A falta de pacto sobre a área de proteção ameaça a recuperação da espécie, que vive apenas na Caatinga baiana. Pesquisadores apontam que os choques matam cerca de cem aves por ano e que a solução exige fiscalização contínua e responsabilização.
Um impasse na negociação entre o
Ministério Público da Bahia (MP/BA) e a
Neoenergia-Coelba está prolongando a morte de
araras-azuis-de-lear (
Anodorhynchus leari) por eletrocussão na Caatinga baiana. A espécie, criticamente ameaçada de extinção e que vive exclusivamente na região, tem seus esforços de recuperação retardados pela falta de um acordo definitivo. O choque ocorre quando a ave toca os fios e equipamentos com suas grandes asas no
Raso da Catarina, área que abrange municípios como Jeremoabo e Euclides da Cunha. Embora a solução envolva a modificação de postes e fiação, o acordo, esperado desde o fim de 2024, ainda não foi selado. A promotora
Luciana Khoury explica que a principal "pedra no caminho" é a delimitação da área alvo das medidas de conservação. "Nós propusemos uma área maior e a empresa entendeu que a área era grande demais", resume.
Mortalidade e Propostas de Solução
Cientistas e ONGs denunciam os choques desde 2020. Estima-se que cerca de
cem araras morram por choques anualmente, e ao menos 35 fatalidades já foram registradas em 2025. Cada perda é crítica para a pequena população da espécie, que hoje soma cerca de 2,5 mil aves na natureza. Para
Marlene Reis, presidente da Associação Jardins da Arara de Lear, a solução definitiva é a troca de equipamentos em toda a região. Ela defende a criação de uma lei que obrigue padrões para as redes elétricas que protejam a biodiversidade, já que as estruturas elétricas interioranas não têm licenciamento ambiental. Um estudo recente publicado no
Journal of Applied Ecology aponta que:
- Alterar 10% dos postes nas áreas de maior risco encolheria os acidentes em até 80%.
- Alterar 20% das redes aumentaria a redução das fatalidades para 90%.
Ações em Curso e Fatores Ambientais
Apesar do impasse no acordo formal, a promotora Luciana Khoury afirma que áreas delimitadas como mais suscetíveis a choques já passam por modificações em postes e fiação. A
Neoenergia Coelba informa ter investido R$ 40 milhões em três anos e adaptado mais de 5 mil estruturas para "pouso seguro" das aves. A empresa, no entanto, argumenta que o aumento das mortes está associado a
fatores ambientais mais amplos, como o
desmatamento da Caatinga que reduz as áreas de
licuri (
Syagrus coronata), principal alimento da arara. Além dos choques e do desmatamento (que já consumiu quase metade da vegetação nativa da Caatinga), a espécie enfrenta a pressão do
tráfico de animais e a instalação de
parques eólicos nas rotas de voo. O monitoramento por satélite da movimentação das araras será intensificado a partir deste mês para subsidiar a demarcação das áreas de proteção.
Com informações: ECO