Sob a doutrina “America First”, a Groenlândia deixa de ser apenas uma ilha ártica para se tornar o epicentro de uma disputa por minerais críticos e soberania tecnológica
A Groenlândia, território ancestral inuit conhecido como Kalaallit Nunaat, tornou-se o mais novo laboratório de uma política externa norte-americana que funde segurança nacional com interesses econômicos. O governo de Donald Trump, em sua segunda gestão (2025-2026), reafirmou que o controle da ilha é vital para o projeto “Golden Dome” e para a contenção da influência da Rússia e da China no Ártico. Mais do que uma proposta de compra territorial, o movimento sinaliza que os Estados Unidos estão dispostos a tratar a soberania de aliados como questão subordinada aos seus imperativos de defesa.
Essa mudança estrutural está ancorada na Estratégia de Segurança Nacional (NSS) de 2025, que estabelece a “segurança econômica como segurança nacional”. Retomando tradições hamiltonianas, o documento defende que o país não pode depender de rivais para insumos essenciais. Nesse contexto, a Groenlândia assume um papel central devido às suas vastas reservas de terras raras (como disprósio e neodímio), fundamentais para a indústria de defesa, semicondutores e veículos elétricos — setores hoje dominados pela cadeia de suprimentos chinesa.
Atualmente, a China controla não apenas a mineração, mas as etapas cruciais de refino desses minerais. Para Washington, a presença de capital chinês na Groenlândia não é vista como um investimento comum, mas como um risco estratégico. Através do chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, os EUA têm utilizado instrumentos regulatórios e pressão política para disciplinar aliados e garantir que os recursos da ilha sejam integrados exclusivamente a cadeias produtivas ocidentais.
O controle do capital e a exclusão da “Rota da Seda Polar”
A disputa pelo Ártico não se dá apenas no campo militar, mas através de uma complexa reorganização do investimento estrangeiro. O governo dinamarquês, sob influência da OTAN e de Washington, aprovou o Investment Screening Act em 2021, um mecanismo que permite vetar capitais considerados sensíveis. Na prática, esse filtro serve para barrar a expansão da “Rota da Seda Polar” chinesa, enquanto promove seletivamente empresas de países aliados, como as canadenses e australianas, que operam em sintonia com o Pentágono.
Um exemplo claro dessa politização é o litígio envolvendo o projeto de mineração de Kvanefjeld. Após a proibição da mineração de urânio e a revogação de licenças que envolviam capital chinês, a empresa responsável acionou judicialmente o governo groenlandês, exigindo compensações bilionárias. Esse cenário demonstra que a viabilidade econômica de um projeto na Groenlândia hoje é secundária; o que define a continuidade de uma operação é o seu alinhamento geopolítico com as prioridades dos Estados Unidos.
A conclusão é que a Groenlândia se tornou o caso-limite da nova agenda imperial de segurança econômica. Territórios politicamente constituídos e habitados são reinscritos como “espaços estratégicos apropriáveis”. Ao vincular investimentos a critérios de segurança nacional, os EUA normalizam uma prática onde o Estado organiza o mercado para servir à rivalidade sistêmica. Para os 56 mil habitantes da ilha, a autonomia conquistada frente à Dinamarca enfrenta agora o desafio de não ser esmagada pelas placas tectônicas da geopolítica global.
Com informações: Diplomatique