
Em entrevista ao Fórum Onze e Meia neste Dia da Consciência Negra, o professor de História e humorista Matheus Buente — vencedor do Prêmio Paulo Gustavo deste ano — abordou temas centrais da sociedade brasileira, como racismo, exclusão social e a importância da Educação.
Buente, que produz shows críticos sobre política e racismo, questionou o debate sobre o limite do humor. Para ele, o foco não deve ser a falta de limites, mas sim o alinhamento ético do humorista.
"É muito difícil uma pessoa que condena o racismo produzir uma arte racista," afirma Buente.
O professor defende que a "defesa da falta de limite" serve para legitimar discursos rechaçados e que causam opressão. Ele sugere que quem se incomoda com a crítica de que uma fala é racista ou intolerante deve refletir sobre o que realmente deseja expressar.
Para Buente, entender como a História do Brasil foi construída torna "impossível não ser sensível às questões raciais". Ele celebra a relevância do Dia da Consciência Negra — que se tornou feriado nacional em 2023 — por seu simbolismo e por fomentar o debate acadêmico e social. Ele compara a data ao 1º de Maio, onde a população se reúne para celebrar e, ao mesmo tempo, reivindicar.
Buente argumenta que negar as questões raciais é "negar a realidade brasileira", pois a maioria dos problemas sociais, como exclusão, desigualdade e violência urbana, têm a questão racial como cerne.
"Todo ciclo de opressão tem como cerne a questão racial no nosso país. Combater os problemas raciais e lutar por reparação aos povos indígenas e à população negra é construir um futuro de tranquilidade para toda a população brasileira," acrescenta o professor.
O humorista também criticou a "farsa" da guerra às drogas, que, segundo ele, vitimiza primariamente a população negra e periférica. Buente ligou a letalidade policial e a violência nas periferias diretamente ao projeto histórico de exclusão, iniciado com a Lei de Terras pós-abolição, que impediu a população negra de ter acesso à moradia e a direitos básicos, forçando sua ida para as favelas.
Ele lamenta o tratamento dado a pessoas em situação de rua, que são vistas como objetos a serem "removidos" em vez de indivíduos cujas necessidades (emprego, moradia, assistência) não foram atendidas.
Na área da Educação, Buente defendeu que o Brasil deve abandonar o neoliberalismo para alcançar a qualidade, pois ele "não é feito para incluir".
Ele cobrou do governo um projeto de valorização do professor, defendendo que o cargo de Ministro da Educação deveria ser ocupado por alguém com conhecimento de sala de aula, além de carreira política. Nesse sentido, ele critica a defesa do Novo Ensino Médio feita pelo atual ministro, Camilo Santana, afirmando que as mudanças só parecem positivas para quem desconhece a realidade da Educação.
Buente finaliza defendendo uma reforma educacional profunda que construa escolas acessíveis, acolhedoras, coloridas e alegres, que estimulem os jovens e não reproduzam a experiência de "vigiar e punir" (Foucault), combatendo a repressão que pode levar à violência juvenil.
Com informações: Revista Fórum