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O “Modelo Kerala”: Como o cooperativismo e o socialismo transformaram um estado indiano

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Com 16 mil cooperativas e a erradicação da pobreza extrema em 2025, o estado de Kerala torna-se referência global de economia popular e justiça social.


O estado de Kerala, no sul da Índia, tem atraído a atenção de pesquisadores e gestores públicos ao redor do mundo por apresentar um cenário que desafia a lógica tradicional do mercado. Com uma população de 35 milhões de pessoas, o estado conseguiu integrar princípios socialistas à vida cotidiana através de um robusto movimento cooperativo. Recentemente, um estudo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social detalhou como essas instituições deixaram de ser nichos pequenos para se tornarem pilares da economia regional.

O sucesso desse modelo culminou em um marco histórico: em novembro de 2025, Kerala foi oficialmente declarado o único estado da Índia a erradicar a extrema pobreza. O feito coloca a região em um grupo seleto de territórios que conseguiram derrotar a miséria através da descentralização do poder e da valorização da classe trabalhadora.

Kudumbashree: A força de 5 milhões de mulheres

O maior símbolo da transformação social em Kerala é a cooperativa Kudumbashree (“prosperidade da família”). Lançada em 1998, a rede cresceu de forma astronômica e hoje conta com 4,8 milhões de integrantes, todas mulheres. Isso significa que cerca de uma em cada três mulheres adultas do estado faz parte da organização.

A atuação da Kudumbashree é onipresente:

  • Agricultura Coletiva: Mais de 430 mil mulheres cultivam arroz, vegetais e bananas em cerca de 21 mil hectares.

  • Gastronomia Popular: A rede administra mais de 1.100 restaurantes que oferecem refeições a preços subsidiados pelo governo de esquerda.

  • Microempresas: São mais de 157 mil unidades produzindo desde vestuário e absorventes higiênicos até lâmpadas LED e eletrônicos.

Infraestrutura e Bancos Populares

Além da produção de bens de consumo, Kerala demonstrou que o cooperativismo pode atuar em setores de alta complexidade. A Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho Uralungal (ULCCS) é um exemplo de excelência técnica. Composta por 18 mil trabalhadores, incluindo mil engenheiros, a cooperativa concorre em pé de igualdade com gigantes privadas em licitações de infraestrutura.

Em 2023, a ULCCS registrou uma receita de 300 milhões de dólares, sendo responsável pela construção de estradas, pontes e sistemas de software sofisticados. Da mesma forma, os Bancos Cooperativos, como o de Thankamany, garantem que pequenos agricultores tenham acesso a crédito e suporte logístico para processar produtos como o chá, protegendo-os das flutuações agressivas do mercado financeiro global.

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Histórico Político e Descentralização

A base para esse florescimento cooperativo foi pavimentada por décadas de governos de esquerda, liderados pelo Partido Comunista da Índia (Marxista). Desde 1957, agendas de reforma agrária, investimento massivo em educação pública e saúde, e o incentivo à organização sindical criaram o ambiente necessário para o “socialismo possível”.

Período Foco da Agenda em Kerala
Pós-1957 Destruição de hierarquias de castas e reforma agrária inicial.
Década de 90 Lançamento da Campanha de Descentralização do Poder (Planos Populares).
2016 – Presente Expansão do modelo cooperativo e digitalização da economia popular.
Nov. 2025 Declaração oficial de erradicação da extrema pobreza.

Um farol de inspiração global

Embora existam desafios e contradições inerentes à operação de uma lógica solidária dentro de um sistema capitalista global, a experiência de Kerala funciona como uma “incubadora de alternativas”. O modelo prova que, quando a infraestrutura e o capital são controlados pelos próprios trabalhadores, é possível gerar riqueza sem concentrá-la, garantindo dignidade para a maioria da população.


Com informações: Diplomatique

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China encerra 2025 com superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão e crescimento de 5%

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Apesar das sanções impostas pelos Estados Unidos, a economia chinesa demonstra resiliência com foco em tecnologias verdes e expansão de mercados no Sul Global

A China concluiu o ano de 2025 consolidando sua posição como potência econômica resiliente, atingindo um superávit comercial histórico de US$ 1,2 trilhão. De acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas (NBS), o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu aproximadamente 5%, cumprindo a meta oficial estabelecida pelo governo. O resultado foi impulsionado pela rápida transição para setores de alta tecnologia, como veículos elétricos e energia limpa, que compensaram a desaceleração no mercado imobiliário e as barreiras comerciais impostas por Washington. Com exportações totais de US$ 3,77 trilhões, o país diversificou seus parceiros, ampliando a presença no Sudeste Asiático, África e América Latina.

O desempenho econômico reflete o encerramento bem-sucedido do 14º Plano Quinquenal (2021-2025). O modelo, coordenado pelo Partido Comunista Chinês (PCC), conseguiu manter a taxa de desemprego urbano estável em torno de 5% e promover um avanço de 6% na produção industrial. Além disso, o consumo interno mostrou vigor, com as vendas no varejo crescendo 4%, sustentadas por políticas de preservação de renda e fomento ao comércio eletrônico. Para o Brasil, a estabilidade chinesa garante a continuidade da demanda por commodities essenciais e abre novas frentes de cooperação tecnológica e energética.

Pilares do crescimento chinês em 2025

A estratégia de Pequim focou na autonomia tecnológica e na estabilidade social:

  • Indústria de Ponta: O crescimento de 6% foi liderado por manufatura avançada, baterias de lítio e tecnologias de descarbonização.

  • Diversificação Comercial: A queda nas vendas para os EUA foi superada pelo aumento das exportações para a Europa e países do Sul Global.

  • Segurança Social: O governo priorizou o apoio a pequenas e médias empresas, mantendo o desemprego sob controle e incentivando o turismo interno.

  • Planejamento Estatal: O cumprimento das metas do Plano Quinquenal reforçou a eficiência do modelo de “socialismo com características chinesas”.

Impactos para o Brasil e América Latina

O vigor da economia chinesa fortalece a parceria estratégica com os países latino-americanos:

Setor Beneficiado Impacto no Brasil
Commodities Manutenção da demanda recorde por soja, minério de ferro e petróleo.
Investimentos Previsibilidade para aportes em infraestrutura logística e energia renovável.
Tecnologia Oportunidades de cooperação em digitalização industrial e inovação verde.
Comércio Sul-Sul Consolidação da China como um parceiro confiável em oposição à volatilidade do Norte Global.

Com informações: Brasil de Fato e TV Brics

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O olhar de Sauron: a Palantir Technologies e a arquitetura da vigilância global

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Análise de Isabela Rocha traça paralelo entre os orbes mágicos de Tolkien e a empresa de Peter Thiel, revelando como o software reconfigura a soberania e a guerra

Em um ensaio profundo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, a cientista política Isabela Rocha utiliza a obra O Senhor dos Anéis como lente para examinar a ascensão da Palantir Technologies. No universo de J.R.R. Tolkien, as Palantír são pedras videntes que, embora não mintam, oferecem uma visão seletiva e perigosa, servindo a um único senhor: Sauron. Na realidade contemporânea, a empresa homônima, fundada por Peter Thiel — que despreza abertamente a deliberação democrática —, tornou-se o pilar técnico do complexo tecnológico-militar ocidental, integrando volumes massivos de dados para governos e agências de inteligência.

O texto destaca a presença da Palantir em cenários críticos: em Gaza, fornecendo infraestrutura para vigilância em larga escala e decisões militares em tempo real; nos EUA, auxiliando o ICE na priorização de deportações através da plataforma ImmigrationOS; e na OTAN, com o sistema de IA Maven Smart System. Rocha argumenta que o smartphone em nossos bolsos funciona como uma Palantir moderna: um objeto aparentemente neutro que nos permite ver o mundo, mas que observa, classifica e prevê nossos comportamentos enquanto o consultamos, alimentando uma lógica de governo algorítmico onde a política é substituída pelo cálculo de probabilidade.

A Palantir como instrumento de poder e controle

O simbolismo da empresa reflete sua inserção nos processos decisórios mais sensíveis do sistema internacional:

  • Visão Totalizante: Capacidade de integrar bases de dados dispersas e opacas para oferecer uma “verdade” operacional a soberanos e generais.

  • Perfilamento Político: Transformação da existência humana em hipóteses estatísticas, definindo quem é priorizado, vigiado ou bloqueado.

  • Gestão de Probabilidade: Substituição do consenso democrático por arquiteturas técnicas que ajustam o comportamento social via exposição algorítmica.

  • A Guerra como Dashboard: Transformação de conflitos e vidas humanas em variáveis ajustáveis dentro de fluxos de dados administráveis.

A infraestrutura do domínio Meta-Trumpista

Para a autora, a Palantir representa a evolução da geopolítica, onde o poder não reside mais apenas no território físico, mas na capacidade de organizar a realidade de forma legível e acionável à distância. O software atua como o arquiteto do poder invisível, mediando a forma como os Estados administram populações e fronteiras. Isabela Rocha conclui que tocar essa “pedra vidente” tecnológica não exige fidelidade, apenas dados. O uso contínuo fortalece um modelo que subordina a soberania humana à lógica de um sistema que enxerga mais longe e decide antes, operando sob a luz fria e violenta do cálculo.


Com informações: Diplomatique

 

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OMS alerta que 18.500 palestinos em Gaza precisam de transferência médica urgente

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Diretor-geral da organização destaca que cerca de 4 mil crianças aguardam remoção para tratar ferimentos graves e doenças como o câncer

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, fez um apelo internacional nesta segunda-feira (12) pela evacuação médica de 18.500 palestinos da Faixa de Gaza. Segundo o dirigente, essas pessoas necessitam de atendimento especializado que não pode mais ser oferecido no enclave devido à destruição da infraestrutura de saúde. Entre os casos mais críticos estão 4 mil crianças que sofrem com traumas de guerra, câncer e outras patologias severas. Recentemente, a OMS conseguiu viabilizar a transferência de apenas 18 pacientes para a Jordânia, um número ínfimo diante da demanda reprimida.

Desde o início da escalada do conflito em outubro de 2023, aproximadamente 10.700 pessoas foram removidas para tratamento em mais de 30 países. No entanto, o cerco e as restrições impostas por Israel dificultam o fluxo de suprimentos e as evacuações. A situação é agravada pelo rigoroso inverno e por fortes chuvas que inundaram acampamentos improvisados, onde centenas de milhares de famílias deslocadas buscam refúgio em condições precárias. Grupos humanitários alertam que a falta de cobertores, tendas adequadas e a proibição de atuação de agências internacionais como o MSF estão tornando o território inabitável.

Crise humanitária e violações do cessar-fogo

Apesar de um acordo de cessar-fogo assinado em outubro do ano passado, a violência persiste na região:

  • Vítimas Recentes: Pelo menos 425 palestinos morreram em ataques israelenses desde a entrada em vigor do cessar-fogo de outubro.

  • Bloqueio de Ajuda: Israel tem limitado a entrada de ajuda humanitária e dificultado a operação de ONGs internacionais em Gaza.

  • Impacto Climático: Tempestades de inverno e inundações castigam refugiados que vivem em tendas sem isolamento térmico.

  • Déficit Médico: A OMS insiste que mais nações abram suas fronteiras para receber pacientes e que as transferências para a Cisjordânia sejam retomadas imediatamente.

O colapso do sistema de saúde

A infraestrutura hospitalar de Gaza está operando muito além de sua capacidade, com escassez de medicamentos básicos e energia. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e outros observadores internacionais classificam os ataques contínuos a áreas de deslocados como crimes de guerra, argumentando que as ações visam desestruturar permanentemente a vida no território. Para a OMS, a transferência dos 18.500 pacientes não é apenas uma questão médica, mas um imperativo humanitário para evitar que milhares de mortes evitáveis ocorram nas próximas semanas em meio ao frio extremo.


Com informações: teleSur e Brasil de Fato

 

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