Pela primeira vez em 80 anos, há forte pressão para que uma mulher da América Latina e Caribe assuma a liderança da maior organização internacional.
O ano de 2026 marca um momento crítico para o futuro do multilateralismo. A Organização das Nações Unidas (ONU) inicia o processo de escolha para o sucessor de António Guterres, que ocupa o posto máximo da instituição desde 2017. Embora o cargo de Secretário-Geral não possua poder de mando direto sobre as soberanias nacionais, ele detém uma autoridade moral e política capaz de pautar prioridades globais, como a crise climática e os direitos humanos. No entanto, o novo líder herdará uma organização desafiada pela paralisia do Conselho de Segurança e pela polarização crescente entre as grandes potências.
Após oito décadas de mandatos exclusivamente masculinos, a demanda por uma liderança feminina e oriunda do Sul Global — especificamente da América Latina e do Caribe — deixou de ser um apelo simbólico para se tornar uma necessidade estratégica. A ideia é que uma liderança desta região possa trazer visões alternativas de desenvolvimento e segurança que não se limitem à lógica militar tradicional, focando em temas como justiça climática, reparação de desigualdades históricas e o combate ao racismo ambiental.
Entre os nomes que ganham força nos bastidores da diplomacia em Nova York, destacam-se figuras com trajetórias distintas:
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Rebeca Grynspan (Costa Rica): Atual Secretária-Geral da UNCTAD, é vista como uma candidata técnica e pragmática, focada na reforma da arquitetura financeira internacional.
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Michelle Bachelet (Chile): Ex-presidente e ex-Alta Comissária de Direitos Humanos, possui forte apelo em pautas humanitárias, mas enfrenta resistência de potências com poder de veto, como Rússia e China.
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Mia Mottley (Barbados): A primeira-ministra tem se destacado como uma voz poderosa contra o sistema financeiro atual e em defesa da responsabilidade histórica dos países centrais na crise climática.
No vídeo a seguir, entenda como funciona o complexo sistema de votação e veto no Conselho de Segurança da ONU e quais são os ritos diplomáticos que definirão o próximo representante máximo da organização até o final de 2026.
[video_generation: Um vídeo explicativo com infográficos dinâmicos sobre a estrutura da ONU. O vídeo mostra fotos dos candidatos mencionados, o mapa da América Latina destacado e imagens de arquivo de António Guterres discursando sobre o Pacto para o Futuro. Há explicações visuais sobre o poder de veto dos cinco membros permanentes do CSNU e a regra não escrita de rotação regional.]
O maior obstáculo para a próxima liderança continua sendo o poder de veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia). Frequentemente utilizado como instrumento de dominação política, o veto tem paralisado respostas a crises humanitárias urgentes. Portanto, o desafio do próximo Secretário-Geral será atuar como uma ponte: ser capaz de sobreviver ao filtro das grandes potências sem esvaziar seu potencial transformador para atender às demandas das periferias do sistema internacional.
A isonomia no tratamento das crises globais será o principal termômetro de sucesso do novo mandato. Em um mundo assolado pelo uso irresponsável da Inteligência Artificial, crises migratórias prolongadas e endividamento sufocante do Sul Global, a ONU precisa provar sua utilidade prática. O processo de escolha envolverá votações informais no Conselho de Segurança ao longo deste primeiro semestre de 2026, com o objetivo de encontrar um nome de consenso que consiga gerir não apenas a burocracia, mas a complexa teia de interesses conflitantes que hoje define a geopolítica mundial.
A sucessão de 2026 é, portanto, uma oportunidade única para atualizar a instituição e garantir que o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2028, não seja apenas uma data simbólica. Uma liderança atenta às feridas abertas do sistema internacional será essencial para construir uma infraestrutura multilateral que seja, de fato, inclusiva e funcional para todos os Estados-membros, independentemente do seu peso militar ou econômico.