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Ciência

O que a acne tem a ver com regeneração de membros?

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Axolote, espécie de salamandra, também está no meio

Por eras, o ser humano visa entender por que algumas espécies de animais conseguem a regeneração de membros e outros não (como nós mesmos). Essa peculiaridade pode ser observada, por exemplo, na simpática lagartixa, capaz de criar uma cauda nova após a original ser voluntariamente liberada.

Porém, um animal sob risco de extinção tem peculiaridades interessantes quando se trata de regeneração de membros: o axolote. Quando ele perde uma perna, “recebe” uma nova, totalmente funcional, incluindo todos os dedos.

Em semanas ou meses, tudo é recuperado: músculos, peles e nervos, que surgem no mesmo lugar. Essa salamandra tem esse recurso compartilhado com outros anfíbios, répteis e espécies de peixes.

James Monaghan, biólogo do desenvolvimento da Northeastern University (EUA), traz que, há mais de 2,4 mil anos, Aristóteles já observava que lagartos são capazes de regenerar caudas (como nossa amiga lagartixa). Essa foi uma das primeiras observações escritas que conhecemos sobre o tema.

Desde o século XVIII, um subconjunto de biólogos que estudam a regeneração buscam solução para essa questão. Isso tudo para tentar achar tratamentos médicos que “transforme” o corpo humano em algo similar aos dos axolotes.

Monaghan e companheiros creem que, futuramente, seremos capazes de regenerar membros. Segundo o Popular Science, os cientistas estão chegando perto.

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Regeneração de membros e acne: “tudo” a ver
  • Monaghan e pesquisadores de regeneração encontraram uma via molecular crítica capaz de ajudar no mapeamento de membros durante o renascimento;
  • Isso garante que as células do axolotes entendam como se juntar no mesmo arranjo de antes da separação;
  • Os cientistas usaram salamandras com genes editados para analisar o ácido retinoico, forma de vitamina A e ingrediente ativo da medicina contra a acne, a isotretinoína;
  • A concentração desse ácido, ao longo do gradiente de um membro substituto que está em desenvolvimento, dita onde os segmentos de perna, pé e articulações se encaixam;
  • Tal concentração é rigidamente controlada por uma só proteína também identificada na regeneração, tendo um efeito dominó em conjunto de outros genes.

Ao Popular Science, Catherine McCusker, bióloga do desenvolvimento da Universidade de Massachusetts em Boston (EUA), afirmou que “esta é realmente uma questão que tem sido fascinantemente biólogos de desenvolvimento e regenerativos para sempre: como o tecido regenerador sabe e faz o projeto do que está faltando?”

Segundo ela, os resultados são “emocionantes”, pois mostram como mesmo os baixos níveis de ácido retinoico já presentes nos tecidos da salamandra são capazes de ter grande impacto na formação de membros.

Outras pesquisas já estudaram o papel da molécula adjacente à vitamina A, porém, em doses mais altas, alteradas artificialmente. Já o novo artigo comprova a importância do composto químico nas concentrações normais.

Além disso, ao identificar como ele é regulado, assim como seus efeitos subsequentes do composto na cascata molecular, Monaghan e os demais pesquisadores “descobriram algo que está muito acima” na regeneração de membros, apontou McCusker.

A especialista explicou ainda que compreender o passo a passo inicial representa boa parte da decodificação do restante do processo. Sabendo a sequência química e genética do completa que desencadeia a regeneração, torna-se mais viável sua aplicação biomédica.

“Realmente acho que seremos capazes de descobrir como regenerar membros humanos. Acho que é uma questão de tempo”, pontuou.

Ela indicou ainda que, neste caminho, as descobertas podem aumentar a capacidade de tratar o câncer, podendo se comportar de forma similar à regeneração dos membros, ou melhorar a cicatrização de feridas e queimaduras.

Salamandras mutantes?

Para iniciar o estudo, Monaghan e pares começaram avaliando os padrões de expressão das proteínas e a concentração de ácido retinoico nos membros da salamandra. Para isso, usam axolotes geneticamente modificados.

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Eles expressam proteínas fluorescentes quando estão na presença dos compostos-alvo, de modo a ser mais fácil a localização dessas moléculas no tecido quando observadas no microscópio.

Na sequência, utilizaram uma droga para conter níveis de ácido retinoico que ocorrem de forma natural e observaram seus efeitos na regeneração. Então, produziram uma linha de salamandras mutantes sem um dos genes que compõem a cadeia, para, dessa forma, identificar quais alterações levam a quais deformidades nos membros dos animais.

A equipe descobriu que maiores concentrações de ácido retinoico levam ao corpo do axolote a informação para manter o comprimento das pernas crescentes, enquanto as menores concentrações indicam ser necessária uma regeneração.

Ácido retinoico em demasia pode causar um membro deformado e mais longo do que o correto, sem a presença de segmentos e articulações em uma perna bem formada, o que dificulta a capacidade de um axolote se movimentar tranquilamente.

Mas uma certa proteína é mais importante para definir a concentração adequada de ácido retinoico. “Descobrimos que é essencialmente uma única enzima chamada CYP26b1, que regula a quantidade de tecido que se regenera”, explicou Monaghan. A CYP26b1 quebra o ácido, de uma maneira que, quando o gene que faz a proteína é ativado, as concentrações do ácido caem, de modo a permitir as condições para formar o membro.

O estudo indica que, ao menos, três genes adicionais vitais para mapear os membros e formação óssea aparentam ser controlados diretamente por concentrações do ácido. Assim sendo, quando as concentrações desse composto estão desativadas, a expressão dos genes também é anormal.

Os membros resultantes possuem segmentos encurtados, seções repetidas, desenvolvimento ósseo limitado e outras deformações.

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Baseado em suas observações, Monaghan indicou que o ácido retinoico pode ser usado para “indução de regeneração”. Não há, “provavelmente, uma bala de prata para regeneração”, pontuou, mas diz que várias etapas ainda sem solução parecem estar envoltas na presença ou ausência da substância química.

“É mostrado promissor antes no sistema nervoso central e na medula espinhal para induzir a regeneração. Não está fora de questão também [usá-lo] para induzir a regeneração de um tecido de membro.”

O ácido retinoico é um composto comum a todos os animais, essencial no desenvolvimento embrionário, como na definição da orientação corporal humana. Seu excesso durante a gravidez, como no uso de isotretinoína, pode causar graves defeitos congênitos. Além disso, humanos compartilham muitos genes com anfíbios, como o axolote. A diferença está na facilidade com que esses genes são ativados após a maturidade.

Pesquisas sugerem que estimular a regeneração humana pode exigir apenas reprogramar células para um estado embrionário, em vez de manipular milhares de genes. Estudos recentes identificaram mecanismos importantes, como o mapeamento das partes dos membros e os sistemas de memória posicional que guiam a estruturação de tecidos regenerados.

Apesar dos avanços, a aplicação clínica ainda está distante. Os cientistas destacam a importância de continuar investindo em pesquisas básicas de biologia para que, no futuro, a regeneração de membros humanos possa se tornar realidade.

O estudo foi publicado na última terça-feira (10) na Nature Communications.


Fonte: Olhar Digital

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Ciência

Telescópio James Webb revela detalhes inéditos da Nebulosa Helix em nova imagem

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Conhecida como o “Olho de Deus”, a nebulosa planetária foi capturada em infravermelho, mostrando os estágios finais de uma estrela e oferecendo um vislumbre do futuro do nosso Sol

Uma nova e espetacular imagem da Nebulosa Helix (NGC 7293), compartilhada em 20 de janeiro de 2026, capturada pelo Telescópio Espacial James Webb (JWST), está oferecendo aos astrônomos uma visão sem precedentes dos estertores da morte de uma estrela. Localizada a cerca de 655 anos-luz de distância, na constelação de Aquário, a Helix é uma das nebulosas planetárias mais próximas da Terra, o que a torna um laboratório natural ideal para estudar o fim do ciclo de vida estelar.

A imagem utiliza a tecnologia de infravermelho próximo do JWST para perfurar camadas de poeira que eram opacas para telescópios anteriores. O resultado é uma exibição vibrante de estruturas que se assemelham a um saca-rolhas ou a um olho humano — apelidos como “Olho de Deus” ou “Olho de Sauron” são frequentemente atribuídos à sua aparência dramática.

Reciclagem cósmica e a semeadura de elementos vitais

Apesar do nome, uma nebulosa planetária não tem relação direta com planetas. O termo é uma herança histórica dos primeiros astrônomos, que viam essas nuvens circulares através de telescópios rudimentares e as confundiam com discos planetários. Na realidade, trata-se de uma nuvem de gás e poeira expelida por uma estrela semelhante ao Sol que esgotou seu combustível nuclear.

À medida que a estrela se transforma em uma anã branca — um núcleo denso e extremamente quente visível no centro da nebulosa —, ela ioniza o gás ao seu redor. Esse processo faz com que o hidrogênio e o hélio brilhem em cores intensas. Mais importante ainda, esse evento espalha pelo espaço elementos fundamentais como carbono, oxigênio e nitrogênio. Esses materiais são os blocos de construção essenciais para a formação de futuras estrelas, planetas e, potencialmente, da vida.

A precisão do infravermelho revela a anatomia da destruição

A câmera infravermelha do James Webb permitiu observar milhares de filamentos dourados e alaranjados conhecidos como “nós cometários”. Essas estruturas se formam onde os ventos estelares velozes da anã branca colidem com as camadas de gás mais frias e lentas que foram liberadas anteriormente.

  • Região Central (Azul): O brilho azulado próximo à anã branca é resultado da intensa radiação ultravioleta inflamando o gás ionizado.

  • Periferia (Amarelo e Vermelho): Nas bordas mais distantes e frias, predomina o hidrogênio molecular e a poeira cósmica, representados em tons quentes.

  • Ciclo de Vida: A imagem captura o exato momento em que a matéria estelar é devolvida ao meio interestelar, funcionando como um grande centro de reciclagem cósmica.

O destino do Sol previsto pela Nebulosa Helix

Para os cientistas, observar a Nebulosa Helix é como olhar para um “espelho do futuro”. Estrelas com massa similar à do nosso Sol passam exatamente por esse processo de expansão para uma gigante vermelha antes de colapsarem em uma anã branca, ejetando suas camadas externas no processo.

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Estima-se que o nosso próprio Sol seguirá um caminho idêntico em cerca de 5 bilhões de anos. Quando isso ocorrer, o sistema solar interno será consumido pela expansão solar, e o que restará será uma nebulosa brilhante, semelhante à Helix, marcando o fim da era do Sol como uma estrela da sequência principal. A imagem do JWST não é apenas uma obra de arte estética, mas um registro documental da evolução estelar que rege o universo.

Para imagens espaciais mais sublimes, confira nosso Arquivos da Foto Espacial da Semana.


Com informações: Live Science, NASA, ESA

 

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Ciência

Por que seu cérebro “apaga” o seu nariz da sua visão?

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Você já parou para pensar que o seu nariz está sempre ali, bem no meio do seu rosto, mas você raramente o percebe? A ciência explica que isso não é uma falha ocular, mas sim uma sofisticada estratégia de sobrevivência do cérebro humano

De acordo com Michael Webster, cientista da visão da Universidade de Nevada, nós tecnicamente “vemos” o nariz o tempo todo. No entanto, o cérebro filtra essa informação através de um processo chamado adaptação sensorial. Como o nariz é uma característica imutável e constante, o sistema nervoso decide que processar essa imagem seria um desperdício de energia.

A Visão como uma Previsão, não uma Câmera

Ao contrário de uma câmera fotográfica, que registra cada detalhe de uma cena, o cérebro humano funciona como um artista que constrói um modelo útil da realidade.

  • Economia de Recursos: O cérebro foca em “surpresas” e mudanças no ambiente (como um predador se movendo ou um obstáculo no caminho) em vez de focar no que já é conhecido e seguro.

  • Filtro Biológico: Se tivéssemos consciência constante de tudo o que está em nosso campo de visão — como os vasos sanguíneos dentro dos nossos próprios olhos — ficaríamos sobrecarregados.

Truques da Mente: Pontos Cegos e Vasos Sanguíneos

O nariz não é a única coisa que o cérebro esconde de você para facilitar a sua vida:

  1. O Ponto Cego: Existe um local em cada olho onde o nervo óptico se conecta à retina. Ali, não há fotorreceptores. Em vez de você enxergar um “buraco” preto no mundo, o seu cérebro preenche o espaço com base no que está ao redor (por exemplo, se você olha para uma parede branca, ele assume que o ponto cego também é branco).

  2. Vasos Sanguíneos Oculares: Temos vasos sanguíneos na frente dos nossos fotorreceptores. Nós “olhamos através de galhos”, mas o cérebro cancela essas sombras. Você só as percebe durante exames oftalmológicos, quando uma luz em um ângulo diferente projeta sombras incomuns.

Como voltar a “ver” seu nariz agora mesmo?

Embora o cérebro tente ignorá-lo, você pode forçar a percepção consciente:

  • Feche um olho.

  • Foque em um ponto distante à sua frente.

  • Observe o borrão carnudo no canto inferior da sua visão.

  • Curiosidade: Agora que você leu este texto, provavelmente ficará “hiperconsciente” do seu nariz pelos próximos minutos até que seu cérebro decida arquivar essa informação novamente.

Resumo: Realidade vs. Modelo Útil

Recurso Visual O que o Cérebro faz Por que ele faz isso
Nariz Ignora / Apaga Evitar distração constante no centro da visão.
Ponto Cego Preenche com texturas Evitar a percepção de lacunas na visão periférica.
Vasos do Olho Cancela as sombras Garantir uma imagem limpa do mundo exterior.

“O modelo que vemos não nos diz necessariamente qual é a realidade do mundo, mas sim a informação que precisamos para sobreviver.” — Michael Webster.


Com informações: Live Science

 

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Ciência

“Esponja biológica”: Cientistas usam células-tronco para absorver a dor da artrite

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Tratamento experimental SN101, testado em camundongos, utiliza neurônios sensoriais modificados para sequestrar sinais inflamatórios e até promover o reparo de cartilagens

Uma inovação biotecnológica pode representar o fim da dependência de opioides para pacientes com dor crônica. Pesquisadores da Escola de Medicina Johns Hopkins, liderados pelo Dr. Gabsang Lee, desenvolveram a terapia SN101, uma técnica que utiliza células-tronco pluripotentes humanas (hPSC) para criar neurônios “iscas”. O estudo, publicado em dezembro de 2025 no servidor bioRxiv, demonstra que esses neurônios, quando injetados em articulações com osteoartrite, funcionam como uma esponja, absorvendo gatilhos de dor e inflamação antes que cheguem ao cérebro.

Diferente dos tratamentos convencionais para doenças neurodegenerativas, que tentam substituir neurônios mortos, o SN101 introduz novos neurônios que coexistem com os originais. Eles agem como um escudo biológico, ligando-se a fatores inflamatórios no local da lesão. Surpreendentemente, além de aliviar a dor, o experimento mostrou que os neurônios modificados ajudaram no reparo ósseo e da cartilagem nos camundongos testados.

Como funciona a terapia SN101

A lógica por trás da “esponja para dor” é atacar a causa na origem, em vez de apenas bloquear a percepção no sistema nervoso central:

  • Ação Localizada: Neurônios derivados de células-tronco são injetados diretamente na articulação (como o joelho).

  • Sequestro de Sinais: Eles possuem receptores naturais que “capturam” as citocinas inflamatórias, impedindo que elas estimulem os neurônios sensoriais do próprio corpo.

  • Vantagem sobre Opioides: Enquanto os opioides atuam no cérebro e geram riscos de dependência e náuseas, o SN101 atua apenas onde a dor é gerada, com potencial de longa duração.

Desafios e Próximos Passos em 2026

Apesar dos resultados promissores, a comunidade científica mantém a cautela. Chuan-Ju Liu, professor da Universidade de Yale, destaca que a pesquisa ainda está em fase pré-clínica.

Desafio Detalhes
Diferença Biológica As articulações humanas são maiores, mais complexas e sofrem estresse mecânico por décadas, diferente dos camundongos.
Resposta Imune É preciso garantir que o corpo humano não rejeite os neurônios injetados (imunogenicidade).
Durabilidade Estudos de longo prazo são necessários para saber quanto tempo os neurônios injetados permanecem ativos e funcionais.
Toxicologia Testes formais de segurança devem preceder os primeiros ensaios clínicos com humanos.


Com informações: Live Science e bioRxiv

 

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