Pesquisadores do Hospital Moinhos de Vento analisaram relatos de quase 900 jovens e apontam que os manuais de diagnóstico atuais capturam apenas uma fração da realidade vivida pelos adolescentes
A depressão na adolescência é um quadro muito mais complexo do que a simples tristeza profunda. Um estudo inédito conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento, divulgado em 20 de janeiro de 2026, revela que sentimentos de isolamento social, solidão e raiva são pilares centrais da experiência dos jovens, embora muitas vezes sejam ignorados pelos critérios diagnósticos tradicionais (como o DSM e a CID).
A pesquisa, que analisou dados de 884 jovens entre 10 e 24 anos em 16 países, aponta um desalinhamento entre o que os médicos buscam e o que os adolescentes sentem. Enquanto a tristeza foi identificada em 92,3% dos casos, o isolamento social (78,9%) e a solidão (69,2%) apareceram com frequências quase tão altas, configurando-se como “barreiras invisíveis” entre o jovem e o mundo.
A “Parede” entre o jovem e a realidade
Para o psiquiatra Christian Kieling, um dos autores do estudo, o tratamento focado apenas na tristeza ignora o sentimento de deslocamento relatado pelos jovens. Muitos descrevem a sensação de estarem “separados do mundo”, como se houvesse uma parede de vidro impedindo a conexão com amigos e familiares.
A análise dividiu a experiência da depressão juvenil em três grandes temas:
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Dificuldade de Nomear: O uso de metáforas para explicar a sensação de “estranheza” ou desconexão.
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Contexto e Cultura: O impacto direto de fatores como bullying, pressão escolar, conflitos familiares e estereótipos de gênero.
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Barreiras ao Cuidado: O estigma social e a desconfiança em relação aos serviços de saúde mental.
Diagnóstico vs. Vivência
A psicóloga Anna Carolina Viduani, líder do estudo, reforça que a classificação tradicional de transtornos mentais captura apenas uma fração da dor adolescente. Para ela, é urgente que profissionais de saúde, educadores e pais incorporem as características relatadas pelos próprios jovens no processo de cuidado.
“Os adolescentes de hoje enfrentam contextos e desafios diferentes, como a hiperconectividade digital e novas pressões sociais, que precisam ser considerados no consultório”, observa Anna Carolina. O estudo sugere que, ao ignorar a raiva e a frustração — muitas vezes confundidas com “rebeldia típica” —, o sistema de saúde perde a chance de intervir precocemente em quadros depressivos graves.
Como identificar e ajudar?
Para pais e responsáveis no Distrito Federal e no Entorno, o estudo serve como um guia para observar comportamentos que nem sempre parecem depressão, mas são gritos de ajuda:
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Afastamento voluntário: Deixar de frequentar lugares ou grupos de amigos que antes eram prazerosos.
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Irritabilidade constante: Explosões de raiva ou frustração diante de pequenos problemas.
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Desânimo físico: Fadiga persistente e sensação de “corpo pesado”.
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Sentimento de inutilidade: Comentários autodepreciativos frequentes.
Sobre o Hospital Moinhos de Vento
Referência nacional e internacional, o Hospital Moinhos de Vento é o único fora do eixo São Paulo a integrar o programa de elite do Ministério da Saúde (Proadi-SUS). O hospital é reconhecido por sua excelência em pesquisa e assistência, sendo eleito o terceiro melhor da América Latina em 2025.
Com informações: Hospital Moinhos de Vento, FSB Comunicação