
Após mais de três décadas de itinerância e dependência de espaços cedidos, o Centro de Cultura e Educação Popular (Cepafre) celebra a conquista de sua primeira sede própria. O imóvel, localizado no Setor O, em Ceilândia, ocupará as instalações onde funcionava a antiga 16ª Zona Eleitoral. A cessão de uso foi oficializada pela Superintendência do Patrimônio da União (SPU) por um período de dez anos, com possibilidade de renovação por mais uma década.
Fundado em 1989, o Cepafre consolidou-se como uma das organizações mais influentes do movimento popular no Distrito Federal. Ao longo de sua trajetória, a entidade foi responsável pela alfabetização de mais de 16 mil pessoas, entre jovens, adultos e idosos. O foco principal do trabalho está em Ceilândia e no Sol Nascente, atendendo majoritariamente mulheres que não tiveram a oportunidade de estudar durante a infância.
A nova sede não representa apenas um endereço fixo, mas a materialização de um ideal pedagógico. Inspirado pela metodologia de Paulo Freire, o Cepafre utiliza os chamados "círculos de cultura" em vez de salas de aula convencionais. O presidente da entidade, Pedro Lacerda, destaca que o objetivo é transformar o prédio em uma referência do pensamento freiriano na cidade, irradiando cultura e educação para toda a comunidade local.
A ligação com o patrono da educação brasileira é profunda: a organização guarda moldes das mãos de Freire, feitos durante uma de suas visitas a Ceilândia. Recentemente, a instituição atualizou seu estatuto para incluir formalmente os termos “cultura” e “educação popular” em seu nome, reforçando uma prática que já era exercida desde a fundação em espaços da Universidade de Brasília (UnB) e em polos comunitários.
Apesar da conquista do espaço físico no Setor O, a estratégia de ensino do Cepafre permanecerá descentralizada. A lógica é simples: o projeto vai até onde o aluno está. Em março, estão previstas oito novas turmas distribuídas por diferentes trechos do Sol Nascente e de Ceilândia. Apenas uma dessas turmas funcionará na sede nova, garantindo que os moradores com dificuldade de deslocamento noturno continuem sendo atendidos em igrejas e associações próximas.
Além da alfabetização básica, o currículo para 2026 inclui inclusão digital e produção audiovisual. Os alunos aprendem a manusear tablets e smartphones, além de técnicas de fotografia e filmagem. Essa abordagem moderna visa integrar o cidadão à linguagem tecnológica e do cinema, ferramentas essenciais para a autonomia no mundo contemporâneo. A nova sede possibilitará, ainda, a criação de um cursinho pré-vestibular popular.
A estruturação do novo prédio, que possui cerca de 370 metros quadrados, é fruto de um esforço coletivo. O contrato de cessão foi assinado no apagar das luzes de 2025, e desde então voluntários trabalham na reforma e organização. O mobiliário do mini auditório foi doado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), enquanto o projeto de arquitetura de interiores foi desenvolvido gratuitamente por profissionais da UnB.
A universidade, inclusive, mantém uma parceria histórica com o Cepafre por meio de projetos de extensão, sendo responsável pela formação contínua dos educadores populares. Para equipar totalmente a nova "casa", a entidade organiza um "Chá de Casa Nova" neste sábado (21/2), às 14h, durante a apresentação oficial do imóvel. O evento busca arrecadar doações e reunir apoiadores, movimentos sociais e autoridades locais.
A conquista da sede própria traz consigo o desafio da autogestão de um prédio de grande porte. A manutenção dos custos fixos e a infraestrutura necessária para as oficinas culturais exigirão uma mobilização constante da sociedade civil e de parceiros institucionais. Para Pedro Lacerda, o desafio é bem-vindo, pois permite que a entidade tenha autonomia para planejar ações de longo prazo sem o risco de despejo ou interrupção de atividades.
O impacto social do Cepafre é mensurado pela transformação na vida de milhares de brasilienses que passam a ler e escrever, recuperando a dignidade e a participação política. Com a nova sede, a expectativa é que o centro se torne um hub de inovação social em Ceilândia, integrando educação, tecnologia e memória popular, servindo de modelo para outras iniciativas de educação não formal em todo o Brasil.