
O diagnóstico de esgotamento, burnout e ansiedade, que afeta desde executivos a trabalhadores de aplicativos, está sendo explicado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Sua obra, “A Sociedade do Cansaço” (2010), tornou-se referência global para entender o mal-estar contemporâneo, no qual a exaustão parece ter se tornado a regra.
Han, professor da Universidade de Berlim, afirma que as patologias do século XXI não nascem mais da repressão (sociedade do "não"), mas da cobrança interna de que o indivíduo "pode sempre mais" (sociedade do "sim").
O pensador argumenta que a pressão deixou de ser primordialmente externa e institucional, e passou a ser interna. O comando “tu deves” (típico da sociedade disciplinar) foi substituído pelo “tu podes” (típico da sociedade do desempenho).
Neste novo regime, o neoliberalismo transformou o trabalhador em um "empreendedor de si mesmo".
Lógica da Autoexploração: O indivíduo se explora voluntariamente, sob a crença de estar exercendo sua autonomia e liberdade.
Falha Individual: Fracasso, depressão e sofrimento deixam de ser vistos como problemas estruturais e são interpretados como falhas da incapacidade pessoal de se adaptar ao ritmo exigido.
Para Han, essa estrutura de autoexploração é mais eficiente do que as formas clássicas de exploração.
Os quadros psíquicos globais (burnout, ansiedade, depressão) são vistos por Han como sinais de um mundo saturado de estímulos que opera em regime “24/7”, sem desligamento. A figura central dessa dinâmica é o sujeito multitarefa, sempre conectado e disponível.
Han classifica esse excesso de positividade — de estímulos, possibilidades e exigências — como uma forma de violência neuronal. A hiperatividade, celebrada no mercado, é, na verdade, a incapacidade de recusar estímulos e estabelecer limites.
A consequência lógica desse modelo, que exige produtividade total e ignora os limites da mente e do corpo, é o colapso.
Diante do diagnóstico, Han propõe caminhos de resistência que contrariam a lógica da aceleração: a reivindicação do tédio, do silêncio, do descanso e da recusa. Ele chama isso de “potência negativa”, ou seja, a capacidade de dizer “não” e de sustentar a pausa.
Para o filósofo, os grandes feitos culturais da humanidade nasceram da atenção profunda e da contemplação, e não da hiperatividade. Ele sugere:
Menos cálculo e mais contemplação;
Menos otimização e mais lazer;
Cultivo lento em vez do acúmulo infinito de tarefas.
Com informações: Revista Fórum, Editora Vozes