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Comportamento

Natal: Uma Construção Histórica entre a Fé, o Poder e o Consumo

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A história do Natal é um exemplo clássico do que o historiador Marc Bloch chamava de “ídolo das origens”. Em vez de ser uma celebração estática que nasceu pronta com o cristianismo, o Natal é uma colcha de retalhos de transformações culturais, decisões políticas de Roma e sincretismos que moldaram o que celebramos hoje.


O Mistério da Data: Por que 25 de Dezembro?

Contrariando o senso comum, não existem evidências bíblicas ou históricas de que Jesus tenha nascido em 25 de dezembro. Na verdade, indícios sugerem o contrário:

  • O Clima em Belém: O relato bíblico menciona pastores ao relento cuidando de ovelhas. No inverno da Judeia (dezembro), as temperaturas chegam a $0°C$, época em que o gado ficaria recolhido, indicando que o nascimento provavelmente ocorreu na primavera ou verão.

  • A Ausência nos Primórdios: Autores cristãos dos séculos II e III, como Irineu e Tertuliano, não mencionam celebrações de nascimento. Orígenes de Alexandria chegava a ironizar festas de aniversário como “práticas pagãs”.

  • A Oficialização: A citação mais antiga do Natal aparece apenas no século IV (ano 336), em um almanaque romano. A data foi oficializada sob o pontificado do Papa Júlio I (337-352).

Sincretismo: O “Sol Invictus” e a Luz do Mundo

A escolha de dezembro não foi aleatória. Foi uma estratégia da Igreja para “cristianizar” celebrações romanas populares:

  1. Homenagem ao Sol: Em 460, o Papa Leão I expressou preocupação com fiéis que se inclinavam ao Sol antes de entrar na Basílica de São Pedro.

  2. Substituição Simbólica: Como os Evangelhos já chamavam Jesus de “a luz do mundo”, a Igreja substituiu o deus Sol Invictus pelo “Sol Divino”, Jesus Cristo.

  3. Expansão: A data foi gradualmente aceita no Oriente, chegando a Jerusalém em 439.

De “Novo Mundo” ao Hiperconsumo

A celebração cruzou oceanos através da colonização, mas foi moldada pelas realidades locais:

  • Padrão de Poder: Para o sociólogo Aníbal Quijano, o Natal nas Américas impôs o calendário europeu e imagens de um Cristo branco e europeizado (como nas obras de Da Vinci), ignorando a origem médio-oriental de Jesus.

  • Adaptações Tropicais: No Brasil, o Natal de verão incorporou a farofa (indígena) à ceia. No Uruguai, a data é oficialmente o Dia da Família desde 1919, desvinculada do sentido religioso estatal.

  • A Era do Consumo: O filósofo Gilles Lipovetsky define a fase atual como hiperconsumo. O Papai Noel e a troca de presentes tornaram-se o centro de um fenômeno que busca satisfação emocional imediata, muitas vezes neutralizando o sentido original da data.


Reflexão Histórica: Recordar a origem de Jesus — um judeu nascido fora do centro do poder, sem posses e cercado por marginalizados — desloca a lógica do consumo moderno e devolve à data um significado de resistência e simplicidade.


Com informações: Diplomatique

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Comportamento

A ciência do abraço: como um gesto simples transforma o corpo e a mente

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Muito além do afeto, o contato físico dispara uma cascata de reações biológicas que reduzem o estresse e fortalecem os vínculos sociais.

Abraçar é um gesto presente no cotidiano das pessoas desde a infância, carregando um significado biológico muito mais profundo do que uma convenção social. Ao encostar o peito no de outra pessoa, o organismo interpreta o toque como um sinal de segurança máxima. Em poucos segundos, o cérebro inicia a liberação de substâncias químicas que atuam diretamente no humor e na sensação de acolhimento. A ciência demonstra que esse contato é essencial para a sobrevivência e o desenvolvimento humano, agindo como um regulador natural das nossas emoções mais complexas.

O principal protagonista dessa transformação é a oxitocina, conhecida como o hormônio do vínculo. Produzida no hipotálamo, ela é liberada durante o toque pele a pele, reduzindo instantaneamente sentimentos de medo e desconfiança. Além do conforto emocional, o abraço prolongado ativa o sistema nervoso parassimpático, que desacelera os batimentos cardíacos e normaliza a respiração. Esse mecanismo ajuda a “desligar” o modo de defesa do corpo, permitindo que o indivíduo saia de um estado de alerta constante para um estado de relaxamento profundo e restauração.

Os principais benefícios biológicos e psicológicos

Abaixo, os pontos fundamentais que explicam por que o abraço é uma ferramenta poderosa para a saúde:

  • Redução do Cortisol: O abraço sinaliza ao cérebro que o ambiente é seguro, diminuindo a produção do hormônio do estresse, o que ajuda na concentração e no sono.

  • Fortalecimento da Autoestima: O gesto funciona como uma validação silenciosa de que a pessoa é valorizada e aceita pelo outro.

  • Comunicação Não Verbal: Transmite empatia e solidariedade em momentos onde as palavras são insuficientes, como em situações de luto ou crises de ansiedade.

  • Resiliência Emocional: Pessoas que mantêm contato físico afetuoso frequente tendem a lidar melhor com traumas e isolamento social.

  • Saúde Cardiovascular: Ao reduzir a pressão arterial através do relaxamento, o abraço contribui indiretamente para a saúde do coração.

O papel do toque no desenvolvimento humano

Desde o nascimento, o contato físico é a primeira forma de linguagem de um bebê. A ausência desse estímulo pode gerar impactos psicológicos negativos a longo prazo, pois o toque é a base da percepção de pertencimento. No mundo adulto, o abraço continua sendo o elo que mantém relações familiares, românticas e de amizade estáveis e duradouras. Ele cria uma rede de apoio invisível, essencial para a manutenção da saúde mental em uma sociedade cada vez mais digital e solitária.


Com informações: Olhar Digital

 

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Comportamento

As flores mais perfumadas do mundo encantam cientistas e embelezam jardins

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Estudos botânicos revelam espécies com alta concentração de óleos essenciais que promovem o relaxamento e transformam o ambiente doméstico

O aroma de uma flor possui o poder de transformar o clima de uma residência, acalmar a mente e despertar memórias afetivas. De acordo com registros do Royal Botanic Gardens, Kew, certas espécies se destacam mundialmente pela intensidade de seu perfume natural. Pesquisas publicadas na revista Scientific Reports indicam que o aroma de flores como a gardênia está associado a respostas fisiológicas de relaxamento, auxiliando na redução da tensão e na melhora do humor. Esse fenômeno ocorre devido aos compostos voláteis presentes nas pétalas, que funcionam como um aromatizador vivo e natural.

A jardinagem moderna tem apostado cada vez mais no conceito de jardins sensoriais e na biofilia para promover o bem-estar em áreas urbanas. Integrar plantas aromáticas ao cotidiano não é apenas uma escolha estética, mas um gesto de autocuidado que conecta o morador ao ritmo da natureza. Essas flores utilizam seus óleos essenciais para atrair polinizadores, mas acabam oferecendo benefícios terapêuticos aos seres humanos, tornando-se tendências de decoração e saúde mental.

Comparativo das espécies campeãs de perfume

Para quem deseja iniciar um jardim aromático, é importante conhecer as características e o nível de cuidado de cada planta:

  • Jasmim: Famoso por seu perfume doce e intenso, é ideal para áreas externas e possui custo de manutenção baixo.

  • Gardênia: Conhecida pelo aroma sofisticado e propriedades relaxantes, exige um nível de cuidado moderado e solo mais ácido.

  • Dama-da-noite: Exala uma fragrância marcante durante o período noturno, sendo perfeita para janelas e varandas com custo acessível.

  • Lavanda: Além do perfume suave e herbáceo, é amplamente utilizada para fins terapêuticos e exige sol pleno para florescer.

Por que o aroma é mais forte em certos horários?

A intensidade do perfume floral está diretamente ligada aos ciclos biológicos da planta. Muitas espécies liberam seus óleos essenciais com maior vigor no início da manhã ou durante a noite para atrair polinizadores específicos. Esse mecanismo biológico interage com o sistema nervoso humano, criando sensações de conforto e tranquilidade que ajudam a pontuar pausas mentais necessárias na rotina agitada das cidades.


Com informações: Olhar Digital

 

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Brasil

Fogos de artifício no Réveillon: especialistas alertam para sofrimento de autistas e idosos

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Ruído intenso pode provocar crises sensoriais, insônia e descargas de adrenalina; cidades buscam alternativas como drones e fogos silenciosos para promover inclusão.


A tradicional queima de fogos na virada do ano representa um momento de dor e desconforto para uma parcela significativa da população. Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), idosos e bebês sofrem impactos que vão desde a irritabilidade momentânea até crises severas de ansiedade e agressividade. Segundo o neuropediatra Anderson Nitsche, a hipersensibilidade auditiva comum no autismo faz com que o barulho seja processado pelo cérebro como uma ameaça física, comparável a estar em meio a um tiroteio, gerando sofrimento que pode persistir por dias através da insônia.

Neurologistas apontam que a reação fisiológica inclui taquicardia e aumento da pressão arterial, já que o organismo entra em estado de alerta máximo. No caso de idosos, especialmente aqueles com demências, o barulho excessivo pode desencadear surtos de delírios e alucinações. Para os especialistas, a manutenção de tradições que geram sofrimento alheio demonstra falta de empatia, especialmente quando já existem tecnologias capazes de proporcionar espetáculos visuais sem o impacto sonoro destrutivo.


Impactos Sensoriais e Fisiológicos

O ruído dos fogos de artifício afeta diferentes grupos de maneira específica:

  • Pessoas com Autismo: Podem entrar em “crise sensorial”, manifestando vontade de fugir, choro inconsolável ou comportamentos autolesivos. O cérebro não processa o som como celebração, mas como uma agressão negativa.

  • Idosos com Demência: O barulho desorganiza o processamento de informações, prejudicando a memória, o raciocínio e o sono no dia seguinte.

  • Bebês: O despertar brusco e a dificuldade em adormecer devido ao barulho intermitente prejudicam o desenvolvimento e o bem-estar dos pequenos.

Alternativas para uma Celebração Inclusiva

Diversos municípios brasileiros e organizadores de eventos particulares estão adotando novas práticas para preservar o simbolismo da festa:

  1. Fogos sem Estampido: Mantêm a beleza das cores no céu sem os ruídos de explosão que superam os limites de decibéis suportáveis.

  2. Shows de Drones: Apresentações coreografadas que utilizam luzes LED para criar figuras e mensagens, oferecendo um espetáculo moderno e silencioso.

  3. Projeções Mapeadas: Uso de luzes em prédios e monumentos históricos para criar experiências visuais coletivas.

  4. Uso de Abafadores: Para famílias em locais onde a proibição de fogos ruidosos não é respeitada, o uso de fones abafadores de ruído é uma medida paliativa recomendada.

O Papel da Legislação e Fiscalização

Embora muitas cidades, como Curitiba, possuam leis proibindo fogos com barulho há anos, a falta de fiscalização rigorosa ainda permite que artefatos ruidosos sejam utilizados. Especialistas defendem que a mudança de comportamento humano é necessária para que a alegria de uns não dependa do sofrimento de outros. “Celebrar pressupõe convivência”, afirma a psicóloga Ana Maria Nascimento, reforçando que a inclusão deve ser o pilar das festividades públicas em uma sociedade diversa.


Com informações:  Agência Brasil

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