Mais de 15 milhões de estudantes do ensino médio estudam em escolas com baixa resiliência a enchentes; 8 milhões em instituições não adaptadas para secas
Um
estudo realizado pelo Observatório Nacional de Segurança Hídrica e Gestão Adaptativa (ONSEADAdapta) aponta que as
mudanças climáticas podem afetar o calendário escolar no Brasil. Dos
mais de 26 milhões de estudantes brasileiros matriculados no ensino médio,
57,6% (15 milhões) estudam em
escolas com baixa ou mínima resiliência a enchentes e
33,8% (8 milhões) em
instituições não preparadas para seca.
Impactos de eventos extremos
Os resultados indicam que
quase 5 milhões de estudantes estão estudando em áreas com
resiliência mínima a inundações e
10 milhões em regiões com
baixa adaptação. Em relação à seca,
quase 1 milhão de estudantes estão em áreas com
resiliência mínima,
4 milhões em áreas de
baixa resiliência e
3 milhões nas de
resiliência média.
"No ano passado, mais de 1 milhão de estudantes [do ensino médio] perderam aulas no Brasil por causa de eventos climáticos extremos de seca ou de enchentes", disse Eduardo Mario Mendiondo, professor da EESC-USP e um dos autores do estudo.
Exemplo da Amazônia
Em 2024, durante a
seca severa que acometeu a região amazônica, onde estão situadas as bacias dos rios
Trombetas e Madeira, muitos alunos
não puderam frequentar a escola porque o nível da água ficou muito baixo para a navegação. Para lidar com esses extremos, têm sido adotadas medidas como
arrecadar fundos para ajudar os alunos,
obter suprimentos de alimentos,
comprar materiais escolares e
ajudar a pagar professores e funcionários. Entre os meses de
julho e novembro, os mais secos na região, os professores
precisam flexibilizar o currículo.
Resiliência pedagógica
Com base nessas experiências, tem sido utilizado o termo "
resiliência pedagógica" para descrever as
práticas educacionais adotadas pelos professores na Amazônia para lidar com as interrupções das aulas em razão da seca e das enchentes.
"Esse cenário pode causar sérios impactos na educação no Brasil. Por isso que na LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] é premissa mandatória, agora, a gestão de risco de desastres", afirmou Mendiondo.
Eventos extremos e secas
Segundo
José Marengo, pesquisador do
Cemaden, as
secas são os eventos extremos que causam maiores impactos no Brasil: "
As secas não são somente eventos meteorológicos, mas também socioeconômicos, porque afetam a economia e a sociedade como um todo. E é preciso lembrar que o Brasil é muito vulnerável a secas". O pesquisador apontou que as áreas mais afetadas por secas no Brasil são a
região Sul, parte da
Amazônia e o
sul do Nordeste. Uma das tendências verificadas é que têm ocorrido
eventos extremos de chuvas concentradas em poucos dias, seguidos de
períodos muito secos e longos.
Impactos na saúde indígena
Na Amazônia, as secas de 2023 e 2024 também têm contribuído para
problemas de saúde mental nas populações indígenas, apontou
Sandra Hacon, pesquisadora da
ENSP-Fiocruz. A
poluição dos rios pelas queimadas também tem afetado a saúde das populações indígenas, podendo levar a
quadros graves de desidratação.
Com informações: ECO