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O feminicídio no Brasil não pode ser encarado apenas como uma estatística de segurança pública ou uma sucessão de tragédias isoladas. Segundo análise do consultor em desenvolvimento social Domenico Corcione, integrante do Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais (CAIS) em Brasília, o assassinato de mulheres por razões de gênero é a expressão máxima de um sistema que utiliza a violência como “linguagem” para responder à autonomia feminina.
A recorrência desses crimes revela que a morte é, muitas vezes, o ponto final de uma escalada previsível e anunciada, alimentada pelo controle, pelo ciúme naturalizado e pela posse. No Brasil, essa engrenagem atinge de forma desproporcional as mulheres negras, pobres e periféricas, evidenciando que o racismo e a desigualdade de classe são eixos estruturantes do problema, e não apenas fatores adicionais.
Embora marcos legais como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio sejam conquistas indispensáveis, especialistas alertam que a resposta exclusivamente punitiva chega tarde: quando a vida já foi ceifada. Para romper o ciclo, é necessário que o Estado e a sociedade civil olhem para as causas, e não apenas para os sintomas.
A aposta no endurecimento de penas, isoladamente, não promove a transformação cultural necessária. O enfrentamento eficaz exige políticas robustas de prevenção que incluam:
Autonomia Econômica: Fortalecer a renda das mulheres para quebrar vínculos de dependência com agressores.
Educação e Cultura: Disputar narrativas em escolas, igrejas e meios de comunicação que ainda naturalizam a superioridade masculina.
Intersetorialidade: Articular redes de saúde mental, assistência social e educação para identificar o risco antes que ele se torne letal.
Uma das teses centrais para a redução dos índices de feminicídio em 2026 é o deslocamento do foco das vítimas para os agressores. Programas de reeducação e responsabilização de homens são vistos como ferramentas vitais para romper o “pacto de silêncio” que associa virilidade à dominação.
Trabalhar com as masculinidades significa criar espaços de reconstrução simbólica, onde o poder não seja exercido através da força. Sem o envolvimento direto dos homens na desconstrução do patriarcado, o feminicídio continuará sendo tratado como uma “tragédia privada”, quando, na verdade, é um crime político e social que rompe o pacto mínimo de civilização.
A análise reforça que o feminicídio segue a lógica das desigualdades que organizam a sociedade brasileira. A “colonialidade” do poder hierarquiza corpos, fazendo com que a vida de mulheres brancas e de classe alta receba maior atenção institucional e midiática do que a de mulheres negras e moradoras de favelas.
Reconhecer que o feminicídio é um “método” de manutenção de poder — e não um desvio de “indivíduos monstruosos” — é o primeiro passo para uma transformação profunda. Enquanto a autonomia das mulheres for vista como uma ameaça a ser combatida com a morte, o Brasil continuará a conviver com uma das maiores taxas de letalidade feminina do mundo.
Com informações: Diplomatique
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