
O cenário da conservação ambiental global vive um momento de transição decisivo. Com o anúncio do Panamá como sede do próximo Congresso Mundial de Áreas Protegidas e Conservadas em 2027, a América Latina retoma o protagonismo nos debates sobre biodiversidade após 35 anos. O evento será o primeiro grande encontro sob a vigência do Plano Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que estabeleceu a ambiciosa Meta 3 (ou 30x30): conservar pelo menos 30% dos ecossistemas terrestres e marinhos do planeta até 2030.
Para o Brasil, o desafio vai além da expansão territorial. Segundo especialistas vinculados à USP, UnB e outras instituições de pesquisa, a prioridade deve ser a eficácia qualitativa. Isso significa que as Áreas Protegidas e Conservadas (APCs) precisam de quadros de pessoal qualificados, recursos financeiros estáveis e uma governança que integre Unidades de Conservação (UCs), Territórios Indígenas e Tradicionais (TITs) e Outras Medidas de Conservação Eficazes Baseadas em Áreas (OMECs).
Reflexões iniciais apontam três pilares fundamentais para a resposta global às crises climática e de biodiversidade:
Mudanças Globais: Avaliar ameaças e oportunidades para as APCs em um clima instável.
Ampliação da Escala: Garantir que o aumento das áreas protegidas seja sustentável e eficaz.
Povos e Natureza: Focar em direitos, responsabilidades e na relação das sociedades com o meio ambiente.
A Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB 2025–2030) é a resposta do Brasil aos compromissos globais. Diferente de metas puramente numéricas, a Meta 3 Brasileira destaca a importância da sociobiodiversidade — integrando o conhecimento e os direitos de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
A conservação não deve ser vista como um entrave ao desenvolvimento, mas como um ativo econômico vital. Áreas protegidas garantem a segurança hídrica, a polinização agrícola e a regulação climática, sendo soluções baseadas na natureza (SbN) essenciais para a qualidade de vida, especialmente em contextos urbanos e periurbanos.
| Ano | Local | Foco Principal |
| 1962 | Seattle (EUA) | Estabelecimento de padrões para Parques Nacionais. |
| 1992 | Caracas (Venezuela) | Relação entre pessoas e áreas protegidas; meta de 10% de proteção. |
| 2003 | Durban (África do Sul) | Novo paradigma: governança, equidade e compartilhamento de benefícios. |
| 2014 | Sidney (Austrália) | Integração com saúde, bem-estar e enfrentamento das mudanças climáticas. |
| 2027 | Panamá | Implementação do Plano Global de Biodiversidade 2030. |
Apesar dos avanços, o financiamento e a priorização política permanecem como gargalos. A EPANB prevê a regulamentação de omecs e o fortalecimento de territórios tradicionais, mas ainda carece de garantias de expansão de quadros profissionais dedicados. O sucesso rumo a 2027 depende de ver as APCs como territórios de vida e de reconexão entre sociedade e natureza.
Com informações: ECO, Geccap-USP, GAP, Aliança das Ciências pelas APCs e Grupo Cauim-UnB.