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Calor crescente e insuficiência renal: o impacto oculto das mudanças climáticas sobre os trabalhadores migrantes

Calor crescente e insuficiência renal: o impacto oculto das mudanças climáticas sobre os trabalhadores migrantes

Redação
Por: Redação
25/11/2025 às 19h00 Atualizada em 25/11/2025 às 22h00
Calor crescente e insuficiência renal: o impacto oculto das mudanças climáticas sobre os trabalhadores migrantes
Foto: Reprodução
O calor extremo e o estresse térmico ocupacional em países do Golfo Pérsico estão impulsionando uma epidemia silenciosa de Doença Renal Crônica (DRC) em jovens trabalhadores migrantes que retornam para países como o Nepal, evidenciando como a mudança climática, a desigualdade e a exploração sistêmica se unem para afetar os mais vulneráveis

Uma epidemia silenciosa de Doença Renal Crônica (DRC) está atingindo jovens trabalhadores migrantes que atuaram na construção civil e em outros setores em países do Golfo Pérsico, como Catar e Arábia Saudita. A condição, que requer diálise vitalícia ou transplante, está sendo ligada diretamente ao estresse térmico ocupacional sob temperaturas que podem chegar a 50 graus Celsius.

O vínculo entre calor extremo e DRC

Estudos têm estabelecido uma conexão inegável entre o aumento das temperaturas globais e o aumento dos casos de DRC. O Nepal está no centro dessa crise, com mais de 20% dos pacientes em clínicas de diálise em Katmandu nos últimos seis meses tendo trabalhado no Golfo.

  • Mecanismo de dano: O trabalho fisicamente exaustivo sob calor implacável faz a temperatura interna do corpo aumentar, levando a sudorese e desidratação intensa. O estresse térmico sobrecarrega os rins, prejudicando sua capacidade de regular fluidos e eletrólitos, o que resulta em lesões renais permanentes (DRC).

  • Avanço Precoce: Muitos trabalhadores migrantes precisam iniciar a diálise em média 17 anos mais cedo do que outros pacientes, muitas vezes no início dos 30 anos, após perderem de 80% a 90% da função renal.

  • Sintomas: Os sintomas iniciais da DRC são enganosamente leves, como inchaço dos membros, fadiga e perda de apetite, sendo frequentemente percebidos tarde demais.

Duplo impacto das mudanças climáticas e desigualdade

O problema é agravado por um sistema global de exploração que coloca os trabalhadores em condições precárias, onde a pressão para enviar dinheiro para casa se soma à falta de proteção.

  • Vulnerabilidade: Os trabalhadores migrantes são expostos a um "duplo impacto das mudanças climáticas": primeiro, em seus países de origem, onde desastres climáticos (como inundações) destroem seus meios de subsistência, forçando a emigração; e, em segundo, no Golfo, onde suportam calor insuportável e longas jornadas, muitas vezes bebendo refrigerantes ou energéticos em vez de água devido à escassez de acesso adequado.

  • Transferência de custos: Os países do Golfo, que se enriqueceram com combustíveis fósseis e dependem dessa mão de obra barata para construir grandes projetos de infraestrutura (como estádios para a Copa do Mundo), são acusados de tratar os trabalhadores doentes como "descartáveis", transferindo o custo do tratamento renal (diálise vitalícia) para países de baixa renda como o Nepal. A disparidade de investimento em saúde é gritante: a Arábia Saudita gasta $57 bilhões, enquanto o Nepal gasta $605 milhões.

Soluções focadas na prevenção

Especialistas e médicos concordam que o tratamento (diálise) não é a solução a longo prazo; a prevenção e a responsabilidade corporativa são essenciais.

  • Regulamentação no local de trabalho: As proibições de trabalho ao meio-dia implementadas em alguns países do Golfo são consideradas simplistas e ineficazes. As regulamentações devem se basear na temperatura de bulbo úmido e globo (que leva em conta temperatura, umidade, vento, etc.) e na carga metabólica do trabalhador. O Catar, por exemplo, exige a interrupção do trabalho quando a temperatura de bulbo úmido ultrapassa 32,1°C, mas o monitoramento contínuo pelas empresas é inconsistente.

  • Intervenções: Estudos como os da La Isla Network na Nicarágua demonstraram que intervenções simples, como pausas obrigatórias, maior acesso a sombra e hidratação podem reduzir a incidência de lesão renal em até 70% e, inclusive, aumentar a produtividade.

  • Rastreamento e Financiamento: O rastreamento precoce e a educação sobre os perigos do estresse térmico são cruciais. O Dr. Rishi Kumar Kafle defende que os países do Golfo deveriam ajudar a financiar transplantes e campanhas de segurança no Nepal, além de exigir que os empregadores ofereçam exames de sangue regulares para detectar danos renais precocemente.


Com informações: Griste The Asian Dispatch

 
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