O escritor e filósofo afro-europeu Dénètem Touam Bona, em sua obra A sabedoria dos cipós, ressignifica o conceito de marronagem — a fuga do sistema escravocrata — como uma estratégia filosófica e política de “derramamento” e descivilização. O autor inspira a observação de territórios brasileiros, como quilombos e favelas, que se organizam em comunidades autônomas e desenvolvem tecnologias próprias (como o Quilombo Tainã/SP) em uma busca por liberdade e resistência colonial
O escritor, filósofo e curador Dénètem Touam Bona (1973), de origem franco-africana, utiliza as reflexões do poeta martinicano Édouard Glissant para construir conceitos como cosmopoéticas e cosmopolíticas. Um pilar de seu trabalho é a releitura da marronagem, tradicional técnica de fuga de pessoas escravizadas, como um ato mobilizador de insurreição e rebeldia.
Marronagem: fuga como presença e autonomia 🌱
Diferentemente da percepção comum de covardia, Touam Bona define a marronagem como uma estratégia de existência perspicaz que permite o “vazamento” e a extrapolação de dominações coloniais, sociológicas, econômicas e simbólicas.
“A marronagem começa em terras africanas: é transatlântica desde o início. Mas é, obviamente, nas Américas – tornadas o coração do sistema escravagista – que essa forma de vida e resistência conhecerá seu auge, até se tornar matriz de verdadeiras sociedades marronas.” – Dénètem Touam Bona
Após o “derramamento” (a fuga bem-sucedida e a organização), a marronagem se torna uma organização comunitária que inventa outras formas de viver.
O Brasil como território marrom
A obra de Dénètem ilumina a resistência em territórios brasileiros, como quilombos, favelas, alagados e terreiros. Esses espaços geram redes de apoio mútuo e acordos sociais coletivos, refazendo políticas sociais e culturais. A marronagem aqui se manifesta como uma fuga que resulta em forte presença, gerando outras formas de existir e de estar no mundo, como uma forma de “descivilização” e autonomia.
O Quilombo Tainã: um exemplo de autonomia tecnológica
O Quilombo Tainã, em Campinas (SP), é um exemplo prático dessa autonomia solidária. Seu manifesto declara: “De ponta a ponta somos nós por nós e ponto. Nem .com, nem .gov, nem .org!“
O Tainã desenvolveu:
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Roça computadorizada: Utiliza uma placa low tech que mede a umidade do solo e controla a irrigação, garantindo autossuficiência.
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Data center (Mucua): Permite a conexão contínua entre territórios quilombolas mapeados e armazena sua memória material e imaterial por meio de um sistema de acervo independente, o Baobáxia, desenvolvido pela rede Mocambo.
A sabedoria dos cipós, que dá título ao livro, simboliza o entrelaçamento e a capacidade de ser flexível, crescer de forma “desordenada” e contornar obstáculos, recusando-se a ser domesticado.
Agenda no Brasil
Dénètem Touam Bona está em visita ao Brasil, tendo participado da FLUP (Festa Literária das Periferias) no Rio de Janeiro. Ele participará de uma conversa sobre seu livro A Sabedoria dos Cipós (ubu, 2025) no dia 27 de novembro no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. O livro se relaciona com a obra de diversos pensadores, incluindo Ailton Krenak e Édouard Glissant.
Com informações: Diplomatique, Dénètem Touam Bona, Lahayda Mamani Poma