Nas eleições realizadas no domingo (20/07/2025), a coalizão governista do primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba sofreu um revés histórico ao perder a maioria no Senado do Japão , uma casa legislativa que até então garantia ao Partido Liberal Democrático (PLD) e seus aliados um papel dominante na condução das políticas nacionais. Segundo projeções da NHK e outros veículos japoneses, o PLD e seu parceiro Komeito conquistaram 41 dos 125 assentos em disputa , número abaixo dos 50 necessários para manter a maioria absoluta.
Contexto da derrota
A perda da maioria no Senado é um reflexo da insatisfação da população japonesa , especialmente com:
- Inflação elevada : o índice de preços ao consumidor foi de +3,3% em junho , com destaque para o aumento nos preços do arroz , que dobraram em um ano .
- Estagnação salarial : apesar da alta dos preços, os salários reais não acompanham a inflação , deixando famílias com menos poder de compra.
- Pressão internacional : os Estados Unidos, sob o governo Donald Trump , ameaçam impor tarifas de 25% sobre produtos japoneses , agravando a instabilidade econômica.
“Os preços básicos estão subindo, mas o que mais me preocupa é que os salários não aumentam”, afirmou Atsushi Matsuura, 54 anos , em Tóquio. Hisayo Kojima, 65 anos , reclamou da redução no valor real de sua aposentadoria: “Pagamos muito para sustentar o sistema previdenciário. Este é o problema mais urgente.”
Extrema direita ganha espaço com discurso anti-imigração
Em meio ao desgaste da coalizão governista, o Sanseito , partido de extrema direita e anti-imigração , obteve entre 10 e 22 cadeiras , um salto significativo em relação ao seu desempenho anterior, quando possuía apenas duas no Senado .
O partido, fundado durante a pandemia e com forte presença nas redes sociais , conseguiu atrair eleitores descontentes com o PLD e com a política globalista do governo . Seu slogan “Japão Primeiro” ressoou entre os que rejeitam políticas de abertura migratória e mudanças ligadas a gênero e meio ambiente.
“O PLD abriga correntes que vão da extrema direita ao centro-esquerda. O Sanseito ocupa o espaço deixado por Shinzo Abe . Com a sua morte, muitos conservadores nacionalistas passaram a apoiar o Sanseito”, explicou Valérie Niquet , pesquisadora da Fundação para a Pesquisa Estratégica , em entrevista à RFI .
O partido defende:
- Restrições mais rígidas à imigração
- Crítica ao globalismo
- Oposição a políticas de gênero consideradas radicais
- Revisão de estratégias de vacinação e descarbonização
O Sanseito também negou qualquer ligação com a Rússia , após críticas de que suas posições seriam pró-Moscou.
Governo Ishiba em minoria: situação inédita desde 1945
Com a perda da maioria no Senado, o governo de Shigeru Ishiba , de 68 anos, passa a governar com apoio minoritário nas duas casas do Parlamento — algo sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial , segundo o professor Toru Yoshida , da Universidade Doshisha .
A posição frágil do primeiro-ministro pode colocar fim ao seu mandato, especialmente diante da falta de apoio estável no Congresso e da insatisfação popular com a gestão da economia e das políticas sociais.
O PLD , que governa o Japão quase ininterruptamente desde 1955 , enfrenta críticas crescentes, agravadas por escândalos de corrupção e pela percepção de elitismo e descolamento com os problemas da população.
Futuro incerto e possíveis mudanças
A nova composição do Senado pode dificultar a aprovação de reformas econômicas e políticas externas do governo Ishiba, especialmente em relação a:
- Relações com os Estados Unidos
- Políticas fiscais e ajustes no sistema previdenciário
- Abertura ao mercado de trabalho para imigrantes , tema sensível diante do envelhecimento populacional e da redução da força de trabalho no Japão
A entrada de novos partidos e a ascensão da extrema direita indicam uma mudança de clima no país, com maior nacionalismo, protecionismo e crítica às políticas multilaterais .
Com informações: RFI, NHK, Agência Brasil
Fonte: Agência Brasil