
Uma investigação conduzida por pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) revelou a "herança maldita" de séculos de exploração desenfreada nos oceanos brasileiros. Ao analisar mais de 200 documentos históricos — incluindo relatórios, pinturas e fotografias produzidos entre 1500 e 1950 —, o estudo traçou um comparativo com dados atuais, evidenciando uma degradação profunda na biodiversidade marinha do país, do Amazonas a Santa Catarina.
Os resultados, publicados na revista Ocean & Coastal Management, mostram que a pressão da pesca não apenas dizimou populações, mas alterou a biologia das espécies. Animais de grande porte foram sistematicamente eliminados, forçando uma seleção artificial que resultou em exemplares muito menores do que seus ancestrais. A bióloga Carine Fogliarini, coautora do estudo, destaca que o oceano brasileiro era vastamente mais rico do que a realidade que conhecemos hoje.
A pesquisa detalha como a exploração intensa moldou o perfil da fauna atual. Espécies que antes dominavam o litoral com dimensões impressionantes agora apresentam tamanhos reduzidos:
Peixes (Camurupim e Beijupirá): Atualmente são, em média, 64% menores. Registros antigos apontavam indivíduos com mais de três metros; hoje, raramente ultrapassam 1,5 metro.
Garoupas: Em 1870, apenas um porto na Bahia registrou o desembarque de 3,2 mil toneladas, um volume insustentável a longo prazo.
Mamíferos Marinhos: A caça às baleias (pelo óleo e carne) só foi proibida em 1986, enquanto o peixe-boi sofreu exploração intensa até a década de 1970.
Apesar da proibição da caça comercial para várias dessas espécies na segunda metade do século XX, o cenário permanece crítico. Além da herança histórica da pesca, a fauna marinha enfrenta agora ameaças contemporâneas como:
Mudanças climáticas e perda de habitat.
Poluição sonora submarina que afeta as migrações.
Colisões frequentes com embarcações de grande porte.
As cientistas defendem que o planejamento de conservação só será realista se considerar o que foi perdido ao longo dos séculos. A atualização das leis é vista como urgente para refletir esses novos desafios e permitir que as funções ecológicas dessas espécies sejam restauradas nos ecossistemas brasileiros.
Com informações: Vinicius Nunes / Ocean & Coastal Management / ECO