensas, já que os baseados em punição estão associados a maior estresse, medo e agressão por parte do animal.

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Além da genética, um estudo realizado pela Harvard Medical School mostrou que as mudanças climáticas podem afetar o comportamento dos cães, deixando-os mais agressivos.

Para a pesquisa, divulgada no ano passado, foram analisados 69.525 casos de mordidas de cães, que ocorreram em oito cidades dos Estados Unidos entre 2009 a 2018.

Segundo os pesquisadores, a probabilidade de ocorrer ataques de cães aumenta 11% nos dias em que a radiação ultravioleta (UV) é mais alta. Além disso, as altas temperaturas faziam aumentar as probabilidades de ataque em 4%.

“Assim como nós, os cachorros também se sentem desconfortáveis com o calor e isso pode gerar uma irritabilidade. Nos dias quentes, é importante ter um cuidado a mais e não os deixar com roupinhas, em ambientes muito quentes ou expostos ao sol”, diz Saraiva.

Obrigatoriedade da focinheira

Não há uma lei federal que determine as regras para o uso da focinheira em cachorros. Um projeto de lei sobre o tema tramita na Câmara dos Deputados desde o ano passado.

Nele, o autor da proposta, Marcos Soares (União-RJ), pede a obrigatoriedade de focinheira na condução de cães de grande porte ou de raças consideradas perigosas em locais públicos ou abertos ao público.

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Apesar da falta de lei federal, diversos Estados e municípios criaram legislações próprias para regulamentar o uso da proteção.

No Estado de São Paulo, que lidera o ranking de mortes por ataques de cães, por exemplo, a lei foi criada há dez anos.

“É obrigatório cães de raças ferozes a usar enforcador, guia curta (até 2m) e coleira em locais públicos. Em centros comerciais e parques, é obrigatório o uso de focinheira. Caso não cumpram a lei, os donos de cães das raças mastim napolitano, pit bull, rottweiler, american staffordshire terrier ficam sujeitos a multa”, diz a lei.

A multa aplicada em caso de descumprimento é de R$ 353,60.

No Rio Grande do Sul, segundo Estado com mais ataques, também há legislação que restringe a circulação de animais sem focinheira. Além disso, todos os tutores de cachorros das raças american pitbull terrier, fila, rottweiler, dobermann, bull terrier e dogo argentino precisam fazer o registro oficial do animal.

“Os cães especificados nesta Lei somente poderão circular em logradouros públicos, vias de circulação interna de condomínios, bem como em áreas próximas àquelas onde haja ovinocaprinocultura, se conduzidos por pessoas capazes e com guia curta – máximo 1,5m – e focinheira, que permita a normal respiração e transpiração do animal”, diz trecho da legislação.

Com o descumprimento das regras, cabe punição, que é definida pela administração municipal.

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