Empresa de biotecnologia que disse ter “ressuscitado” três lobos-terríveis (depois, voltou atrás) mostra como estão os animais atualmente
No início de abril, uma empresa norte-americana de biotecnologia e engenharia genética chamada Colossal Biosciences anunciou que havia conseguido trazer de volta à vida o lobo-terrível (Aenocyon dirus), espécie extinta há 10 mil anos.
A revelação foi recebida com ceticismo pela comunidade científica, e, algumas semanas depois, a cientista-chefe da Colossal, Beth Shapiro, admitiu que os animais gerados são, na verdade, lobos-cinzentos (Canis lupus) com modificações genéticas. Agora, dois dos três polêmicos “bebês” acabam de completar seis meses – e dobrar de tamanho.
Neste vídeo divulgado em abril, Beth Shapiro, cientista-chefe da Colossal Biosciences, explica como o procedimento de “desextinção” é feito.
Vamos relembrar essa história:
O lobo-terrível ou lobo pré-histórico é uma espécie extinta de canídeo nativa das Américas que viveu entre 125 mil e 10 mil anos atrás;
Em abril de 2025, a Colossal Biosciences afirmou ter “restaurado” o animal por meio da “ciência da desextinção”;
Em um comunicado, o feito foi descrito como o “retorno do lobo-terrível ao ecossistema” milênios após seu desaparecimento;
Diante da polêmica gerada em torno do assunto, o discurso da empresa mudou;
A alegação foi que o uso do termo “lobo-terrível” foi “coloquial”.
Dissemos isso desde o início. Chamaram os animais de ‘lobos-terríveis’ de forma coloquial, e isso irritou as pessoas. Mantemos nossa decisão de nos referirmos a Romulus, Remus e Khaleesi, de forma coloquial, como lobos-terríveis.
Beth Shapiro, cientista-chefe da Colossal Biosciences
Veja como estão os ‘lobos-terríveis’ feitos em laboratório atualmente
A Colossal divulgou um novo vídeo mostrando o crescimento dos irmãos Romulus e Remus. Eles já pesam cerca de 40,8 kg – 20% a mais que um lobo-cinzento comum. De acordo com Matt James, Diretor de Animais da empresa, os genes do lobo-terrível estão influenciando as características físicas dos filhotes, que ficaram maiores e mais robustos que o habitual.
Para ele, isso comprova o sucesso das modificações genéticas. “Podemos realmente dizer que os genes do lobo pré-histórico estão se manifestando, e estamos obtendo esses lobos grandes e bonitos que são muito mais representativos do que vimos nos espécimes antigos”.
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Atualização divulgada pela Colossal Biosciences este mês mostra como estão os lobo “nem tão” terríveis hoje.
A fêmea Khaleesi, que nasceu três meses depois, é menor e pesa 15,9 kg. No entanto, segundo James, também apresenta porte maior do que o esperado para lobos-cinzentos da mesma idade. A expectativa é que ela se junte à matilha no futuro, passando a conviver com Romulus e Remus.
Quando foram apresentados ao público, muitos especialistas criticaram a forma como a Colossal divulgou o projeto. A empresa disse ter “ressuscitado” o lobo-terrível, mas, na prática, os filhotes são lobos-cinzentos com 20 modificações em 14 genes, o que faz com que se pareçam mais com o animal extinto.
Os “lobos-terríveis” de laboratório Romulus e Remus aos seis meses de idade. Crédito: Colossal Biosciences
Segundo o professor Nic Rawlence, especialista em paleogenética da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, não é possível desextinguir de fato uma espécie já inexistente na natureza. “Para realmente desextinguir algo, seria preciso cloná-lo. O problema é que não podemos clonar animais extintos porque o DNA não está bem preservado”, explicou o cientista em entrevista ao Centro de Mídia Científica da Nova Zelândia.
O DNA de animais antigos se degrada com o tempo, tornando impossível cloná-los com precisão. Por isso, o que a Colossal fez foi apenas criar um animal semelhante, mas não idêntico ao original.
Khaleesi, a mais nova dos três “lobos-terríveis” criados pela Colossal, recebeu esse nome em homenagem à personagem Daenerys Targaryen da série Game of Thrones, na qual lobos-terríveis são mascotes da Casa Stark. Crédito: Colossal Biosciences
Tecnologia utilizada tem impacto positivo, apesar das críticas
Apesar das críticas, a tecnologia usada nesses filhotes pode ter um impacto positivo em outras áreas. A empresa aplica os mesmos métodos em projetos de preservação de espécies ameaçadas. Um exemplo é o lobo-vermelho (Canis rufus), nativo do sudeste dos EUA, que corre sério risco de desaparecer – restam apenas cerca de 20 exemplares na natureza.
A Colossal conseguiu clonar quatro filhotes de lobo-vermelho a partir de linhagens fundadoras, usando uma técnica não invasiva. Diferentemente dos “lobos-terríveis”, esses filhotes são 100% geneticamente lobo-vermelho. Isso aumentou a diversidade genética da espécie em 25%, ajudando na sua recuperação e fortalecendo o grupo remanescente.
Outro projeto ambicioso da empresa acontece na África. Apenas duas fêmeas do rinoceronte-branco-do-norte ainda existem, ambas no Quênia. A Colossal pretende usar uma fêmea de rinoceronte-branco-do-sul como barriga de aluguel para embriões criados a partir de células preservadas do último macho da espécie. É uma tentativa complexa, mas que pode salvar o Ceratotherium simum da extinção total.
Só restam dois rinocerontes-brancos-do-norte (Ceratotherium simum) no mundo, ambos fêmeas: Najin (na imagem) e Fatu, mãe e filha, que residem no Quênia, sob intensa proteção 24 horas por dia. Crédito: Kelsey Neukum – Shutterstock
Ainda assim, há muitas questões éticas sobre esse tipo de tecnologia. A principal é até que ponto se pode ou se deve “brincar de Deus” ao recriar animais extintos. Há também debates sobre o uso de termos exagerados, como “desextinção”, que podem confundir o público.
No caso dos “lobos-terríveis”, a verdade é que eles não são os mesmos que viveram há milênios. Mas representam o máximo que a ciência conseguiu até agora em termos de aproximação genética. E, mais importante: podem ajudar a salvar espécies reais, que ainda têm chance de continuar vivas no planeta.
Reintrodução no Parque Nacional da Tijuca marca o retorno da espécie, cujo último registro no estado era de 1818; projeto do Refauna prevê a soltura de 50 aves nos próximos cinco anos
O céu do Rio de Janeiro ganhou um colorido que não era visto há mais de dois séculos. No início de janeiro de 2026, três fêmeas de arara-canindé (Ara ararauna) foram soltas no Parque Nacional da Tijuca, marcando o retorno oficial da espécie ao estado fluminense. O último registro histórico dessas aves em solo carioca datava de 1818, período em que foram extintas localmente devido à caça e à destruição da Mata Atlântica.
A iniciativa é liderada pelo projeto Refauna, com apoio do ICMBio, e representa um marco para a biodiversidade da região. As aves — batizadas de Fernanda, Fátima e Sueli — passaram por um rigoroso processo de aclimatação desde junho de 2025, onde recuperaram musculatura de voo e aprenderam a identificar alimentos naturais da floresta.
O caminho para o repovoamento
O projeto é ambicioso e focado na sustentabilidade da população a longo prazo. Além das três fêmeas já soltas, um macho chamado Selton permanece no recinto de aclimatação aguardando novos companheiros. A meta dos pesquisadores é reintroduzir até 50 indivíduos ao longo de cinco anos.
Para garantir que as araras fiquem seguras, a equipe do Refauna utiliza tecnologia de ponta:
Identificação: As aves possuem anilhas, microchips e colares coloridos.
Monitoramento Participativo: A sociedade é incentivada a relatar avistamentos pelo WhatsApp do projeto (21 96974-4752) ou pelo aplicativo SISS-Geo, da Fiocruz.
Um desafio sanitário e ecológico
A bióloga Lara Renzeti, coordenadora do projeto, explica que o planejamento começou ainda em 2018. Um dos maiores desafios foi a questão sanitária, garantindo que as aves (vindas de São Paulo) não trouxessem doenças para a fauna local e estivessem saudáveis para enfrentar a vida livre.
O retorno das araras não é apenas estético; elas cumprem um papel fundamental como dispersoras de sementes, ajudando na regeneração natural da floresta. “Desejamos que os moradores e visitantes tenham a oportunidade de avistar essas aves colorindo o céu, mas isso precisa da colaboração de todos, cuidando e valorizando os animais livres”, afirma Lara.
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Como ajudar?
Se você visitar o Rio de Janeiro ou morar próximo ao Parque da Tijuca, fique atento às copas das árvores. Caso aviste uma das araras:
Não alimente: Elas precisam manter o hábito de buscar comida na natureza.
Não tente capturar: Elas são monitoradas e protegidas por lei.
Fotografe e informe: Envie a localização e fotos para o Instagram do @refauna.
Cidade no sul de Minas Gerais alcança excelência na gestão de resíduos sólidos com coleta seletiva porta a porta e fortalecimento de cooperativas.
A pequena cidade de Extrema, localizada no sul de Minas Gerais, consolidou-se em 2026 como um dos principais modelos de sucesso na aplicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos no Brasil. Enquanto grandes metrópoles ainda enfrentam dificuldades para implementar sistemas eficientes de descarte, Extrema demonstra que a integração entre gestão pública, parcerias com cooperativas e engajamento da população é a chave para transformar o que seria lixo em ativos econômicos e bem-estar social.
De acordo com dados da Prefeitura de Extrema, o município opera um sistema de coleta seletiva porta a porta que cobre virtualmente 100% da área urbana. Esse modelo garante que o material reciclável chegue às centrais de triagem com alto índice de pureza, facilitando o trabalho das cooperativas de catadores e aumentando o valor de mercado dos resíduos. O Ministério do Meio Ambiente cita a cidade como um exemplo de “Gestão Integrada”, onde a sustentabilidade ambiental caminha lado a lado com a geração de renda local.
O impacto positivo dessa estrutura reflete diretamente na saúde pública e na qualidade de vida dos moradores. Ao reduzir o volume de resíduos destinados a aterros sanitários, a cidade diminui a proliferação de vetores de doenças e a contaminação de lençóis freáticos. Além disso, a organização urbana resultante de ruas mais limpas e um sistema de coleta previsível eleva o índice de satisfação da comunidade e fortalece a economia circular na região.
Para que um modelo como o de Extrema funcione, quatro pilares estratégicos são fundamentais:
Logística Organizada: Coleta seletiva com horários e rotas rigorosamente cumpridos.
Valorização Humana: Parcerias sólidas que garantem dignidade e renda para os catadores.
Educação Ambiental: Programas contínuos nas escolas que transformam os alunos em multiplicadores do hábito de separar o lixo.
Transparência de Dados: Uso de indicadores para monitorar o volume reciclado e o impacto econômico gerado.
A isonomia no atendimento garante que todos os bairros, do centro às periferias, tenham acesso ao mesmo padrão de serviço. Essa universalização do acesso à reciclagem é o que permitiu a Extrema atingir patamares de reaproveitamento muito superiores à média nacional. A longo prazo, esse modelo reduz drasticamente os custos públicos com a gestão de aterros, que possuem sua vida útil prolongada, permitindo que os recursos economizados sejam reinvestidos em outras áreas, como saúde e educação.
O sucesso de Extrema serve como um guia prático para outras cidades brasileiras que buscam o selo de “Cidade Consciente”. O exemplo mineiro prova que a reciclagem deixa de ser uma obrigação burocrática para se tornar parte da cultura local quando o cidadão percebe que o seu esforço individual em separar uma embalagem se traduz em uma cidade mais rica e saudável.
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Em um cenário global onde a crise climática e o esgotamento de recursos naturais exigem ações imediatas, Extrema mostra que a solução muitas vezes começa com atitudes simples dentro de casa. Quando a ciência da gestão pública encontra o engajamento social, o “lixo” deixa de ser um problema para se tornar uma oportunidade de futuro.
Logística complexa e navegação de longo curso marcam a jornada para conhecer o santuário de biodiversidade no litoral sul da Bahia.
Visitar o Parque Nacional Marinho de Abrolhos (PNMA) é uma experiência de imersão que começa muito antes do primeiro mergulho. Considerado o berço das baleias-jubarte e detentor da maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul, o arquipélago exige do viajante resiliência e planejamento estratégico. Localizado a cerca de 70 quilômetros da costa de Caravelas, no sul da Bahia, o acesso ao parque ainda é um dos maiores gargalos para o turismo ecológico no país, envolvendo deslocamentos terrestres exaustivos e janelas meteorológicas estreitas.
Atualmente, as embarcações autorizadas pelo ICMBio partem exclusivamente do cais de Caravelas. Para quem chega de outros estados, o desafio logístico é nítido: os aeroportos de Porto Seguro (BA) e Vitória (ES) ficam a centenas de quilômetros de distância, exigindo horas de estrada antes mesmo de enfrentar as quatro horas de navegação em mar aberto. Contudo, para aqueles que persistem, a recompensa surge na forma de águas cristalinas, recifes de corais exclusivos e uma fauna que parece ignorar a presença humana, tamanha a preservação do local.
Fundado em 1983, o PNMA foi pioneiro no Brasil ao estabelecer uma unidade de conservação estritamente marinha. Com mais de 91 mil hectares, o parque protege ecossistemas únicos, como os “chapeirões” — formações coralíneas em formato de cogumelo que podem atingir até 20 metros de altura e que não existem em nenhum outro lugar do planeta. A área sob proteção abrange desde o Recife de Timbebas até o Parcel dos Abrolhos e as ilhas que compõem o arquipélago, sendo um refúgio vital para mais de 1.300 espécies registradas.
A preservação de Abrolhos é garantida por um mosaico de Unidades de Conservação (UCs) que cercam a região, incluindo as Reservas Extrativistas de Cassurubá e Corumbau, e parques nacionais terrestres como o do Descobrimento e o do Monte Pascoal. Esse conjunto de áreas protegidas é essencial para a manutenção da isonomia ambiental, garantindo que a vida marinha tenha corredores seguros para reprodução e alimentação, protegidos da pesca predatória e do tráfego marítimo desordenado.
Além da biodiversidade, o arquipélago carrega uma importância geopolítica e científica estratégica. A Ilha de Santa Bárbara, embora sob jurisdição da Marinha do Brasil, abriga o farol que orienta a navegação na costa baiana e serve como base para pesquisas meteorológicas e monitoramento ambiental. O contato humanizado com a natureza em Abrolhos, através do mergulho autônomo e da observação de aves como atobás e fragatas, reforça a urgência de políticas públicas que facilitem o acesso consciente a este patrimônio nacional.
Apesar das “desventuras” logísticas relatadas por visitantes — que incluem desde cancelamentos de voos até condições adversas de vento —, o consenso entre mergulhadores e biólogos é o mesmo: vale a pena. O pôr do sol sobre as formações rochosas e a visão das baleias-jubarte (que visitam a região entre julho e novembro) são cenas que definem a relevância social e ambiental do parque. Abrolhos não é apenas um destino de lazer, mas um laboratório vivo da resiliência do ecossistema marinho brasileiro.
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O futuro do parque depende do equilíbrio entre a exploração turística sustentável e o rigor na fiscalização. Como primeiro parque marinho do país, Abrolhos ainda é desconhecido por grande parte da população brasileira, o que ressalta a importância de iniciativas de divulgação científica e educação ambiental. Conhecer este santuário é entender a complexidade da vida oceânica e a necessidade de proteger as riquezas que o Brasil guarda abaixo da linha do horizonte.
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07/07/2025 em 09:20
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