Em novo livro, a pesquisadora Angela Frederick detalha como a falha na rede elétrica de 2021 expôs a vulnerabilidade de indivíduos dependentes de energia e a insuficiência das políticas públicas.
A Tempestade de Inverno Uri, que atingiu o Texas em fevereiro de 2021, não foi apenas um evento climático extremo, mas um marco de falha infraestrutural que revelou disparidades profundas na proteção social. Em sua obra recente, Energia Desativada, Angela Frederick, professora da Universidade do Texas em El Paso, explora as experiências de pessoas com deficiência e doenças crônicas que enfrentaram condições fatais durante o colapso da rede elétrica texana.
O estado do Texas destaca-se nos Estados Unidos por possuir uma rede elétrica isolada e desregulamentada, uma decisão política que remonta ao início dos anos 2000. Segundo Frederick, essa estrutura transformou a eletricidade em uma mercadoria negociável, em detrimento de sua função como bem público essencial. Quando o sistema falhou sob o peso do frio extremo, a ideologia de “individualismo rude” do estado mostrou-se insuficiente para proteger os cidadãos mais vulneráveis.
A vulnerabilidade dos indivíduos “dependentes de energia”
A pesquisa de Frederick introduz conceitos cruciais para entender a relação entre infraestrutura e saúde:
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Vulneráveis ao poder: Indivíduos com doenças crônicas que sofrem mobilidade limitada ou dores intensas sem aquecimento ou refrigeração para medicamentos.
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Dependentes de energia: Pessoas cuja sobrevivência imediata depende de equipamentos médicos duráveis movidos a eletricidade, como ventiladores pulmonares ou concentradores de oxigênio.
Para esses grupos, o corte de energia não representou apenas desconforto, mas um risco de vida imediato. O livro detalha histórias de sobrevivência extrema, como a de Rita, uma mulher indígena com insuficiência cardíaca que tentou manter-se aquecida em uma tenda usando aquecedores a propano em Austin.
Falhas nos registros de emergência e preparação individual
Um dos pontos mais críticos abordados pela autora é a ineficácia dos sistemas de registro. Muitos cidadãos haviam se registrado no STEAR (State of Texas Emergency Assistance Registry) e junto às empresas de serviços públicos como clientes dependentes de energia. No entanto, durante a crise, esses registros não garantiram a manutenção da luz ou assistência prioritária.
“As pessoas sentiram-se traídas. Foi-lhes pedido que se registassem, mas isso não significou nada no momento de maior necessidade”, afirma Frederick.
Isso demonstra, segundo a pesquisadora, as limitações do modelo de “preparação individual”. Embora estocar alimentos e suprimentos seja importante, a segurança real depende de políticas públicas que fortaleçam a infraestrutura crítica e tratem energia e água como direitos fundamentais protegidos.
Redes de cuidado e resiliência comunitária
Diante da ausência de intervenção estatal eficaz, surgiram as chamadas “redes de cuidado”. Estas são redes informais e recíprocas compostas por pessoas com e sem deficiência que se apoiam mutuamente. Frederick observou que a comunidade surda e a comunidade cega em Austin organizaram-se espontaneamente para verificar o bem-estar de seus membros e distribuir recursos básicos, como água e comida.
Essas redes operam em contraste com modelos tradicionais de caridade, valorizando a interdependência e o conhecimento específico da comunidade sobre suas próprias necessidades.
Recomendações para o futuro planejamento climático
Com o agravamento da crise climática e a maior frequência de desastres, Frederick defende que as pessoas com deficiência devem estar no centro das estratégias de resposta. Atualmente, a maioria dos planos de emergência pressupõe que todos os cidadãos podem dirigir, ouvir alertas sonoros ou permanecer em longas filas para suprimentos.
Ao centrar o planejamento nas necessidades de quem possui deficiência, as autoridades podem identificar pontos de vulnerabilidade que, uma vez corrigidos, beneficiam toda a população. A conclusão da autora é clara: a resiliência a desastres não é apenas uma questão de kits de emergência individuais, mas de compromisso coletivo com a integridade das infraestruturas públicas.
Com informações: Grist