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Crise ambiental e escassez de água: O combustível invisível dos protestos no Irã

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O colapso ecológico, marcado pelo esgotamento de aquíferos e rios secos, une-se à raiva econômica e repressão política para inflamar a maior onda de dissidência em anos

As manchetes internacionais sobre o Irã em 2026 focam em desvalorização cambial e confrontos de rua, mas por baixo da superfície política ferve uma calamidade ecológica sem precedentes. Décadas de gestão hídrica falha e corrupção transformaram o país em um barril de pólvora ambiental. O cenário é tão grave que o presidente Masoud Pezeshkian alertou recentemente que os residentes de Teerã — uma metrópole que está literalmente afundando devido à extração excessiva de água subterrânea — podem ter de evacuar a capital no futuro.

A devastação não é exclusividade de Teerã. O Lago Urmia, que já foi o maior lago de água salgada do Oriente Médio, perdeu mais de 90% de seu volume. O icônico Rio Zayandeh, alma da cidade de Isfahan, permanece um leito seco de poeira. Para especialistas como Eric Lob, do Carnegie Middle East Program, as questões ambientais estão hoje intrinsecamente ligadas a todas as outras queixas da população. “Quando a torneira seca e as colheitas morrem, a queixa ambiental torna-se inseparável da sobrevivência econômica”, afirma.

A Geopolítica da Água e a “Máfia das Barragens”

A crise hídrica no Irã não é apenas uma consequência das mudanças climáticas, mas uma ferramenta de controle político que criou “vencedores e perdedores” ambientais:

  • Desvio de Recursos: No Khuzistão, o governo desviou águas do rio Karun para províncias centrais dominadas pela elite persa, devastando a economia local de minorias árabes e inflamando tensões étnicas.

  • A “Máfia da Água”: Desde a revolução de 1979, o regime utilizou grandes projetos de infraestrutura para consolidar poder. Organizações ligadas às forças armadas lucraram com a construção de centenas de barragens que, segundo cientistas, foram desastrosas para o ciclo natural da água.

  • Racionamento e Saúde: Milhares de iranianos morrem prematuramente todos os anos devido à poluição extrema do ar e da água. O racionamento de energia e água forçou o fechamento de empresas, aumentando o desemprego e a pobreza.

O Custo da Dissidência em 2026

Os protestos que eclodiram em dezembro são os maiores desde o movimento de 2022. A resposta do governo tem sido o isolamento digital, com o corte total do acesso à internet, e uma repressão violenta. Grupos de direitos humanos estimam que milhares de manifestantes foram detidos, enfrentando o risco de execuções públicas — uma tática histórica do regime para silenciar a oposição.

Ativistas estudantis reforçam que crises de pobreza, desigualdade de gênero e opressão de classe são produtos diretos de um sistema que negligenciou o meio ambiente em favor do lucro imediato de elites políticas. No Sistão e Baluchistão, cartazes com os dizeres “O Sistão tem sede de água, o Sistão tem sede de atenção” resumem o sentimento de uma nação que vê seus recursos naturais desaparecerem enquanto a repressão aumenta.

Fatos Críticos da Calamidade Ecológica

  • Lago Urmia: Reduzido a menos de 10% de sua capacidade original.

  • Teerã: Sofre com a subsidência (afundamento do solo) devido ao colapso dos aquíferos.

  • Mortalidade: Milhares de mortes anuais ligadas à poluição e falta de saneamento básico.

  • Impacto Econômico: O setor agrícola está em colapso em várias províncias rurais.


Com informações: Grist / Inside Climate News / Grist

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Geopolítica e Segurança Econômica: O Caso da Groenlândia sob Trump 2.0

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Sob a doutrina “America First”, a Groenlândia deixa de ser apenas uma ilha ártica para se tornar o epicentro de uma disputa por minerais críticos e soberania tecnológica

A Groenlândia, território ancestral inuit conhecido como Kalaallit Nunaat, tornou-se o mais novo laboratório de uma política externa norte-americana que funde segurança nacional com interesses econômicos. O governo de Donald Trump, em sua segunda gestão (2025-2026), reafirmou que o controle da ilha é vital para o projeto “Golden Dome” e para a contenção da influência da Rússia e da China no Ártico. Mais do que uma proposta de compra territorial, o movimento sinaliza que os Estados Unidos estão dispostos a tratar a soberania de aliados como questão subordinada aos seus imperativos de defesa.

Essa mudança estrutural está ancorada na Estratégia de Segurança Nacional (NSS) de 2025, que estabelece a “segurança econômica como segurança nacional”. Retomando tradições hamiltonianas, o documento defende que o país não pode depender de rivais para insumos essenciais. Nesse contexto, a Groenlândia assume um papel central devido às suas vastas reservas de terras raras (como disprósio e neodímio), fundamentais para a indústria de defesa, semicondutores e veículos elétricos — setores hoje dominados pela cadeia de suprimentos chinesa.

Atualmente, a China controla não apenas a mineração, mas as etapas cruciais de refino desses minerais. Para Washington, a presença de capital chinês na Groenlândia não é vista como um investimento comum, mas como um risco estratégico. Através do chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, os EUA têm utilizado instrumentos regulatórios e pressão política para disciplinar aliados e garantir que os recursos da ilha sejam integrados exclusivamente a cadeias produtivas ocidentais.

O controle do capital e a exclusão da “Rota da Seda Polar”

A disputa pelo Ártico não se dá apenas no campo militar, mas através de uma complexa reorganização do investimento estrangeiro. O governo dinamarquês, sob influência da OTAN e de Washington, aprovou o Investment Screening Act em 2021, um mecanismo que permite vetar capitais considerados sensíveis. Na prática, esse filtro serve para barrar a expansão da “Rota da Seda Polar” chinesa, enquanto promove seletivamente empresas de países aliados, como as canadenses e australianas, que operam em sintonia com o Pentágono.

Um exemplo claro dessa politização é o litígio envolvendo o projeto de mineração de Kvanefjeld. Após a proibição da mineração de urânio e a revogação de licenças que envolviam capital chinês, a empresa responsável acionou judicialmente o governo groenlandês, exigindo compensações bilionárias. Esse cenário demonstra que a viabilidade econômica de um projeto na Groenlândia hoje é secundária; o que define a continuidade de uma operação é o seu alinhamento geopolítico com as prioridades dos Estados Unidos.

A conclusão é que a Groenlândia se tornou o caso-limite da nova agenda imperial de segurança econômica. Territórios politicamente constituídos e habitados são reinscritos como “espaços estratégicos apropriáveis”. Ao vincular investimentos a critérios de segurança nacional, os EUA normalizam uma prática onde o Estado organiza o mercado para servir à rivalidade sistêmica. Para os 56 mil habitantes da ilha, a autonomia conquistada frente à Dinamarca enfrenta agora o desafio de não ser esmagada pelas placas tectônicas da geopolítica global.

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Com informações: Diplomatique

 

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China encerra 2025 com superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão e crescimento de 5%

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Apesar das sanções impostas pelos Estados Unidos, a economia chinesa demonstra resiliência com foco em tecnologias verdes e expansão de mercados no Sul Global

A China concluiu o ano de 2025 consolidando sua posição como potência econômica resiliente, atingindo um superávit comercial histórico de US$ 1,2 trilhão. De acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas (NBS), o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu aproximadamente 5%, cumprindo a meta oficial estabelecida pelo governo. O resultado foi impulsionado pela rápida transição para setores de alta tecnologia, como veículos elétricos e energia limpa, que compensaram a desaceleração no mercado imobiliário e as barreiras comerciais impostas por Washington. Com exportações totais de US$ 3,77 trilhões, o país diversificou seus parceiros, ampliando a presença no Sudeste Asiático, África e América Latina.

O desempenho econômico reflete o encerramento bem-sucedido do 14º Plano Quinquenal (2021-2025). O modelo, coordenado pelo Partido Comunista Chinês (PCC), conseguiu manter a taxa de desemprego urbano estável em torno de 5% e promover um avanço de 6% na produção industrial. Além disso, o consumo interno mostrou vigor, com as vendas no varejo crescendo 4%, sustentadas por políticas de preservação de renda e fomento ao comércio eletrônico. Para o Brasil, a estabilidade chinesa garante a continuidade da demanda por commodities essenciais e abre novas frentes de cooperação tecnológica e energética.

Pilares do crescimento chinês em 2025

A estratégia de Pequim focou na autonomia tecnológica e na estabilidade social:

  • Indústria de Ponta: O crescimento de 6% foi liderado por manufatura avançada, baterias de lítio e tecnologias de descarbonização.

  • Diversificação Comercial: A queda nas vendas para os EUA foi superada pelo aumento das exportações para a Europa e países do Sul Global.

  • Segurança Social: O governo priorizou o apoio a pequenas e médias empresas, mantendo o desemprego sob controle e incentivando o turismo interno.

  • Planejamento Estatal: O cumprimento das metas do Plano Quinquenal reforçou a eficiência do modelo de “socialismo com características chinesas”.

Impactos para o Brasil e América Latina

O vigor da economia chinesa fortalece a parceria estratégica com os países latino-americanos:

Setor Beneficiado Impacto no Brasil
Commodities Manutenção da demanda recorde por soja, minério de ferro e petróleo.
Investimentos Previsibilidade para aportes em infraestrutura logística e energia renovável.
Tecnologia Oportunidades de cooperação em digitalização industrial e inovação verde.
Comércio Sul-Sul Consolidação da China como um parceiro confiável em oposição à volatilidade do Norte Global.

Com informações: Brasil de Fato e TV Brics

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O olhar de Sauron: a Palantir Technologies e a arquitetura da vigilância global

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Análise de Isabela Rocha traça paralelo entre os orbes mágicos de Tolkien e a empresa de Peter Thiel, revelando como o software reconfigura a soberania e a guerra

Em um ensaio profundo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, a cientista política Isabela Rocha utiliza a obra O Senhor dos Anéis como lente para examinar a ascensão da Palantir Technologies. No universo de J.R.R. Tolkien, as Palantír são pedras videntes que, embora não mintam, oferecem uma visão seletiva e perigosa, servindo a um único senhor: Sauron. Na realidade contemporânea, a empresa homônima, fundada por Peter Thiel — que despreza abertamente a deliberação democrática —, tornou-se o pilar técnico do complexo tecnológico-militar ocidental, integrando volumes massivos de dados para governos e agências de inteligência.

O texto destaca a presença da Palantir em cenários críticos: em Gaza, fornecendo infraestrutura para vigilância em larga escala e decisões militares em tempo real; nos EUA, auxiliando o ICE na priorização de deportações através da plataforma ImmigrationOS; e na OTAN, com o sistema de IA Maven Smart System. Rocha argumenta que o smartphone em nossos bolsos funciona como uma Palantir moderna: um objeto aparentemente neutro que nos permite ver o mundo, mas que observa, classifica e prevê nossos comportamentos enquanto o consultamos, alimentando uma lógica de governo algorítmico onde a política é substituída pelo cálculo de probabilidade.

A Palantir como instrumento de poder e controle

O simbolismo da empresa reflete sua inserção nos processos decisórios mais sensíveis do sistema internacional:

  • Visão Totalizante: Capacidade de integrar bases de dados dispersas e opacas para oferecer uma “verdade” operacional a soberanos e generais.

  • Perfilamento Político: Transformação da existência humana em hipóteses estatísticas, definindo quem é priorizado, vigiado ou bloqueado.

  • Gestão de Probabilidade: Substituição do consenso democrático por arquiteturas técnicas que ajustam o comportamento social via exposição algorítmica.

  • A Guerra como Dashboard: Transformação de conflitos e vidas humanas em variáveis ajustáveis dentro de fluxos de dados administráveis.

A infraestrutura do domínio Meta-Trumpista

Para a autora, a Palantir representa a evolução da geopolítica, onde o poder não reside mais apenas no território físico, mas na capacidade de organizar a realidade de forma legível e acionável à distância. O software atua como o arquiteto do poder invisível, mediando a forma como os Estados administram populações e fronteiras. Isabela Rocha conclui que tocar essa “pedra vidente” tecnológica não exige fidelidade, apenas dados. O uso contínuo fortalece um modelo que subordina a soberania humana à lógica de um sistema que enxerga mais longe e decide antes, operando sob a luz fria e violenta do cálculo.


Com informações: Diplomatique

 

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