Pesquisa identifica que o estrogênio desencadeia uma reação em cadeia no intestino, tornando os nervos mais sensíveis à dor através das células L.
A ciência acaba de dar um passo crucial para entender uma disparidade que atinge milhões de pessoas: a prevalência da Síndrome do Intestino Irritável (SII) em mulheres. Estima-se que elas sejam diagnosticadas até duas vezes mais que os homens, enfrentando sintomas como dores intensas, inchaço e alterações no hábito intestinal. Um novo estudo, publicado na revista Science, revela que o estrogênio — o principal hormônio sexual feminino — atua como um amplificador da dor ao tornar os nervos intestinais significativamente mais sensíveis.
Liderada pelo neurofisiologista David Julius, da Universidade da Califórnia, a investigação utilizou modelos animais para desvendar o mecanismo biológico por trás dessa diferença. Os pesquisadores descobriram que, ao contrário do que se pensava, o estrogênio não afeta diretamente os nervos, mas sim células raras no revestimento do intestino chamadas células L. Quando essas células detectam a presença do hormônio, elas aumentam a produção de um receptor que as torna hipersensíveis aos subprodutos da digestão realizados pelas bactérias intestinais.
Essa hipersensibilidade gera um efeito dominó: as células L liberam o hormônio PYY, que por sua vez estimula outras células vizinhas a secretarem serotonina extra. No intestino, o excesso desse mensageiro químico ativa os nervos sensíveis à dor que enviam sinais diretos ao cérebro. Para comprovar a tese, os cientistas observaram que, ao remover a produção de estrogênio, a sensibilidade intestinal das fêmeas caía para níveis idênticos aos dos machos, confirmando o papel central do hormônio no processo.
No vídeo abaixo, entenda como o ciclo hormonal feminino influencia o funcionamento do trato gastrointestinal e por que essas descobertas podem mudar a forma como médicos tratam a dor crônica em mulheres em 2026.
[video_generation: Um vídeo explicativo com animações em 3D do sistema digestivo. O vídeo mostra de forma didática o estrogênio interagindo com as células do revestimento intestinal, a liberação de serotonina e os impulsos elétricos de dor viajando pelos nervos até o cérebro, com narração científica acessível.]
A relevância deste estudo vai além da biologia pura, alcançando o campo da isonomia no atendimento médico. Historicamente, as queixas de dor feminina foram muitas vezes negligenciadas ou tratadas como fatores puramente emocionais. A identificação de alvos moleculares concretos, como os receptores PYY e OLFR78, valida as experiências das pacientes e abre portas para terapias personalizadas que considerem as flutuações hormonais do ciclo menstrual, da menopausa e até de terapias de afirmação de gênero.
Além disso, a descoberta ajuda a explicar o sucesso de dietas como a baixo FODMAP (redução de açúcares fermentáveis). Como o estrogênio torna o intestino mais sensível aos subprodutos da fermentação bacteriana, reduzir o “combustível” dessas bactérias alivia a pressão sobre as células L, diminuindo a reação em cadeia que resulta na dor. É a ciência comprovando que a dieta e os hormônios trabalham em conjunto na regulação do bem-estar gástrico.
Embora os resultados em ratos sejam promissores, a equipe médica ressalta que estudos clínicos em humanos são essenciais para confirmar essas rotas metabólicas. O intestino humano é um ecossistema mais complexo, influenciado pela genética e pela vasta diversidade da microbiota individual. No entanto, ter um mapa claro de como o estrogênio amplifica os sinais de dor é o primeiro passo para que, no futuro próximo, o tratamento da SII deixe de ser generalista e passe a ser focado nas particularidades biológicas de cada paciente.
Este avanço representa uma mudança de paradigma: a dor intestinal feminina não é “coisa da cabeça”, mas sim o resultado de uma engrenagem hormonal sofisticada que agora a medicina começa a dominar. Com o desenvolvimento de novos medicamentos focados nesses receptores específicos, a promessa é de um futuro com menos desconforto e mais qualidade de vida para as mulheres em todo o mundo.
*Com informações: Live Science.